terça-feira, 10 de abril de 2012

Tira o Cardozo, caralho.

1. Bastaram vinte páginas de O teu rosto será o último para ficarmos totalmente esclarecidos sobre o que vale e valerá João Ricardo Pedro. (Todos sabem como amo profundamente Lamarck e a previsibilidade). Sendo João Ricardo Pedro um engenheiro electrotécnico, muito naturalmente, o seu domínio dos polinómios, funções quadráticas e cálculo diferencial não permitiria que, enquanto autor, se enterrasse no deprimente lodo «consciencialista» da sua própria consciência, efeito psico-literário que responde pelo imperfeito e confuso nome de «eu». Este recorrente impressão em livro da torrente de pensamentos que devemos guardar para o chuveiro e a retrete, representa uma maldição que entrou na literatura portuguesa pela mão do falhado António Lobo Antunes e desde então tem medrado em mil formas de adaptação reversiva aos mais estranhos e bizarros ambientes mentais, desde cabeleireiras de Massamá até homossexuais de Vila do Conde. No entanto, com toda a ignorância historiográfica e biologista que caracteriza os licenciados pelo Instituto Superior Técnico, sobretudo nascidos antes de 1980 (época em que aqueles trinta prodigiosos minutos de contexto cultural das cidades europeias presentes nos jogos sem fronteiras vieram colmatar o apagamento das ciências sociais) João Ricardo Pedro, embora imune às pessegadas do «eu», está convencido de que a intriga policial é «o» mecanismo literário capaz de prender a atenção das pessoas, e abrir de par em par, ao mestre narrador de crimes, violências e outras porcarias dignas do mais sabujo canal de televisão brasileiro, as portas da tranquilidade financeira, humilde objectivo que, aparentemente, a sua esforçada licenciatura pelo Instituto Superior Técnico, pelos vistos, parece não ter sido capaz de alcançar, assunto que, isto sim, daria tema a um grande romance em língua portuguesa. O Sá Pinto que vá para o caralho.


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2. Infelizmente, João Ricardo Pedro está entalado entre a abstração matemática da natureza e a cortante foice comunista, e os seus olhos pertencem ao numeroso rebanho que continua a ver no regime de Salazar nao só uma proveitosa fonte de rendimentos como a origem de todos os males da pátria, arriscando até, valha-nos Nosso Senhor Jesus Cristo, uma visão histórica do problema, mas partindo de uma análise cuja distribuição de frequência das observações não os leva a questionar se: a) não lhes fará falta recuar um pouco nos seus conhecimentos de História de Portugal; b) não seria melhor escolher um problema menos gasto como, por exemplo, a hercúlea força da ignorância nos escritores de romances em português quando comparados com os seus congéneres ingleses e norte-americanos, para não falar nos italianos onde a figura que fazemos é lamentável. Ora, António de Oliveira Salazar, esse saloio que nem como seminarista teve sucesso, foi apenas um pobre tolo que coroou a evolução previsível de um país ignorante até à medula, estupidamente inculto, bruto e pouco versado na crítica intelectual. O Sá Pinto que vá para o caralho.


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3. No meio do livro, O teu rosto será o último (mas o problema é que os livros de merda não têm fim), surgem alusões eruditas à música burguesa, e João Ricardo Pedro, na sua entrevista ao Expresso, arriscou mesmo comparações com os andamentos das sonatas de Mozart ou Bethoveen (não me lembro agora, porque estou a mandar o Sá Pinto para o caralho) lidas através das interpretações de um burguês de óculos que ainda há pouco esteve na Gulbenkian a ensinar o sentido oculto da arte musical. Com efeito, é sintomático que esta gente nascida da desorientação comunista, totalmente inculta, e formada à pressa na quase-literatura com o quase-grande autor José Cardoso Pires (um tipo que falhou totalmente precisamente por estar convencido de que a intriga policial e a actualidade política eram importantes) continua a navegar neste ressentimento bélico contra um inimigo que está completa e irrecuperavelmente morto. Se João Ricardo Pedro tivesse lido este blogue (o que o teria salvo da figura que anda a fazer) ou assistido, por exemplo, ao Coriolanus de Shakespeare, entenderia que os nossos inimigos são do tamanho da nossa mente (daí que Salazar só poderia, por exemplo, ser inimigo do meu dedo mindinho do pé esquerdo) e que a principal linha de contraste com o o nosso mais perigoso adversário se traça precisamente com o sangue do nosso desespero em não sabermos quem somos, e isto é tão evidente que até o Sá Pinto, e os aristocratas de Alvalade, o sabem, e por isso se consomem até às lágrimas de fúria no confronto com o Benfica.


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4. Na verdade, João Ricardo Pedro tem algum talento, é justo dizê-lo, e poderia até tornar-se num autor digno de leitura se não tivesse falhado como Engenheiro Electrotécnico. Este mergulho na historiografia do desemprego é um caminho demasiado trilhado por autores brilhantes que não esperaram por falhar como engenheiros electrotécnicos para se aventurarem na escrita de livros. Faltam a João Ricardo Pedro, naturalmente, milhões de páginas de leitura, o que é inteiramente justificado pela falta de tempo para a literartura manifestada nos seus anteriores 37 anos. Mesmo que comece agora, a uma média de 50 ou 70 páginas por dia (o que não é fácil) teria que parar de escrever durante 6 ou 7 anos para assimilar o número de vozes que lhe permitissem criar uma paleta de ecos no interior da sua cabeça que, depois, lhe permitiriam, maravilhosamente, trabalhar com raiva, e em silêncio, até abandonar o mais pequeno vestígio da sua «voz própria».


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5. Termino com esta questão da «voz própria», dando largas à minha generosidade e avisando os aspirantes a «João Ricardo Pedro» que o caminho directo para a fama literária (não para ganhar o prémio Leya, bem entendido, embora uma coisa não exclua necessariamente a outra) está precisamente em conseguir não ter uma «voz própria», o Sagrado Coração de Maria nos proteja de noite e de dia. Aquilo que reconhecemos como marca distintiva dos grandes escritores é uma total concentração técnica no exercício de utilização do alfabeto e das regras da gramática para expressar intenções e formas através de conteúdos finos e rigorosos. A estreita ligação entre o que se diz e a forma como se diz constitutiu a aparência de voz própria de todos os «grandes» mas esse efeito é apenas uma imagem, repercutida nas mentes mais pobres, de uma total ausência de personalidade que fica no texto de todo o grande escritor, pois só uma inteligência prodigiosa consegue desaparecer sob o estrondo da sua própria combustão para dar lugar às milhares de vozes que povoam a sua cabeça, ficando a obra tecida pelo que é comum a todos esses ecos (o cérebro invisível do autor), no fundo, as ligações e associações metafóricas que fazem sentido numa mente prodigiosamente culta mas que são fruto da concentração e do conhecimento profundo de muitos outros autores, e podem aprender-se e passar até de escritor para escritor. Ovídio está limpinho em Shakesperare, como Shakespeare está limpinho em Melville, como Melville está limpinho em Joyce. Numa próxima oportunidade explicarei porque razão este rede de infinitesimal pormenor e força indestrutível não resulta da originalidade, mas sim da potência intelectual. Em todo o caso, o Sá Pinto que vá para o caralho.

2 comentários:

AM disse...

"só uma inteligência prodigiosa consegue desaparecer sob o estrondo da sua própria combustão"

diz-se, disse-se (esqueci onde), que Rafael Moneo é um arquitecto que não sabe "esquecer"
do Siza, não seria completamente estranho, podia afirmar a mesma, ou parecida, coisa
e de por certo muitos muitos outros como (antes) Távora e (depois) Souto de Moura
qual é então o ponto do meu comentário?
receio que o tenha também esquecido (se é que alguma vez o soube)
não será por vezes o conhecimento vago, "superficial" (ou mesmo "equivocado") do "outro" igual fonte de criatividade?
qual é a (conta peso e) medida da antiguidade em Palladio?
qual é o inteiro sentido da "herança" finlandesa em Alvar Aalto?

gosto do Cardoso Pires (devo-lho a "minha" epígrafe)
não cheguei a perceber o que entende (grande f***) por "potência intelectual"?

(para o livro de JRP - pretexto menor - já teria bastado o título...)

alma disse...

Quando cheguei ao final do Ponto 5 a minha máquina começou a ficar em brasa:)
Aguardarei pacientemente pela sua explicação, sobre a potência intelectual :)