segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Não se preocupem que ninguém lê livros

É comum entre os literatos tentarem impressionar o auditório mais ignorante com um velhíssimo truque de feira que consiste num pobre exercício de classificação das pessoas em termos de votos para melhor escritor russo de todos os tempos. Apesar de nem o tolinho do George Steiner ter escapado a esta parvoíce, a inocente comédia transforma-se perigosamente em tragédia quando os literatos apresentam os dois líderes dos sub-conjuntos: Tolstoi e Dostoievsky. Ora, toda a gente sabe que o melhor escritor russo de todos os tempos foi o ucraniano Nicolau Gogol, seguido de perto pelo igualmente ucraniano, Anton Tchekov, apresentando-se em terceiro lucar, mas a distância considerável, e muito cansado pela sua pesada linguagem e excessiva deambulação pela teoria da produção agrícola de finais do século XIX, o conde Tolstoi, logo vigiado de perto por esse velhinho maluco apreciador de pitas, Vladimir Nabokov, e só então, num nada honroso 5º lugar, esbaforido e emporcalhado por um cheiro a esgoto e a lodaçal, o jornalista chato que chegou a trabalhar no Correio da Manhã de S. Petersburgo, Dostoievsky.



A escrita de Gogol resiste inacreditavelmente à poeira do tempo, e troça mesmo do futuro, o que deveria consistir um problema intrigante para os físicos, que em vez de andarem a bricar com aquela coisa dos túneis, deviam era pegar em papel e lápis, e tentar compreender as merdas. Na verdade, «Diário de um Louco» é a maior síntese de controlo técnico alguma vez produzida por mão humana: do controlo narrativo, passando pela torrente de consciência, até à vertigem do controlo impessoal da política como máquina, está lá tudo, até o que ainda não foi experienciado pela nossa consciência a caminho da doença crónica. Quanto a Tchekov, «Enfermaria nº 6», «O monge negro» e «Casa com Mezanin», são três contos que juntos não chegam às 200 páginas mas que fazem, de uma penada, a  crónica da medicina como auto-ilusão, a crítica da filosofia como pesadelo humano, e denúncia da arte como prisão afetiva e asfixia inútil, revelando, de caminho, três vidas imoladas ao absurdo da beleza. Não vos canso mais.

 
 
O que queria mesmo dizer, é que, no meu caso, só costumo dividir as pessoas entre as que julgam que Don Delillo, Philip Roth, Paul Aster e Jonathan Frazen são grandes escritores, e as que sabem que nenhuma destas pessoas escreveu uma só página que fosse que se revele digna de nela limparmos o cu, uma vez que um escritor se distingue, se não por outras coisas mais higiénicas, ao menos pela consciência de que uma página se sustenta, não pela relação com a realidade, o tempo, ou - Maria Santíssima nos valha - os acontecimentos -, mas sim pelo engenho metafórico, a elegância, a velocidade, e a quantidade de emoção sintetizada em raciocínio, coisas que se devem extrair sem esforço, de cada parágrafo, e coisas que de modo algum se encontram nas fastidiosas obras dos quatro só por acaso norte-americanos. Depois de Melville, a vida ficou díficil, eu sei, mas tenham paciência, o tempo é um recurso escasso, e já vai sendo tempo de América fazer alguma coisa pela causa.


A verdade é que nós, os europeus, que temos obrigações morais nesta matéria, não estamos a ajudar, e temos deixado que as Alexandras Lucas Coelho deste mundo dirijam as críticas jornalísticas de literatura e convençam as pobres pessoas, que na Europa ainda compram livros baseadas em opiniões especializadas, a consumir recursos nesses pobres tristes retratos de pessoas cultas com sentimentos que passam 400 páginas, se for preciso, sem o mais pequeno estremecimento, sem a mais pequena centelha, sem fornecer o mais pequeno indício que  nos permita distinguir os 4 citados norte-americanos de um qualquer jornalista cultural fracassado.

 
 
Deixo-vos com uma curta declaração que, pelo meu profundo e grande amor à escola, não posso deixar de fazer ao país: estão absolutamente proibidos (em especial os caralhos de esquerda, mas também os filhos da puta de direita) mas absolutamente proibidos, de voltar a usar a expressão neo-liberal, sem pelo menos ter lido a bibliografia básica, A Theory of the Consumption Function. Ainda por cima, seus merdosos, nem vos assiste a desculpa do preço, pois o texto está comunistamente disponível na internet, mas para isso terão que largar o caralho que vos foda do Facebook. É que isto não é só neoliberalismo para aqui, e neo-liberalismo para acolá, e o Chile do Pinochet nos anos Setenta, e o paneleiro do Passos Coelho não sei o quê, e o Estado Social não sei que mais, que isto de ser o parasita preguiçoso do Mário Soares, só acontece uma vez na história de uma República. Nada disso, no vosso caso é preciso fazer o trabalho de casa, seus caralhos. É preciso saber que o Milton Friedman era descendente de Arménios, e que casou com uma mulher baixinha mas muito viva, e que é um escritor pelo menos ao nível de Darwin e Freud, e que o seu melhor amigo era outro economista igualmente brilhante como escritor, mas menos irritantemente pregador, chamado George Stigler (com quem Friedman esgalhou as suas lições sobre o sistema de preços) e que escreveu um magnífico artigo - Smith's Travels on the Ship of State - onde se demonstra por que é que os políticos respondem a interesses tão objetivamente porcos como qualquer Presidente da Sonae, e onde se pode compreender com profunda tranquilidade por que razão o Pedro Passos Coelho e o Vítor Gaspar são a merda que são, e fazem a merda que fazem, aproveitando para saudar o irreverente Daniel Oliveira  e o irrequieto Sérgio Lavos, recomendando aos dois, en passant, que enfiem, um de cada vez, o supracitado artigo pelo cu acima, isto no caso de serem capazes.


 

4 comentários:

a.i. disse...

é muito bom viver numa democracia com liberdade de expressão(não estou a gozar). Os angolanos em Angola não têm a mesma sorte que tu e nós todos. No DR deles saem pérolas da Assembleia Nacional, e cito, a Condenar, veementemente, a utilização reiterada de linguagem ofensiva à honra, à reputação e ao bom nome do titular de um órgão de
soberania Eng.º José Eduardo dos Santos e recomendar à Comissão
Especializada em razão da matéria, a abertura de um processo disciplinar contra o Deputado Augusto Pedro Makuta Nkondo.

Hipster Luke disse...

Curioso não teres referido o Turguenev como candidato a melhor escritor russo de todos os tempos.

Claramente a luta seria a três, entre Turguenev, Tolstoi e Gogol. Dostoiesvsky, como Nabokov (que nem sequer deveria ser aqui chamado à conversa... Já o Tchekhov, e, já quem mencionaste de todos os tempos, Mikhail Solokhov e Aleksandr Solzhenitsyn fariam mais sentido) tão bem diz no prefácio da edição do Anna Kareninna da Relógio D'Água, ficaria de fora dessa luta.

Mas isto sou eu que sou um literato a tentar impressionar um auditório, eu é mais futebol. E aí é Benfica uber alles.

José Mário Bronco disse...

Comentário publicado por José Mário Bronco no blog A Causa Foi Modificada, um blog with dense argument, modernist poetry, long political tracts, and texts that need careful attention and slow reading, da autoria do trafariense maradona:

Caros amigos (acho que vos posso tratar por amigos apesar de desprezar a maioria das alminhas que aqui costumam cagar sentenças, mas com estas merda do facebook trata-se toda a gente por amigo).

Não tinha previsto vir aqui hoje ensaiar sobre nenhum assunto em particular. O pensamento requer tempo e eu preciso de reflectir acerca das conclusões a que chego, antes de as partilhar com os outros. Sei do respeito e devoção que as pessoas têm por mim e nunca lançaria um mau disco só porque a editora me obriga a tal, por isso vos garanto que os meus ensaios são assunto sério e bem pensado e não chorrilhos de tretas para ocupar espaço.

Mas um acontecimento irrompeu entretanto, acontecimento esse que pede o meu contributo. O país, coitado, merece e eu sou gajo que marca presença nas grandes ocasiões, como estão cansados de saber. Reparem: filósofo que é filósofo vai a fábricas de automóveis. Sartre foi à fábrica da Renault e falou ao megafone. Eu fui à da Bentley fazer uma visita guiada e gostei muito do que vi. José Sócrates foi a uma daquelas onde se fabricam os mata-velhos de 50 cc e perguntou o que era preciso para conduzir aquelas aberrações. Cada filósofo vai à fábrica de automóveis que merece ir, concluem vocês e concluem bem. Mas voltando ao tema do momento, eu não poderia deixar de vir aqui comentar o mais recente acontecimento que está a causar toda esta polémica e mediatismo: o post do alf publicado no blog ‘elogio da derrota’ no dia 10 de Setembro de 2012, de sua graça.

Está lá tudo. Basta saber ler. E aqui começam logo o problema: descontando os 10% de analfabetos que existem, mais os 70% que, sabendo ler, não lêem – por várias razões que para aqui não interessam -, mais ainda os 15 % que, sabendo ler, lêem mas não entendem nada do que lêem, restam apenas 5% de pessoas que lêem e percebem o que lêem. São os 5% para quem eu e mais 76 pessoas recenseadas em Portugal escrevem. Mas não me apetece estar aqui a falar de estatísticas porque sei que vocês não estão para aí virados. Voltando outra vez ao tema – foda-se, hoje até pareço um daqueles aprendizes de político quando não querem falar de um assunto qualquer. Mas eu quero. Quero dizer que o alf esgalhou uma grande posta, essa é que essa. Estão lá todos os postulados que devem estar patentes ou latentes num ensaio sobre literatura. Entre outras coisas, os seguintes:

-Chama tolo ao Steiner;
-arreia nas alexandras lucas coelhos;
-elogia as divindades russas Dostoievsky, Gogol, Tchekov e Tolstoi;
-vomita em cima dos caralhos de esquerda;
-reduz o Daniel Oliveira e o Sérgio Lavos à insignificância que lhes pertence;
-chama ao Mário Soares aquilo que ele é;
-coloca o DeLillo, o Auster e o Franzen na prateleira onde ficam bem: a dos escritores fraquinhos com tanto de vaidosos como de chatos;
- e diz outras coisas mais, todas elas muito bem ditas.

A cena saiu tão bem que até tem falhas, como meter o Roth ao lado do DeLillo ou falar de literatura a sério sem falar no Lawrence Sterne, mas calma, estas falhas até dão consistência ao texto e não o menorizam em nada. Portanto, resta-me terminar esta minha participação recomendando a todas as pessoas que se mantenham tranquilas e não se deixem levar por impulsos. Bem sei que o Rui Gomes da Silva continua a ser pago para falar de futebol, assim como a Clara Ferreira Alves a ser paga para escrever aquilo de que se lembra quando está a cagar. Mas, foda-se, mais uma vez, ninguém disse que isto era fácil. Agora vou fazer copy/paste desta cena no blog do alf e depois dou à sola: a minha vida não é isto.

José Mário Bronco, Filósofo Medieval, especialista em gajas mod, inglesas, da década de 60

alma disse...

Oh !!
Agora que o alf falou de almas mortas ?!!!
isto está cheio de comentários, o que é que se passa??

Gostava tanto de vir para aqui ler sossegada :)