E sempre que era um concerto dos U2, as pessoas até dormiam na rua dias a fio para comprar um bilhete. Meu deus, para os U2. O mundo é assim. Também me intriga muito aquilo do Pique Nique do Continente ou as vuvuzelas da Galp e a bandeira humana e essas merdas. Ou pessoas que gostam de José Luís Peixoto ou de The National ou os congressos do PCP. Cada um tem a sua curva de utilidade que inclui, entre outras coisas, preocupações ideológicas e a sensação de ser manipulado.
acho que todos iriamos às lágrimas se vissemos os primeiros homo-stercus a articular as primeiras palavras. as primeiras palavras de perplexidade diante do mundo, de si mesmo... os primeiros sustos humanos. a pré-história das merdas.
o mais peor, comentador de A causa foi modificada, 10 de Maio de 2012 às 13:52
Uma coisa é certa: a leitura deste post nada trará ao leitor para além do curto prazer que representa a leitura de uma experiência subjectiva, e embora este seja um assunto muito obscuro, tudo parece indicar que esse prazer decorre das alegadas semelhanças entre experiências sensoriais, uma vez que todos estamos mais ou menos equipados com um sistema nervoso central. Posto isto, é evidente que as pessoas menos cultivadas, pouco curiosas e pouco treinadas na leitura, já navegaram para outras latitudes. Fiquemos então apenas nós, tu e eu, caro leitor acima da média, a fim de prosseguirmos esta silenciosa conversa, como se o tempo tivesse deixado de existir, e as hierarquias tivessem deixado de ser um problema.
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A forma particular como a intelecção das emoções se processa na inteligência, deve revestir-se de importância fundamental no sucesso literário. Na maior parte dos casos, é isto o que o público manifesta de forma pouco refletida quando diz que um determinado livro é «fácil de ler no sentido de cativar». Se escolhermos ao acaso um desses bizarros blogues onde pessoas com tempo se dedicam a ler uns quantos livros escolhidos sem qualquer tipo de critério, estranhamente baseadas numa espécie de selecção aleatória cara aos estatísticos mais ortodoxos, vemos que a identificação pessoal vem à cabeça da lista de critérios de sucesso. Nabokov bem tentou prevenir o leitor, e nas suas aulas monocórdicas desfez-se em explicações sobre a absoluta inutilidade da identificação, com personagens ou situações, no sucesso de um livro a longo prazo. No entanto, a falácia analógica é extremamente poderosa. O blog Planetamarcia (um nome sintomático) recebe o livro do premiado João Ricardo Pedro com uma sinceridade desarmante, e que serve bem o argumento que queremos desenvolver:
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«É a história de uma família, enaltecida por pormenores curiosos com que todos nos identificamos mas que na realidade poucas vezes vemos nas páginas de um livro. Vão sendo narrados “pedaços de rotinas” por vezes disparatadas e cómicas, histórias dentro de histórias, como se fossem muitos livros dentro de um só. Ri de puro prazer com as situações inesperadas, desencadeadas pelo que de mais típico caracteriza o “ser português”. Emocionei-me com a dureza das consequências da Guerra Colonial, com o peso da doença no seio de uma família, com todos os fragmentos que fui juntando até completar, à minha maneira, uma história que não tem fim no papel. João Ricardo Pedro tem um conhecimento da nossa História recente que não é comum na sua (também minha) geração. Senti-lhe gosto pela música e prazer pela arte.»
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Numa mente minimamente educada isto seria precisamente o ponto de partida para um juízo demolidor de O teu rosto será o último. Não vou agora dar conta do significado sociológico do Prémio Leya, muito menos da ampla visibilidade do mesmo ser, em si mesma, um objectivo comercial, independentemente do conteúdo das informações trocadas a propósito do livro. Interessa-me considerar, ainda que brevemente, os aspectos propriamente literários da obra, porque julgo que a literatura tem tudo de subjectivo no seu significado ontológico, mas a sobrevivência e pretígio dos autores, bem como o maior ou menor tempo de vida das obras literárias na memória das comunidades, nada tem de subjectivo enquanto fenómeno puramente prático.
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A razão pela qual o texto shakespereano continua a ser (exceptuando a Bíblia) aquele com maiores capacidades de resistência perante a selecção e mutabilidade, quer de um ponto de vista espacial e geográfico, quer de um ponto de vista cronológico e cultural, prende-se com as quantidades gigantescas de conhecimento retórico que o dramaturgo isabelino possuía. Mas a retórica pode advir de um conhecimento profundo da técnicas gregas, amplamente cultivadas numa civilização especializada no discurso, ou da experimentação quotidiana, por meio do estudo sistemático da utilização de recursos linguísticos. A retórica é a arte de falar bem, e embora Platão se tenha desde logo apercebido do tremendo conflito entre o bem enquanto sistema de símbolos inamovíveis e inalteráveis, e o bem enquanto técnica que permite alcançar os objectivos pretendidos, podemos estabelecer um ponto: falar bem significa convencer os grupos humanos de que se falou bem. Aqui entram em acção regularidades fenomenológicas que se perdem na noite dos tempos: erudição dos conteúdos, ritmo da frase, simplicidade de expressão, repetição dos caracteres, musicalidade do discurso, desfamiliarização das metáforas, plasticidade dos ambientes. Mesmo no que diz respeito à utilização especializada da língua - as enumerações (frequentes em Shakespeare), aliterações, anáforas, hiperbatos, o uso é magistral e revela uma experimentação quase obsessiva, o que não espanta num homem que se profissionalizaou em embasbacar audiências de putas e piratas, e não academias repletas de Professores de literatura e maricas. Em Shakespeare é evidente, por exemplo, uma assustadora capacidade para descrever através de símiles originais mas perturbantemente rigorosos e abrangentes (isto é, que não requerem conhecimento específico) assim como uma invejável capacidade para, nos milhares de palavras utilizadas, proceder a uma escolha de emoções, problemas, locais, situações, dados, que não dependem da evolução técnica mas que estão umbilicalmente ligadas a características humanas que, não sendo imutáveis, pertencem à teoria da variabilidade genética e não da relativização cultural.
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Para que não pensem que bato em ceguinhos por um prazer sádico a que recorrentemente me entrego, por via do meu peso excessivo e limitante impotência sexual, passo a explicar porque é que João Ricardo Pedro comete vários erros que o enterrarão como escritor a breve prazo. A referida Marcia no seu Planeta (que não faço a mínima ideia onde seja, note-se) copia excertos que a emocionaram particularmente:
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«Dona Laura, para quem as corridas de bicicletas, a par dos homens com brincos, das televisões a cores, dos implantes mamários, das lentes progressivas, dos astronautas e do Ramalho Eanes, eram augúrios de apocalipses, depois de uma manhã inteira ao espremedor e ao fogão, trancara-se no quarto a rezar para que aquilo acabasse depressa, e nem a presença do padre Alberto a demovera da clausura.»
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A primeira coisa que salta à vista é a obscuridade da caracterização: Shakespeare usava brinco, e isso nada nos diz sobre o seu carácter ou o das pessoas que não gostavam dele, e o tratavam como jovem pretensioso e intelectualizante, e mesmo as que invocavam o uso do brinco, podiam estar apenas a utilizar um recurso retórico, pelo que tudo na literatura depende da rede de significados criada para expressar uma dada mente. O problema é que a maioria dos escritores contemporâneos (e aqui os anglo-saxónicos mais recentes, mais do que todos) está na pré-história da filosofia, e desconhece que se não temos certezas sobre nós próprios (fui só eu que li Álvaro de Campos?) como as poderemos ter sobre o que os outros pensam? A tentativa de descrever Dona Laura falha completamente porque assenta em deduções superficiais sobre generalizações sociológicas de bolso: as corridas de bicicletas não eram bem vistas por um determinado tipo de mulheres (?) o progresso irritava e desgostava grande parte das pessoas apoiantes, ou vagamente simpatizantes, do ex-seminarista António de Oliveira Salazar, etc. Para acentuar a tacanhez dese tipo social lá vem o estafado ódio ao progresso, expresso por artefactos como a televisão, as lentes progressivas, ou actividades profissionais modernizantes, os astronautas, e talvez mesmo a alusão a Ramalho Eanes seja uma tentativa de o transformar numa espécie de electrodoméstico, não sei bem o que pensar. Aliás, quem é Ramalho Eanes na história de Portugal, alguém saberá? Daqui a trinta anos concerteza que não.
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Em suma, Dona Laura é aquilo que nos romances de Eça de Queiroz, nas conversas de café, e nas telenovelas brasileiras, se chama uma beata. Mas a espessura psicológica de uma beata pode ser das experiências mais eróticas desta pobre vida: mas para isso é preciso conhecimento das beatas, olé, olá, o doce cheiro do seu perfume antigo - intensificado pelo incenso e o fumo da cera pura - o rendilhado preto onde se adivinha a curva entumescida do sexo, os peitos maduros, cheios, um pouco antes do início da decadência, o andar levitante, a voz torturada e torturante, em suma, o imaginário sensorial que hipnotizou Bernini. Mas não, para João Ricardo Pedro, Laura vai para o quarto e reza. Mas se reza é porque na sua cabeça talvez o astronauta não ande apenas pela lua. Ou então, se não gostamos do lugar comum da beata ninfomaníaca - que só funciona bem em italiano - tentemos descrever a Dona Laura, sem mais. Mas porque quer Laura que aquilo acabe depressa? Essa seria a excelsa porta por onde teríamos acesso ao maravilhoso palácio da imprevisibilidade humana, mas na maioria dos escritores, as pessoas são tipos. Porquê? Porque não choraram ainda as lágrima humilhantes de que falava Proust, porque não percorreram ainda a corda tensa da paixão sobre o enorme abismo da destruição familiar, porque não observaram, porque não viveram, porque não arriscaram perder a cabeça por uma inutilidade qualquer, porque ainda não penetraram no ridículo das suas próprias vidas. Vejamos se melhora com a descrição do Padro Alberto.
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O padre Alberto, que torcia pelo Sporting com uma fé inabalável e conhecia pessoalmente as grandes glórias do clube – tinha inclusivamente uma fotografia em que aparecia abraçado ao Jesus Correia -, levantara-se ainda de noite e, com a solenidade que a liturgia exige, aspergira com água benta todo o percurso que atravessava a freguesia, desde o cemitério antigo até à fonte salgada. Um percurso repleto de curvas perigosas, descidas íngremes, bermas traiçoeiras.” (pág.50)
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A primeira imprecisão é gritante: as grandes glórias do Sporting? Quais glórias? Enfim, não se pode pedir a um autor com conhecimentos invejáveis sobre história de Portugal (segundo Planetamarcia) que conheça também a historiografia comparada do desporto. Ou pode? O caso de Jesus Correia é mais grave. Que passou pela cabeça de Jesus Correia para se deixar fotografar por um padre que anda pelas freguesias rurais a aspergir água benta desde o cemitério até à fonte salgada? É verdade que o hábito da punheta (um tema, aliás, abordado no livro) poderia ter dado ao padre Alberto a destreza suficiente para manobrar incansavelmente o hissope em todo o trajecto, qual badalo cavalar semeando a fonte da vida por pedras inóspitas. Porém, mais uma vez, temos um padre que asperge água benta e jovens que batem punhetas. Ora, uma descrição rigorosa de Portugal exigiria padres que batem punhetas e jovens que aspergem água benta.
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O ponto que quero destacar é que a escolha e utilização das metáforas dizem tudo sobre um escritor. A capacidade de descrever rigorosamente a emoção e retratar com inteligência as situações complexas, quer da compreensão, quer da incomprensão perante os fenómenos do mundo, está ao alcance de muito poucos porque implica tanto uma sensibilidade apurada quase até à insuportabilidade do real (dizia-se de Rosseau que parecia não ter protecção dermatológica sobre os nervos, daí ser muito raro a conjugação de forças que permite a um indivíduo com estas características não se afundar nas suas próprias lágrimas), como um monstruoso trabalho de crítica lógica e selecção qualitativa dos dados (o que pressupõe uma inteligência invulgar, facto que tantas vezes inviabiliza a obra, por pura arrogância), capacidades que permitirão, por exemplo, julgar se Jesus Correia pode figurar num texto literário como um veículo de significado. Eu julgo que não, mas eu não ganhei o prémio Leya (lá está - diz o leitor cínico - a incontornável cabecinha verde e escamada da inveja). Pois bem, esta capacidade de seleccionar é sempre o resultado de um conhecimento profundo de saberes muito diversos (e quanto mais diversos mais verosimelhança terá o livro) e sobretudo da história da literatura (que é a história do ofício) e é nesse sentido que João Pedro Ricardo é a parte mais triste e infeliz (confesso que até simpatizo com o seu genuíno amor à leitura) de uma utilizãção monstruosa da fragilidade humana (emissor e receptor incluídos) para gerar dinheiro (por quem não tem o mais pequeno amor à literatura), que faz uso das limitações de tempo das pessoas. João Ricardo Pedro tem duas características fundamentais num grande escritor: começou a publicar por necessidade e não estudou literatura. Porém, é igualmente protagonista de um acontecimento que revela as suas limitações enquanto autor (talvez reversíveis, com muito trabalho): começou a escrever igualmente por necessidade. É pena que não tenha tido mais tempo, condições financeiras e coragem intelectual para ter começado a escrever antes, pois revela algum domínio da língua, embora tudo pareça arrancado a ferros, e soe a falso, sendo a estrutura temática do livro muito convencional.
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Se é verdade que a necessidade é a mãe da indústria, isso não quer dizer de modo nenhum que tenha de ser a madrastra da literatura, mesmo sendo verdade que há pequenas diferenças de técnica entre a produção de alfinetes e a produção de textos, sobretudo do ponto de vista do autor. É um erro muito recorrente achar que a necessidade apenas se expressa em unidades monetárias, uma tendência que nos ficou da esplendorosa descoberta dos iluministas escoceses: a de que poderiam economizar as descrições do funcionamento da sociedade por meio da informação das preferências contidas nos preços. Raramente um escritor de livros quer apenas dinheiro: para isso`há a fórmula 1, o futebol, a banca de investimento, o comércio retalhista, as telecomunicações. 99% dos escritores procura sobreviver, mas mal atinge os 50 000 livros vendidos, passa ao segundo nível: a fama. Se o objectivo é vender, parabéns a João Ricardo Pedro. Se o objectivo é entrar para a história da literatura, tenho muita pena, mas não lhe posso dar uma boa notícia.
2 comentários:
Ai :) alf ... (suspiros)!!!
Que o AM perdoe-me :)
Os seus textos comovem-me :)))
perdoá-la!? :) de quê!? :)
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