Posto isto, e embora a minha personalidade não possa confundir-se de maneira nenhuma com o Pacheco Pereira ou o António Manuel dos Santos, é necessário prevenir caçadas retrospectivas nas minhas posições, vindas de um futuro longínquo com intenções menos claras. Nada me move contra visões libertadoras do indivíduo, e pretendo eu mesmo libertar-me de mim próprio o mais rapidamente possível, e se por vezes pareço mais arreganhado contra os comunistas do 5 Dias é porque nada é mais enervante do que a mistura entre falácia argumentativa e orgulho moral, da mesma forma que nada é mais perturbador do que a tentativa de investir um argumento que se pretende escurado contra o poder da exploração, por meio da brutalização moral do raciocínio, fazendo da luta contra a exploração uma posição de autoridade, o que além de ser uma tautologia ridícula é também uma profunda incapacidade de fazer frente à incompreensão das coisas.
Se a posição a defender se fundamenta numa justa proporção dos meios de pagamento, propriedade, remunerações do factor capital e trabalho, então puxem das máquinas de calcular e das funções complexas porque a declaração de intenções não será suficiente, dadas as invejáveis capacidades dos indivíduos em encontrar novas formas de se penetrarem mutuamente e sem preocupações sistemáticas com os níveis de prazer obtidos pelos intervenientes. Se a posição a defender se fundamenta na compensação por danos sofridos, então puxem dos manuais de fisiologia porque os conhecimentos neurobiológicos aduzidos até agora não são suficientemente esclarecedores.
Veja-se este texto do idiota do Caetano Veloso respigado no blog do idiota do Pedro Mexia: Chico Buarque já citou mais de uma vez o rap (ou o hip-hop em geral) como a verdadeira música de protesto do nosso tempo: não é feita por universitários bem nutridos que se comovem com o sofrimento dos excluídos, mas pelas próprias vítimas da exclusão.
Os universitários bem nutridos, comovidos com o sofrimento dos excluídos, são em geral da mesma tipologia do 5 dias mas não me parece que fiquemos melhor servidos com as vítimas da exclusão, a menos que aceitemos todos regressar a padrões de reprodução das relações de produção regulados pela força da indignação. O Caetano Veloso e o Chico Buarque podem estar muito interessados na merda de música de protesto que por aí se produz mas não me parece que se resolvam problemas de organização política com a destruição do raciocínio musical, sob pena de conseguir a notável proeza de falhar não só os objectivos políticos como os estéticos. Aos que defendem uma comunhão da política com a estética, devo dizer que não só isto cheira logo a fascismo - o que é curioso, vindo normalmente de comunistas ou socialistas - como me parece muito provável que a tentativa de fazer muita coisa ao mesmo tempo acaba por não produzir nada de muito interessante.
Mas não é só na música de protesto que a bolsa de valores morais distribui as hierarquias. O Vasco Pulido Valente, numa entrevista recente, refere que o euro foi uma espécie de 50% desconto-Pingo Doce a uma escala gigantesca, o que apenas demonstra como esta gente foi para Oxford esfregar o cu nos relvados húmidos, e balançar a gordura junto às margens bucólicas dos regatos ingleses mas não perdeu um minuto a ler ou a tentar compreender o que quer que fosse. Continuam a achar que isto é tudo muito simples, e que os mais fortes são fortes porque são fortes e os mais fracos são fracos porque são fracos, o que é muito pouco para quem frequentou uma Universidade de prestígio mundial. Quanto ao conflito interpretativo entre teorias monetárias baseadas no papel do dinheiro como unidade de medida, a partir dos metais precisoos, e as teorias que defendem que o dinheiro é apenas uma actualização do importantíssimo papel do crédito nas relações sociais, ficam para pobres como eu que tenho que trabalhar para ganhar a vida, enquanto a malta de Oxford se desdobra em entrevistas.
De uma forma ou de outra, a necessidade é a mãe da indústria e nesse sentido, estamos no bom caminho,
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