terça-feira, 17 de julho de 2012

Sob o manto diáfano da preguiça, a nudez forte da desistência


Um estudo encomendado por um dos departamentos deste blogue, o gabinete de relações públicas para o comércio asiático, chegou a uma conclusão inesperada: o post mais visitado versa sobre José Luís Peixoto. Isto significa que as pessoas andam desesperadamente a tentar explicar com os próprios e pobres meios de que dispõem - a Google e o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa - a origem do fenómeno literário português. Volto a estas personagens e problemas com alguma recorrência (peço desculpa aos mais urbanos e preocupados com a qualidade da atmosfera) porque também o Jornal de Letras, que cadavericamente agoniza dependurado por molas da roupa nos estendais dos quiosques, faz questão de recorrentemente brindar o público que transita pelas avenidas com as peças literárias dos referidos autores. Se os livros são maus, a cronística de hugo mãe e Peixoto é francamente monstruosa, deficiente do ponto de vista técnico, muitas vezes ilegível e imprecisa nos seus argumentos, além de assustadoramente entediante, o que se explica em duas proposições simples: a) é muito mais difícil escrever pouco que muito; b) sem a codificação imbecil do jargão psico-afectivo, toda a ignorância militante se torna uma inevitabilidade transparente e nua. Seria preciso procurar nas leis obscuras da psicologia - uma ciência morta desde os anos 30 - e na economia - uma ciência morta desde o século XVI - os vectores que empurram o jornalismo cultural para a extinção. Se a pergunta «mas quem raio compra o Jornal de Letras» fizesse algum sentido, talvez pudessemos responder que a captura da indústria do livro pelas forças do mal é um problema que espera o seu analista e Oceano Cruz parece indisponível neste momento. Aos que respondem sistematicamente com a perversão do mercado, respondo que a distribuidora dos livros de valter hugo mãe faliu recentemente e concerteza não foi por falta de visibilidade de um dos autores distribuídos. Será que os livros que por aí se vendem aos milhares são uma grande merda e não se aguentam em corridas de fundo? Será que as editoras, ao viciarem as recepções do público com a visibilidade do produto, estão agora a morrer sob o efeito doce do seu próprio veneno, pois ao suspenderem o gosto especializado e impedindo, ou não promovendo, o florescimento da crítica, neutralizaram os mecanismos lendários e ancestrais de aversão ao risco no mercado do livro? A história empresarial está cheia de pequenas anotações à teoria da galinha-dos-ovos-de-ouro e não vou aqui desenhar uma introdução à vida e morte dos mortos-vivos, isto é, o mundo editorial em papel.

Termino com uma pergunta que não me deixa dormir desde os 14 anos: será que as pessoas seguem o critério quantitativo (livros mais vendidos) para não terem que pensar sobre o que compram? Sendo assim, não será o mercado, um magnífico e espectacular i-pad político-colectivo para fugir à enlouquecedora e escolástica questão da vontade, uma vez que ter preferências, justificadas e individuais, cansa muito e exige tempo, o que dada a divisão e especialização do trabalho (a minha equivalência pessoal para o diabo), se tornou no grande problema da modernidade? Claro que sim, apenas pergunto para acordar os que possam andar por aqui a dormir. Na minha modesta opinião, continuo a pensar que a culpa é toda minha, e dos que podendo fazer melhor (sim, é esta a expressão exacta) se revelam demasiado lentos e idiossincráticos para as grandes e profundas necessidades do mundo.

4 comentários:

alma disse...

pertinaz questão :)
as livrarias arruinam-se e as editoras idem exactamente porque os livros que ocupam as bancadas são lixo. São escritos por zeros para zeros sobre zeros logo o zero é um numero lixado.
Oscar wilde tem um aforismo muito bom que explica o fenómeno:)))

Raquel disse...

Permita-me discordar da sua forma de ver as coisas. Leio José Luís Peixoto porque é de facto uma leitura interessante. Se não o é para si, não significa que não possa ser para outros. Não tinha nunca ouvido falar nele até surgir uma oportunidade de ler um livro dele no decorrer de uma unidade curricular do meu curso. Desde aí que li todos os livros dele e acompanho também as suas crónicas. Muitas delas "falam" de situações do quotidiano, sobre as quais pouco reflectimos, infelizmente. É um autor que pode assemelhar-se a um sociólogo da vida quotidiana. Portanto, se o que ele escreve é zero, a sociologia da vida quotidiana também o é?

Já leu o livro "Morreste-me"? ou "Uma casa na Escuridão"?

Anónimo disse...

Cara Raquel.
Agradeço o tom cordial da sua mensagem, o que nem sempre é apanágio dos leitores da obra de José Luís Peixoto e constitui um poderoso desarme da minha raiva congénita, mas confesso que não sei o que lhe diga. Não estou a par da unidade curricular onde lhe foi proposta a leitura da obra de José Luis Peixoto,porém, devo dizer, sem pinta de ironia, que a Raquel corre o risco de ser enganada.
A obra de José Luís Peixoto representa apenas o ponto de vista de José Luís Peixoto e não será necessário entrar na selva da epistomologia para lhe explicar que uma generalização disciplinar - mesmo tão pobre de instrumentos e dispositivos teóricos como a sociologia - implica um método e a validação de um conjunto de especialistas, ao longo de um debate crítico, por vezes complexo e não linear.
Percebo o que a Raquel quer dizer: Peixoto é uma pessoa que de forma simples reflecte sobre banalidades e na medida em que é simples e não reflexivo, há algo de semelhante à aridez da má ciência, tantas vezes parecida com a sociologia.
Como literatura é pobre, precisamente por pretender representar o quotidiano. É que sobre o quotidiano de cada um de nós, ninguém melhor do que um cada nós pode vir a constituir-se como um especialista. Aquilo que se pede aos escritores é que sejam especialistas de si próprios e não aprendendo nada sobre Portugal na obra de Peixoto, aprendemos ainda menos sobre o próprio Peixoto, que é única coisa que poderia levar-nos a perder tempo com um livro.
Se quiser aprender sobre sociologia da vida quotidiana, leia Shakespeare: está lá tudo.Continue a ler livroes e a expressar as suas opiniões.
Atenciosamente, alf.

Raquel disse...

A unidade curricular era "Problemáticas Psicossociais Contemporâneas", e o livro que li, "Nenhum Olhar", foi bastante importante para a mesma.
Também tive uma parte de Sociologia da Vida Quotidiana como bloco temático de "Análise e Intervenção Psicossocial", e foi de novo um instrumento muito útil a análise da sua obra. Não concordo quando diz que não nos permite a reflexão, a escrita de JLP, pois a mim já me permitiu muita. E também acho que depois de ter lido tantas obras dele já seu muito sobre o autor, pois ele escreve muito sobre si mesmo. Mas isto são opiniões, e gostos...
Bem haja :)