terça-feira, 11 de setembro de 2012

A ver se nos conseguimos entender antes do Passos Coelho e o Vítor Gaspar foderem esta merda toda

A todos os que revelam incompreensão na vertiginosa virtude das listas, tenho a infeliz missão de anunciar que é justamente esse o sinal de que não estão habilitados para compreender a profundidade das coisas que, por vezes - e só por vezes, porque somos só 5%, segundo o José Mário Bronco -, vos são ditas. A lista é o mais antigo e eficaz instrumento de conhecimento (listas de ovelhas, listas de exércitos, listas de receitas e despesas, listas de animais, listas de equações, listas de combinações binárias, listas de coisas que apreciamos no objeto amado, listas de tesouros que nunca mais tocaremos quando se nos acabar o tempo) e a todos os que, movidos por comovente ternura, revelam uma grande compreensão pela subjetividade da expressão individual, pela «voz» de cada autor (e relembro que o Calvino disse tudo sobre este mega embuste da invidualidade do autor num ensaio chamado «Cibernética e fantamas») ou pela qualidade diferenciada de cada sistema nervoso, a esses eu digo que cada autor escreve com uma lista de caracteres, e é da rigorosa ordenação desses símbolos, e da listagem emociada das palavras, e da hierarquização férrea das frases, e da sequenciação mórbida dos capítulos, e da megalómana sucessão de livros, que se faz aquilo que os senhores cépticos das listas e dos rankings julgam ser a flutuante relatividade da literatura e dos juízos estéticos que sobre ela podem ser produzidos.

 
Claro que valorizar listas de literatura bem feitas pode revelar-se um exercício fútil, sobretudo para aqueles que ainda não compreenderam que o tempo é o nosso recurso mais escasso, e que para qualquer mortal que encontre na literatura a salvação (Deus abençoe a Santíssima Trindade da solidão, Kafka, Proust e Pessoa) é absolutamente urgente levar a cabo uma hierarquização dos livros porque o tempo não pára, as leis da física aceleram, diante dos nosso cérebro cansado, o desgaste dos nossos (ó miséria) limitados olhos, e com a sombra da morte poisada sobre a nossa frágil existência, só podemos dizer, como o filósofo apologizado por Platão, ai de nós, os que queremos ainda saber antes de nos ser oferecida uma taça transbordante de veneno. Aprendam a viver com as limitações humanas que é o primeiro passo para que as lágrimas da plenitude se derramem no vosso rosto em perene oração pela dignidade da criatura humana (uma abraço ao paneleiro do senhor cardeal-patriarca).


Vamos ao que interessa. Porque é que ninguém (à excepção da entusiasmante esposa russa e do labrego medíocre do John Updike) compreendeu Nabokov? Precisamente por que o monumentalmente magistral escritor russo (e só vagamente associado à galáxia anglo-saxónica pelos analfabetos e os jornalistas) pertence ao minúsculo conjunto dos 5% que compreendem a profundidade das merdas. Devo dizer, antes de prosseguir, que uma das mais traumáticas razões das incompreensões mútuas que a todos nos mergulham em perdas de tempo (que poderiam ser eficazmente poupadas por listas apropriadas) decorrem daquilo a que Snow apelidou as duas culturas. A nossa sensibilidade está fundada numa especialização que é, de certa forma - e como explicou outro grande escritor de ciência Herbert Simon - um mecanismo de resolução de problemas que apenas conduz a novos problemas. Ora, Nabokov é provavelmente o único exemplo no século da bomba atómica, e da emancipação da arte como paneleirice, a caminhar no perigoso arame que sobrevoa as duas culturas: a arte e a ciência. Falar de uma ausência de calor humano em Nabokov, ou de falta de compreensão pela tragédia humana, e os seus pecadilhos e misérias, é não compreender um homem que fez da suspensão das lágrimas o mais comovente e apaixonado hino ao afecto humano, que ensaiou a mais comovente e humanizadora leitura da Metamorfose de Kafka - um texto julgado pelas pessoas que não gostam de listas como bizarro, frio e revelador do absurdo da vida, quando é sobretudo uma sensível, clara e compreensível fábula, bebida em Ovídio - provavelmente o maior de todos os tempos (mas voltarei ao tema) - onde se derramam todas as nossas belas qualidades.
 
 
Claro que parte da incompreensão a propósito de Nabokov se explica a partir dos mesmos princípios com que facilmente condenamos Dostoievsky. Em primeiro lugar, é este o momento para vestir a toga, louvar a filosofia escolástica, dar um pontapé no cu de Passos Coelho e Vítor Gaspar (que a esta hora deve estar a tentar demonstrar que sendo uma merda de político é um grande académico) e fazer um ponto prévio: para fazer boas listas é preciso conhecer as propriedades dos elementos listados.
 
 
Normalmente, quantas pessoas conhecem a fundo Dostoievsky e Nabokov? Muito poucas, uma vez que foram autores que escreveram abundantemente. Nabokov escreveu um livro intitulado Ada ou ardor que é uma obra prima até num mundo que fosse esteticamente governado pelos punhos de aço e rendas do walter hugo mãe. Que dizer de Glória? Que dizer de Pnin? Poderá um leitor atento de Pnin afirmar que não há compreensão pela fraqueza humana, que não há humildade, que não há consciência das trágicas fronteiras da inteligência e dos perturbadores limites da consciência? Quando comparado com Dostoievsky, Nabokov vence em toda a linha, até nas coisas menos conseguidas. O Jogador é um livro vertiginoso, conseguido, embora lhe falte, aqui e ali, ornamento, dissimulação, mascarada, enfim, vida, e se o colaborador do Correio da Manhã de S. Petersburgo tivesse seguido esse caminho teria provalmente chegado a um lugar bem diferente. Acontece que escrever um livro naquele estado semi-divino de pré-engate a uma gaja é um acontecimento ainda com mais baixa taxa de ocorrência do que um bronco como Mário Soares entrar para a história da Democracia Ocidental. Regra geral, os livros de Dostoievsky estão repletos de coisas que não servem para nada, sentimentos de comoção ao nível do Bispo emérito de Leiria-Fátima, elementos mórbidos, descrições, reparos, anotações que servem para embalar um leitor de baixa ou média cultura. Claro que sendo um indivíduo de talento, não escreveu maus livros (reparem que lhe atribuo um 5º lugar) mas compará-lo a Nabokov? Valha-nos a Virgem Santíssima.
 
 
Sobre Melville: é que nem sequer discuto o problema, de tão claro que é, a menos que o Tolan consiga sustentar consistentemente que há aqui um problema.
 

 
 

1 comentário:

silvia camara disse...

Listas... :)
Gosto de as ler e tirar conclusões precipitadas :))) :) como gosto de ler as respostas ao questionário Proust:)verdadeiras minis auto biografias

Quanto a Nabokov só pela lição que retirei da Lolita, valeu a pena* :)

Proust, é um dos meus preferidos :)como qualquer russo que aqui vem mencionado :) Dosto. no meio da rebaldaria que foi a vida dele considero-o como um Balzac com a profundidade de um jogador Russo, gostei dos diários de um escritor e do Idiota :))

*o Fernando Pessoa :)é um mix de filosfia com poesia :)))
eh eh eh eh
não tem culpa do lixo dos estudos pessoanos :) e na falta de discernimento dos académicos:) que se podem incluir numa lista de preguiçosos que aprenderam a falar com propriedade sobre assuntos que não estudaram é tão fácil embarretar :)))