terça-feira, 18 de setembro de 2012

Papá, quero uma revolução! Mas uma em que as pessoas se não aleijem.

Desgraçadamente, os portugueses parecem não gostar de regimes democráticos e desperdiçaram a oportunidade de ouro que lhes foi dada com o PREC, construindo uma vida acima das suas possibilidades, um conceito verdadeiramente obscuro, inventado pela Universidade de Verão do PSD quando o auditório se viu na impossibilidade de concluir um exercício de Matemática do 6º ano. Se eu vivo uma vida que me é possível viver, de que forma se afere que essa vida se encontra acima das minhas possibilidades? Não me digam que é tendo como referência as férias da Cristina Ferreira em Saint-Tropez? Quem não cometeria a impossibilidade de efetuar uma mamada ao Manuel Luís Goucha para ir com a Cristina Ferreira - desde que de boca amordaçada - a Saint Tropez?


Segundo a versão daquela associação folclórica constituída pelo António Barreto (o avô Pingo Doce), o Rui Ramos (um perigoso fascista mascarado de gentleman), o Vasco Pulido Valente (um cónego de Braga mumificado em marreta), a Maria Pataroca Mónica (a avó catedrática com Alzheimer), a Fátima Bonifácio (o travesti fumador), e o João Carlos Espada (o merceeiro que caiu no caldeirão das sociedades secretas do Harry Potter) os portugueses não tinham possibilidade de irem a Porto-Galinhas (e foram), não tinham condições para ir à Riviera Mexicana (e foram), não tinham guito para ir à Jamaica (e caramba, foram mesmo). Filhos das puta dos portugueses. Não gostam de Londres.


Além disso, puseram-se a comprar camisas lavadas, casas de férias no Alentejo (quem não tem uma?) arranjaram os dentes, compraram carros alemães, frequentaram churrascos com aventais importados, aprenderam a escovar a boca depois das refeições, começaram a nascer vivos, em vez de nascer mortos e colocados em cestos ao lado das batatas que estavam a ser retiradas da terra pelo resto da família, começaram a ir à escola em vez de frequentar só a catequese, enfim, coisas que todos sabemos serem um luxo completamente dispensável na Europa do sul, quando toda a gente sabe que devíamos estar todos a trabalhar como criadas de servir, como sempre fizemos, para a família Pulido Valente e as outras dez famílias que mandavam nisto prosperarem em paz. Eu tenho uma outra narrativa. Escusam de procurar os culpados - uma velha mania católica. A verdade é que não tivemos uma revolução e agora é tarde para fazer uma. Não vale a pena penalizar as pessoas, simplesmente não aconteceu connosco. É como aquele momento em que sabemos abruptamente que a gaja mais gira e inteligente da turma acabou de beijar o gajo da mota e blusão de marca, quando nós estamos vestidos com uns calçõs confeccionados pela nossa pobre mãe, a partir de um tecido comprado na Retrosaria do bairro e que tem estampado um colorido padrão de veleiros, brancos e azuis. É que nem vale a pena chorar, estamos absolutamente proibidos de verter lágrimas enquanto envergarmos calções confeccionados artesanalmente.


É verdade que isto foi inteiramente imerecido. A Inglaterra teve Shakespeare e uma revolução pouco tempo depois (será coincidência?). Nós tivemos o chato do Gil Vicente e do Camões e ainda levamos com um regime monárquico de direito divino pelo cu acima durante mais trezentos anos. Uma revolução, eis o problema. Caramba, todos os países desenvolvidos a tiveram, e se tivéssemos que pagar juros de mora sobre o incumprimento da degola da aristrocacia portuguesa, não existiria dinheiro suficiente no planeta para nos salvar da bancarrota. Querem iniciar um peditório? Tenho aqui a moeda do momento: 1 euro. É um começo.


Por isso, quem quiser agremiar-se para montar uma guilhotina de plástico no Terreiro do Paço e testá-la no Primeiro-Ministro e Ministro de Estado e das Finanças (só até os gajos se mijarem todos), pode contar com o meu apoio e o meu talento em trabalhos necessários e pouco edificantes; agora não me venham é com o sofrimento das pessoas, porque foi exactamente o sofrimento das pessoas (onde há pessoas, há sofrimento) que nos trouxe até ao lugar onde nos encontramos.


O problema económico português, para sintetizar, e não entrar agora aqui na velha questão da facilidade de acesso a meios de pagamento, isto é, «ouro do Brasil» (porque me dá vómitos e dores de cabeça, um dia explico porquê) é apenas o resultado de um fenómeno a que um neo-clássico chamaria as externalidades do mercado de legislação pública. Nesse mercado, é determinante que os custos de transferir direitos de propriedade sejam baixos, a fim de que os ajustamentos sigam o caminho correcto (dos mais incompetentes e ricos para os mais pobres e competitivos), e para o caminho ser correcto deve estar correctamente assinalado por bandeirinhas cujo prémio é proporcional ao retorno geral para a população dessa nova estrutura de direitos de propriedade que se propõe, implicitamente, numa dada estrutura fiscal, e para que o retorno seja geral - atenção que agora vai ser dita uma coisa importante - é preciso ter instrumentos que possam medir esse retorno, isto é... isto é..., isto é...., precisamos de comprar um Parlamento. Voilá. Nós não temos um Parlamento, temos um conjunto de pessoas reunidas emiciclicamente que comentam a Gabriela, quando estreia pela primeira vez, e que comentam a estreia da Gabriela, quando estreia pela segunda vez. Numa próxima oportunidade apresentarei aqui as razões que explicam a ausência de um Parlamento, mas posso adiantar desde já que a Igreja e o Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar (lamento a falta de originalidade) terão aqui um papel fundamental.


Melville (coitado, no meio disto tudo, esqueci-me dele) escreveu que os países se dividem entre aqueles que se dedicam a inventar um futuro e os que se consomem (até à destruição, acrescento eu) na tentativa de responder a um passado. Não é preciso dizer-vos em que lugar nos situamos, pois não?


Como diz o ngonçalves, esta merda vai acabar mal, mas temos a consolação de que ao menos, como já aqui disse uma vez, e apesar de termos saltado a etapa fundamental da guilhotina (achamos desagradáveis quaisquer derramamentos de sangue que não incluam espanhóis) caramba, fizemos coisas bonitas.


 

2 comentários:

Maria D Roque disse...

Fabulasticamente bem escrito.
Para quem tiver paciência :
http://www.youtube.com/watch?v=HMOdcijvk2Q

Izzy disse...

Foda-se, que isto ta mesmo bem escrito!