quarta-feira, 11 de abril de 2012

A fnac, naturalmente, não diligencia os prodigiosos títulos que aqui apresento.

Uma das gigantescas vantagens do leitor deste blogue é poder contemplar como os seus membros, de quando em vez, se engalfinham em polémicas absolutamente estéreis. A esterilidade polémica é, aliás, talvez a grande marca distintiva entre o homem e mundo dito animal, uma vez que o uso da linguagem, com maior ou menor destreza, está longe de ser um privilégio dos humanos. Como os jornalistas não fazem o seu trabalho, tenho de ser eu e o ngonçalves a garantir a discussão cabal dos problemas que nos afligem, quer como comunidade científica, quer como República de Cidadãos. Aproveito o mal entendido sobre livros gamados na Fnac, e pedindo desde já, desculpa pelos excessos (e mandando Sá Pinto para o caralho) passo então a polemizar.

1. A primeira prova manifesta da ignorância congénita aos licenciados pelo Instituto Superior Técnico é o seu sentido corporativo e o orgulho escondido que transportam por terem obtido uma licença, com o intuito de serem remunerados por vários desempenhos práticos e teóricos, à custa do sacrifício de um desenvolvimento integral da sua inteligência. Quem conhece um pouco dos exercícios abstractos a que são submetidos os licenciados pelo Técnico, compreende como os exercitados teriam que optar por uma de três soluções: ou o ressentimento contra a torturante falta de tempo para disfrutar da entrada na vida munidos de uma visão dos problemas orientada por extensos conhecimentos disciplinares (por exemplo, Biologia, História, Economia); ou a dignificação da vida prática e da utilização «real» dos seus conhecimentos em trabalhos «criadores de riqueza»; ou a defesa intransigente da especulação tecnológica ao serviço do «progresso» (risos, risos, risos) e da automação da vida humana (risos, risos, risos), e tudo isto envolvido no cabal respeito pela vetusta instituição onde foram manifestamente infelizes, o que só serve para apimentar a relação afectuosa que mantém, pela vida fora, com a referida instituição. Quando mais me bates, mais gosto de ti, diz Nelo Monteiro num album de 1987. Com efeito, já dizia o velho Kant que a introspecção é um ladeira que custa a subir e é sempre mais fácil dar largas à furiosa imaginação e pegar em armas contra um inimigo que nos permite saber quem somos. Julgo que não será necesário elaborar mais sobre este ponto.

2. É impressão minha ou foi feita aqui uma insinuação sobre a forma como obtenho os livros com que enriqueço a minha prodigiosa inteligência e a de todos aqueles (incluindo os licenciados pelo Instituto Superior Técnico) que têm a sorte de acompanhar (a título totalmente gracioso, numa inacreditavelmente eficiente manifestação de serviço público) a elegância do meu frasear? Em primeiro lugar, devo dizer que multiplicando por mil os livros que generosamente aqui desfilam, dificilmente o resultado escatológico dessa simples operação aritmética ultrapassaria o resultado da soma dos custos de uma hora de brincadeira científica na referida instituição de ensino técnico. Claro que é muito difícil combater os poderosos efeitos retórico-argumentativos do conceito de utilidade (como vêm, eu escolho inimigos poderosos), conceito que, curiosamente, foi forjado por pessoas que tinham tempo para pensar. A trajectória dedutiva que valoriza um tipo de trabalho publicamente pago, em relação a outros tipos de trabalho publicamente pagos, é sintomática da falta de tempo que as pessoas dedicam à introspeção da sua interferência como sujeitos de conhecimento no mundo real, tão convencidas que foram, pelas instituições que deram forma aos seus intrumentos cognitivos, da natureza linear das relações entre os custos públicos, a estrutura fiscal, e o papel reprodutivo da riqueza no agregado de vidas humanas que constitui uma comunidade política. Para desmontar esta insistente falta de clarividência, seria necessário efetuar um trabalho crítico sobre o conceito de progresso (e deixar de assumir a bolorenta enciclopédia de Diderot e D'Alembert – dois pacóvios tão fascinados pela tecnologia de produção de alfinetes como os hodiernos parolos fascinados pelas realizações de um braço robotizado – como um credo definidor das relações humanas, das leis da economia e dos critérios de justiça da república).

3. Logicamente, a relação entre a queda da monarquia e a utilização de armas por professores primários e empregados do comércio, tal como a estafada relação entre a saloiada militar montada em tanques de guerra e a deprimente combustão do regime mais parolo que vigorou em toda a Europa Ocidental, liderado por um camponês licenciado pela Universidade de Coimbra (outra produtora de ignorantes sem paralelo acima da linha do Equador) é problemática, difícil, e pouco consistente com as abundantes evidências que qualquer pessoa, com tempo e paga pelo Estado, se dê ao trabalho de recolher; factos como a evolução da distribuição monetária e o crescimento demográfico, o índice de livros importados, a descida da mortalidade infantil, o crescimento da descrença nos sacedortes, tudo coisas bastante mais significativas na alteração dos sistemas políticos do que a utilização, alegórica ou não, das armas. Tal como é muito difícil convencer o ignorante das leis da física e das deduções astronómicas, de que é a terra que se move em torno do sol e não o contrário, é muito difícil convencer o ignorante das ciências sociais de que uma arma tem um efeito alargado bastante menos poderoso do que os artifícios da linguagem ou a estrutura do parentesco. Bastaria estudar um pouquinho de lógica formal com os herdeiros de Newton, em Cambridge, e não com os burros dos Professores do Instituo Superior Técnico, para apreender os problemas relacionados com a denotação das preposições que levam à crença num dado fenómeno, e que a relação entre as séries de palavras e os factos que tornam as palavras verdadeiras, implica um trabalho profundo sobre a nossa interferência enquando operadores da lógica. A título de exmplo, gostaria de saber em que país do mundo, e em que momento das séries temporais que nos antecederam, é que o sistema político muda aparentemente, e sublinho aparentemente, sem ser pela força da armas? As razões que levam as armas a emergir é que diferem minuciosamente, e é por sabermos tão pouco sobre isso que continuamos a investir em cursos superiores técnicos (e não vou especular sobre o financiamento da ciência e a guerra porque me cheira a esquerdalho) convencidos de que resolveremos os problemas, enquanto nos afundamos alegremente, conduzidos pelos Antónios Guterres deste mundo, uma pessoa que, alegadamente, terminou o Instituto Superior Técnico com a esplendorosa média de 18 (dezoito) valores. Quanto a Mário Soares, continuo a não perceber o ódio colectivo ao maior político do século XX (exceptuando o ódio movido pelos retornados, onde a experiência de convivência com o meu retornado avô, ao contrário do meu retornado pai, serviu para desmontar, em silêncio, para não me arriscar a levar um tiro, toda a maquinaria de ressentimento contra o descolonizador-mor, um homem a quem estou eternamente grato pelo facto de me ter salvo de um nascimento em África).

4. Agora passemos ao que verdadeiramente interessa e à clarificação da única coisa que verdadeiramente me irrita. Não seria necessário colocar Torres ou Nené (não cheguei a tempo de ver jogar nenhum deles) mas simplesmente tirar Cardozo do campo. Em Londres, quando Cardozo saiu, o Benfica passou a jogar o dobro e se Jesus saisse do banco, passaria a jogar o triplo. No entanto, constato com grande prazer que, mais uma vez, o Sporting se afunda a caminho da extinção, comemorando, não já o segundo lugar à frente do Benfica, mas o quarto (ou quinto) lugar atrás do Benfica, desde que pelo meio apareça uma qualquer vitória alcançada com os joelhos condoídos de Rui Patrício, as dores de Xandão, a fina educação de João Pereira, e a inestimável certidão de nascimento de Artur Soares Dias, produzida,entre champanhe e aplausos, há já algumas décadas, no Distrito do Porto. E já agora, o Sá Pinto que vá para o caralho.

5 comentários:

AM disse...

detonação (de-to-nação) das preposições: e já agora, o só-ares, que vá com o sá pinto e o cardozo com o coelhinho ao circo!!!)

(não sabia que o kant também gostava de apanhar)

alma disse...

Gosto do Sá Pinto :)
Agora sem nenhuma lisonja é um previlégio lê-lo quase em tempo real. Quanto ao técnico não sei:)Há consenso um meu irmão que lá andou confirma mais ou menos tudo o que aqui escreveu :)

ngoncalves disse...

"É impressão minha ou foi feita aqui uma insinuação sobre a forma como obtenho os livros com que enriqueço a minha prodigiosa inteligência e a de todos aqueles"

É impressão tua. Referia-me obviamente ao livro do tipo do IST e ao da Alexandra Lucas Coelho (acho que é este). Se os lestes, espero que não os tenhas comprado.

alma disse...

Vi jogar o Torres* e o Néné :)
como vi o grande golo do eusébio em 1966 (desde esse dia e com a confirmação dos filmes de james bond sei que tudo até ao minuto final é possivel).

* Sou do Sporting mas gostava de ver os remates de cabeça do Torres :)
Mais tarde gostei da sua paixão pelos pombos correios :)))

O Soares sabe-a toda e só por isso acaba por ter alguma graça :)
vejo-o um pouco como um falstaff

Anónimo disse...

Claramente influenciado pelo inesquecível De Niro de Taxi Driver, ou numa injustamente negligenciada tradução,pelo De Niro de «O condutor de Taxis», venho por este meio pedir ao ngonçalves que não se considere atingido pelas minhas palavras. Fui vítima de um complexo de acusação sobre as fortunas que gasto em livros. O catecismo da Igreja Católica explica estas coisas, recorrendo ao conceito de «consciência». Cumprimentos à Alma.