segunda-feira, 7 de maio de 2012

Estou a trabalhar


Ontem, o inacreditavelmente imbecil do Mia Couto contou à parvinha da Paula Moura Pinheiro que tem um amigo caçador e que existem intersecções entre a escrita e a caça, pois o seu último livro, ao que parece, foi pago por uma multinacional pretrolífera, e que os leões apareceram no norte de Moçambique, e o caralho, porque mudei logo o canal, e apareceu uma imagem hedionda, um careca de óculos escuros a beijar o longo punho desnudo de uma virgem de cabelo curto. Meu deus, era o Pedro Abrunhosa, que ainda não sabe que não se pode andar por aí a beijar a mão a adolescentes lacrimejantes que acabaram de sofrer a desilusão das suas vidas. Demorei alguns minutos a recuperar e cheguei mesmo a ingerir um copo de vinho do Porto, porque, já dizia Gogol, a esse, o grande escritor, não virão procurá-lo as jovens mulheres de dezasseis anos, e muito provavelmente acabará a nadar num lago de fel, maldizendo a personalidadee materna, enfim, isto no tempo em que escrever era considerado uma actividade quase tão desprestigiante como trabalhar envolto numa bata branca na desmontagem de bois, algures nas traseiras de um talho, o dia todo a resfolegar em carne fumegante, sangue peganhento e vísceras cinzento-chumbo, e a verdade é que por causa destas merdas não preguei olho a noite inteira. Caralhos fodam a cultura e a televisão.

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