sexta-feira, 13 de julho de 2012

Impunidades on-line, humor português e humoristas irritados: alguns aspectos

Vamos falar da sua história. De onde vem o nome Markl?
Da Áustria. O meu avô era austríaco, foi um dos fundadores da Tudor em Portugal. Hoje não falo nada de alemão, nem nunca fui à Áustria, embora tenha lá família.

Conhece bem os dissabores da popularidade do online. Teve de fechar a parte de comentários do site, tem clones no Twitter - pessoas que se fazem passar por si...
Penso que são sempre os mesmos, que querem enervar e desestabilizar. Bem, enquanto se mantiverem online tudo bem, só não me dava jeito que me espetassem uma faca... Vou interpor uma acção judicial, embora seja um oceano tremendo de chatices. Por isso é que muitas celebridades lá fora têm clones e já desistiram de se chatear - deixam-nos à solta. Eu decidi fazê-lo porque me irrita profundamente a impunidade do online. É preciso dar um exemplo, essas pessoas têm que aprender uma lição.

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As explicações dos fenómenos humanos baseadas em teorias de cunho geracional induzem quase sempre os analistas de vários tipos a incorrerem em erros grosseiros, nomeadamente o esquecimento de que qualquer comportamento adaptativo é condicionado pela competição entre indivíduos da mesma geração. Esta primeira frase saiu-me mal e serve aqui apenas como pretexto para uma introdução à minha teoria do humor em Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Aliás, não é sequer uma teoria: é uma posição de fundo que assume contornos analíticos para que o leitor não fique a pensar que sou só mais um ressabiado que vem para a blogosfera descarregar o insucesso, a incapacidade de realizar projectos e uma quantidade astronómica de insultos acumulados silenciosamente em casa, no trabalho e no café. Talvez o aspecto mais enervante das figuras públicas é que explorando, justa e legitimamente, os benefícios comerciais e políticos da exposição pública, julgam-se no direito, justa e legitimamente, de recorrer ao estado policial para extrair da popularidade todos os aspectos nefastos dessa mesma exposição que lhes permite, justa e legitimamente, encher os bolsos. Eu sei, eu sei, há um código civil e penal que prevê todos os comportamentos ilegítimos. Mas todos sabemos que esse mesmo código é repetidas vezes violado pelos próprios humoristas, pelo que o problema emerge apenas quando o primo da província nos bate à porta: perdemos o humor.
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Na verdade, não consigo deixar de pensar que a genialidade de Ricardo Araújo Pereira e Nuno Markl é apenas uma espécie de equivalente lúdico do caso Miguel «Maquiavel» Relvas. É verdade que têm sido feitos esforços incomensuráveis para nos convencer de que Araújo Pereira e Nuno Markl são génios que não conhecem limites mas como o próprio Araújo Pereira já várias vezes humildemente confessou em público, talvez esta gente não passe de um conjunto de indivíduo um pouco parvos, e é bom que os portugueses comecem a convencer-se de que Araújo Pereira e Markl podem mesmo ser apenas uns tolos que descobriram uma forma pouco trabalhosa de ganhar dinheiro, fingindo que são críticos mordazes do poder. Queria relembrar toda a humanidade que estes brilhantes e geniais humoristas, e indivíduos igualmente dotados de grandeza humana - como diria valter hugo mãe - são uma espécie de Miguel «Maquiavel» Relvas da Comunicação Social com cursos técnico-profissionais de jornalismo e licenciaturas na Universidade Católica. Nada nos garante que sendo, por exemplo, Araújo Pereira licenciado em Ciência Política em Harvard, isso lhe permitiria ser mais engraçado do que Miguel «Maquiavel» Relvas, ou que sendo Markl licenciado em Engenharia pelo M.I.T isso lhe garantiria uma representação mais repugnantemente cómica do que a movimentação de lábios de Mira Amaral, mas pelo menos talvez um pouco de escolarização de qualidade fosse o suficiente para nos salvar de textos absurdos e preconceituosos como o que Araújo Pereira publicou recentemente na Visão, defendendo os salários dos Enfermeiros por comparação com as mulheres da limpeza. O que esse texto assinala é a existência de um ponto de inversão em que o humor se transforma num problema, subjugando o raciocínio político em função do mecanismo retórico, indo por vezes ao ponto de subverter o próprio pensamento do autor, como julgo ser o caso de Araújo Pereira, um manifesto adepto do socialismo, que está a tentar encontrar financiamento para fazer cantar o amanhá nos cofres da Portugal Telecom.
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Quero deixar claro que este post não pretende insultar ninguém, até porque não quero chatices com os poderosos escritórios de advogados que servem Araújo Pereira e Markl. Apenas gostaria, se me é permitido, sublinhar a dificuldade de ultrapassar os limites profissionais e a especialização do trabalho colocada pelas sociedades monetarizadas. Se Araújo Pereira se dedicar a aprender em Shakespeare (uma vez que parece ser uma pessoa que gosta de comprar e ler o seu livro, de vez em quando) e acompanhar a evolução do bobo de Rei Lear, verá que existe uma grande diferença entre o humorista mediano que é um virtuoso do pensamento - o que lhe permite exercer a independência crítica e manter-se abaixo do nível salarial médio na sociedade medieval britânica - e o humorista virtuoso mas que é um Mira Amaral do pensamento político. A solução não passa por constituir uma comissão de censura mas por reconhecermos todos que o riso, como tudo o resto, também não é uma solução para nada, e isso, por si só, dá imensa vontade de rir, e permite facturas de televisão, net e telefone muito mais baixas já que descontando os engraçadinhos, não teriamos que «pagar a propaganda», como diriam as nossas avós.
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Não quero com estas linhas entrar no debate acerca do provincianismo dos portugueses, um provincianismo supostamente assinalado, segundo voz corrente, por uma sobrestima dos cursos universitários, popularizada na expressão «o país dos Doutores» - embora recomende a todos os leitores que consultem as estatísticas da OCDE e sustenham o espanto ao descobrir que temos níveis de licenciados abaixo da Turquia e da Grécia, dois países muito provincianos, mas muito menos do que os campeões em licenciaturas, a Inglaterra, Suécia, Dinamarca e Holanda, EUA, Canadá, etc, enfim, sociedades tão provincianas, mas tão provincianas que nem nos merecem aqui qualquer comentário. O que pretendo com estas linhas é apenas chamar a atenção para o que andamos aqui a fazer quando promovemos como líderes culturais os tolinhos da turma ao longo dos anos oitenta. Quem não se lembra de ter um Nuno Markl sentado na cadeira ao lado: o gajo filho de pais licenciados, que não fazia a ponta de um corno em virtude de um misto de irresponsabilidade e «costas aquecidas» pelo dinheiro da família, com um inegável, é justo reconhecer, sentido de auto-ironia - até porque eram gajos normalmente relativamente aproximadamente feios e um pouco toscos na abordagem ao sexo feminino (as gajas, ao contrário do mito que por aí circula, não gostam assim tanto de engracadinhos). Quem não se lembra de dar umas lambadas nos costados desses gajos, quando faziam merda num lance decisivo na final desportiva da escola, e quem não se lembra da sua capacidade para logo transformar tudo numa irrelevante gargalhada, mesmo uma goleada humilhante perante a turma de desporto, porque afinal de contas vamos todos morrer. Claro que vamos todos morrer, mas escusamos de ser goleados em vida. Ao que eles opunham que não há matéria que não possa ser desfamiliarizada da sua gravidade com um bom dispositivo cómico, até porque o homem é o animal que ri, e aqui caros leitores, emerge a cabeça monstruosa do problema.
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Afinal, quando nada o fazia prever, eis que o humorista veste a casula e começa a dar ordens sobre o que é afinal o «Homem». Ou pior ainda, sobre o que é a «mulher». Já não faltam sequer mulheres que respondem aos inquéritos das revistas sublinhando o sentido de humor como a qualidade mais apreciada num homem, o que não só constitui um insulto à masculinidade, como uma repugnante mentira. Sempre gostava de ver a reação dessas pessoas a uma piadinha do respectivo companheiro versando sobre o tema celulite, ou a uma anedota sobre as conversas sistemáticas em torno da qualidade da «relação», ou a um dichote clássico sobre comprimentos dos pés e a estrutura do lava-loiças, ou um aforismo galhofeiro sobre a altura da mulher e a sardinha. Enfim, a boçalidade cómico-pornográfica está inscrita no ADN masculino e não me parece que isso seja grandemente apreciado pelas mulheres. Na verdade, começo a ter uma sensação desconfortável perante a gargalhada constante, e julgo que não incorrerei na pena de morte, se sugerir que o humor se transformou na religião do século XXI. No momento em que a comunicação de massas e o público se transformaram nos soberanos consistentes da consciência colectiva, quem não ri, não é bom chefe de família. É verdade que o riso nos torna a vida mais fácil e constitui uma espécie de canivete suiço para qualquer problema, mas isso, também o vinho, é verdade que com mais efeitos secundários, mas respeitando mais a liberdade criativa de cada pessoa - o vinho possui a democrática capacidade de transformar Cavaco Silva num Ricardo Araújo Pereira - além de um aparente melhor desempenho na criação de emprego.
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Não quero deprimir o fim-de-semana do auditório e termino com uma invocação moralista e tão sisuda como a parenética barroca: que é o riso sistemático se não a apoteose triunfal da técnica sobre a variedade da linguagem?

3 comentários:

binary solo disse...

AHAHAHAHAHAH

só para provocar ;)

AM disse...

hoje, ao almoço, ouvi uma criança de 10 anos a responder à mãe (que contava as "dificuldades" dos "seus", dela, 10 anos): "isso é suposto ser educativo?" (se não foi "educativo" foi "instrutivo" ou "relevante" ou outra merda qualquer mas parece-me, para o efeito, que vai a dar ao mesmo)
não achei graça nenhuma
o riso sistemático é, como tudo o que é sistemático, um abuso da paciência alheia
isto dito, rir, é ainda, o melhor remédio
http://www.youtube.com/watch?v=hVlWU6M8krY

RIckyRicardo disse...

Há algum humorista português que aprecie Alf? E estrangeiro?