terça-feira, 4 de setembro de 2012

A sociedade aberta e os meus inimigos

Soube há pouco num almoço que às vezes também sou tratado na minha ausência por pseudo-intelectual, e reparem que eu nem sequer faço a mais pequena ideia de quem seja o Morrissey, um merdas cantor qualquer que os pseudo-intelectuais postam ininterruptamente nos seus blogues sobre a amizade. Eu, reparem, que nem sequer escrevo nos jornais e nutro até algum respeito por apresentadores de televisão. Acontece que as pessoas não me perdoam o facto de eu gostar de ler, aspeto (o autor deste post respeita o acordo ortográfico) que me tem penalizado ao longo desta magnífica mas curta jornada, tanto em questões de paridade escolar, onde o prémio da ignorância livresca é desde há muito altamente incentivador da boçalidade a que as pessoas chamam humildade, como em questões de auto-análise e escrutínio mental, uma vez que o corpo é o primeiro inimigo da cabeça, e sobre isto vão consultar o Aristóteles, de preferência em português do Brasil (o autor deste post respeita o acordo ortográfico).
 
O que eu tenho consumido de horas a cravar longos punhais prateados com cabo de marfim no lombo das minhas mais secretas ambições, o que eu tenho consumido de olhos em livros e blogues de pessoas consagradas, espumando pela boca de desejo, sedento por reconhecimento, o que eu tenho consumido, por outro lado, de moderação dos instintos e de derrota realmente interiorizada, mas realmente interiorizada, notem bem, tão interiorizada como aqueles caracóis que ficam eternos e plurimilenares, expostos em veludo negro mal iluminado em corredores de museus de história natural, encavalitados na sua própria essência, afundados dentro de rochas imemoriais, fechados sobre o tempo como um segredo terrível e vergonhoso.
 
 O que eu tenho tentado avisar as pessoas sobre a inutilidade da cor dos azulejos da cozinha. Porém, talvez isso seja, na verdade, muito relevante, mesmo a marca da pasta de dentes terá a sua primazia num mundo de dentistas brasileiras (e atenção que o autor deste post respeita o acordo ortográfico), e eu tenha estado enganado todo este tempo. Ma não é isso que distingue os génios? Uma profunda convição sobre a sua inutilidade, sobre a sua incapacidade de interpretar o mundo, ou dotar a vida de um sentido? mas convém que o façam com a mestria suficiente para que se note que não o estão a dizer, e nesse aspeto tenho falhado em toda a linha, dando a cada pirueta encarpada que o meu salto desenha no seu desenvolvimento, um grito revelador da natureza ambiciosa do salto. Não pode ser, não nos toleram tentativas de levantar os pés do chão. Temos que ser manhosos, profundos, inspiradores, secretos, impiedosos, ignorantes, silenciosos, temos que ser humilhantemente labregos, consensuais, temos que ser humanos, normais até às lágrimas, temos que ser pessoas, caralho. Só posso dizer que a mim, muito difícil tem sido sê-lo.

2 comentários:

AM disse...

inutil, a cor dos azulejos?

AM num teclado que näo respeita acordos ortográficos

(o Morrissey é o único génio desta posta)

silvia camara disse...

alf,

o gosto é um bom indicador de valores :)
seja pelos azulejos seja pela música seja pelo que for :)

beber uma coca-cola e comer uma chamuça é das melhores combinações que há :)
enquanto a qualidade da coca-cola mantém-se nem todas as chamuças são iguais :)

pior que um pseudo intelectual só um snob intelectual :)
deixemos as parolices para os outros que vivem a medir graus de conhecimento por um canudo :)

ai like esta frase :)

"Resvala na couraça da minha indiferença"

o sucesso quase nunca é aquilo que os outros pensam que é :)

continuação de boas leituras :)