quinta-feira, 19 de abril de 2012

Post profundamente (e com muito gosto) ressabiado.

Toda a gente teve, algures durante a imparável marcha do tempo, uma professora de Geografia completamente enlouquecida (pronto, talvez o José António Saraiva não tenha tido) mas apenas eu tive uma que, enrolando os curvilíneos e ruivados caracóis na ponta de dois dedos carcomidos pela combustão do tabaco, dizia: «parece-me que é altura de pararem para pensar sobre o que andam aqui a fazer». E nós, incrivelmente, parávamos, embora não fizessemos a mínima ideia do que estávamos ali a fazer. Eu, pessoalmente, estava a tentar reduzir o meu insuportável sofrimento, e lembro-me que atingia alguma satisfação tribalmente alienante, desenhando motivos florais nas margens das pirâmides demográficas, numa clara influência que Anthony Blunt caracterizaria como provinda do barroco siciliano. Mas não tive sucesso, e daí em diante, enchi cadernos com as mais variadas especulações decorativas e estudos antropomorfizantes de proveniência muito variada, desde o Egipto Ptolomaico (eu sempre gostei de exageros helenizantes) até esquematismos caros aos funcionalistas alemães, os gajos que inventaram essa coisa monstruosa chamada design, até que, finalmente, extenuado, fui obrigado ao clássico expediente de levar livros escondidos no interior dos cadernos de apontamentos, a fim de suportar as torturantes elocubrações a que era injustamente exposto e que chegaram ao ponto de incluir um relato completo e detalhado das operações do MFA para tomar a Rádio Televisão Portuguesa na madrugada de 25 de Abril de 1974.




Pois é, pois é. Sabiam disto? Eu não. Pois é, pois é. Não me digam que não sabiam disto? Peço desculpa pelo facto de agora passarem a saber. Nada será como dantes. As pessoas continuam a achar que a inveja é o grande motor do mundo, e negligenciam o poder criador do ressentimento, esquecendo com frequência a enorme importância da estupidez, das más opções, dos enganos, da confusão mental na determinação dos maus momentos porque passam as comunidades políticas. Que raio está acontecer-nos? Será que o mundo, afinal, vai mesmo acabar? As pessoas estão preocupadas com os gays, com os touros, com o Paulo Pereira Cristovão e esquecem com frequência que por cada criança que olha, confusa e perdida, para o triunfo mediático do Pedro Boucherie Mendes, o destino, abrindo a sua garganta de fogo, desfere um poderoso golpe de martelo no último prego que acaba de encerrar no caixão a nossa Atenas eterna, de belas asas e pés velozes. Dirão que o verdadeiro triunfo é o da inteligência silenciosa, mas estamos todos fartos de poemas em linha recta e empregados de escritório afogados em ginga e vinho tinto, a que ninguém apertaria a mão, com medo que tivessem estado a esgalhar no pessegueiro, por serem esquisitos e lerem livros a mais, e andarem cabisbaixos, e não terem paciência para tomar banho, e que depois de mortos, são levados aos nojentos corredores da Fundação Gulbenkian para celebrar, entre cabeleiras tufadas e os fatos de mau gosto dos professores de literatura, a melosa movimentação da língua portuguesa e o caralho que os fodesse a todos, que não compreenderam uma palavra do que lhes foi dito.


A verdade é que estou demasiado cansado para os movimentos marciais que seriam necessários para enfrentar o enigma deste autêntico terramoto de subjectividade rasteira que se derrama sobre mim e os portugueses em geral. No fundo, somos sempre os piores inimigos de nós próprios, uma glória que ninguém nos tira. Podemos finalmente declarar o emporcalhamento do romance, uma forma literária que, agora sim, pode dizer-se que está morta, pelo menos em Portugal, ou, de outro modo, recusar-se-ia a ser colonizada por esta monstruosa forma de imbecilidade e saltaria para fora do livro, recusando-se a figurar por baixo do nome deste trolha dos canais temáticos. Bm sei, bem sei, não se inquietem, os cães ladram e a caravana vai a caminho do único local que verdadeiramente interessa, a saber, o reino eterno da moralidade serôdia, onde já está uma legião de inúteis cordeiros que passaram a vida a praticar cinismos e indiferenças. O problema é que este tipo de corte para canto, cheira-me a cântico litúrgico e eu sei que no último dia não ressuscitarei. Por agora, prefiro ir para os lençois brincar com a pilinha do Freud ou sonhar com um amanhã que cante, mas muito alto para se não ouvirem os gemidos do bom senso a ser torturado nas cavernas da actualidade. Deus vos proteja a todos dos maus livros.

1 comentário:

binary solo disse...

fodasse o boucherie é que nao. é o fim.