O Miguel Real está definitivamente preocupado com Portugal e eu estou cada vez mais preocupado com o Miguel Real. Esta semana confrontei os meus prodigiosos cornos com dois excelsos títulos do nosso Professor Mamadu do ensaio: O romance português, 1960-2010, (ou coisa parecida), Caminho, 2012, e A vocação histórica de Portugal, Esfera do Caos, 2012. No primeiro título, pelo que pude constatar, Miguel Real tenta fazer o ponto da situação sobre o romance português e abre a reflexão com uma citação de João Tordo, aspecto que me fez imediatamente fechar o livro, com um retumbante estrondo, e devolvê-lo placidamente à prateleira. Justifico. Uma das dificuldades que se apresentam ao habitante do século XXI é a capacidade de processar informação, criticamente, pois em matéria de compilação e sistemática extensiva e intensiva, a máquina já nos inflinge goleadas desde os anos 60 do século XX. Ora, um autor que não conseguiu ainda afinar mecanismos que lhe permitam seleccionar qualidade literária, sem ler efectivamente todos os livros, não sobreviverá um segundo no ambiente adverso que se avizinha e constitui uma perigosa perda de tempo para todo aquele que, medusamente, se deixar empedernir perante a sua prosa. Cerca de 45 segundos foram mais do que suficientes para me banhar num charco de água suja, entre Patrícia Reis, Peixoto, mãe (estão a ver o que dá escolher apelidos esquisitos), Cruz, aquela pessoa retornada que escreveu sobre os retornados e outras irrelevâncias. Dirão aqueles em quem ainda permanece uma certa nobreza combativa que o conservadorismo da crítica educada e erudita constitui, em todas as épocas, uma barreira à emergência da originalidade. A esses eu direi: exactamente, e essa função sagrada, tal como aquela que é desempenhada pelo mercado de massas, despejando continuamente torrentes de pedra e lama sobre o génio, é absolutamente essencial para que pessoas como eu, adestrem na resistência, e forjem na adversidade, as suas maravilhosas asas de seda e ouro, investindo, resplandecentes de impetuosa cultura, e reforçados por uma firme potência intelectual (cá está), contra os furiosos ventos da actualidade e as vagas da descerebrada natureza, sempre vital e cega nas determinação dos seus movimentos. Se alguma coisa existe ainda que possa coroar de glória uma inteligência humana, será a recusa da morte anunciada do homem, ultrapassado pela computação e a máquina, pois, como diria Faulkner no discurso do nobelização (uma mau escritor, mas uma pessoa a quem as bebidas brancas e as dificuldades da vida ensinaram coisas inauditas), o nosso passado, repleto de dramas incomportáveis, terrivelmente violentos e profundos, exige que não deixemos cair a forma material humana, cansada e bela, pelo menos em certo sentido, sem que o estrondo da sua voz percorra os quatro cantos da terra.
Na verdade, não nego que haja escritores com mérito em Portugal. O que não entendo é a tentativa de intelectualizar, criticamente, uma actividade que seria melhor esclarecida do lado da econometria, e estou a referir-me ao romance português, em particular, e ao europeu em geral. Os temas são enfadonhos, o estilo é cansativo, os caracteres são postiços, a psicologia é superficial, a poesia é medonha, a estrutura é recorrente de banalidade. Não admira que quando aparecem casos como o de W. G. Sebald, os clarins do paraíso apontem ao sol luminoso da eternidade as suas flâmulas carmesim e consagrem, numa revoada de sons vibrantemente prateados, a simples conclusão: finalmente, uma pessoa inteligente, caralho.
Calma. Não vou apresentar aqui uma recensão crítica dos referidos livros de Miguel Real, uma vez que ainda não perdi completamente a capacidade de hierarquizar o meu tempo em função da minha crescentemente inflacionada taxa de esforço. Quero simplesmente noticiar que as elites portuguesas começaram a escrever livros. Constitui isso uma novidade? Logicamente, não. Novidade seria se as elites portuguesas tivessem começado a ler livros. Por enquanto, e até à minha entrada em cena, está tudo bem.
1 comentário:
Não me diga que os meus pensamentos desorganizados são o prenuncio de raciocinios importantes :)))
elites ? que elites ??
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