2. Nada me move contra os mais fracos, ao contrário do que tem sido por vezes sugerido, apenas penso que algo de perturbador se instalou nos interstícios de uma economia de mercado que faz da competição perfeita e da curva de indiferença uma espada de medo, uma sombra insinuante, uma vaga ameaçadora. Os mesmo escritores que cavalgam o populismo e são velozes como o tempo, sempre lestos para encontrar em cada ser fragilizado um servo sofredor à espera de redenção, que bradam a favor das pessoas contra o poder dos mercados financeiros - sim estou a falar do tolo do José Luís Peixoto - são os mesmo que dão as mãos às gasolineiras e se vendem com camisolas chinesas em grandes superfícies, e aparecem nos canais generalistas, lacrimejando em face do rolo compressor da técnica e da modernidade, e saltitam nos meios de comunicação especializados, orando em memória da cultura e da criação, pois o escritor de sucesso está sempre de mão dada com o mais devastador dos poderes - o da ignorância. Apenas julgo que a competiçaõ pefeita não existe, e que o poder esmagador de uma indústria de propaganda barata, paralizante, se apoderou da edição (e desse precioso artefacto, o livro) hipnotizando o analfabeto e a cabeleireira, o universitário e o capitão de Abril, com a serpenteante promessa de um altar, portátil e manuseável, onde a produção dos sentimentos massificados encontra combustível suficiente para nos engolir a todos num vale de lágrimas. Que mal fez o autor de sucesso, pergunta o generoso leitor, de lágrimas nos olhos, insultado, magoado, ofendido? Não fez nada: e esse é justamente o problema.
3. Claro que podem sempre alegar que o grande José Luís Peixoto apenas se transforma em alvo da minha bilis (uma infeliz expressão que todo o comentador de jornais gosta de usar) porque vende mais do que, por exemplo, uma Margarida Rebelo Pinto, e nesse sentido, à semelhança dos messias e dos génios, é vítima da sua própria raridade, e que o facto de Professores Catedráticos de Semiótica da Universidade de Évora(sim, o mal existe) se entregarem à exege das obras completas de um autor premiado e consagrado pelas preferências racionais dos portugueses, apenas confirma a inveja, a mesquinhez, a falta de sentido estóico, a raiva perante o insucesso, o sentido alienado de injustiça que caracteriza todos os loucos e deformados que perseguem nos seus blogues os autores de sucesso. Nada mais errado. Os recursos são escassos e a mente humana não é inesgotável, nem ilimitada no seu exercício de luta contra a morte e o esquecimento, e cada dia que passa investe a sua lança veloz no meu flanco, e eu, à semelhança do Capitão Ahab que persegue nas frias ondas dos oceanos a baleia que lhe comeu a perna e a serenidade, vejo como o tempo nos engole a todos, nós que nos preocupamos com a beleza, cada um a seu modo, atiçados pela fúria da justiça ou injectados com o fel da sentimentalidade, divididos sobre quem nos guiará neste tempo de infortúnio, que à semelhança de todos os tempos, balança imprevisível diante dos nosso olhos cansados. Neste momento, Peixoto leva a dianteira e consome o vosso tempo, e eu torço as minhas mãos, como o Juiz na meta da corrida, por ver cada um desses meus generosos leitores que incapazes de distinguir entre a sabedoria e a contingência, soçobram na raiva e no insulto, vergados sobre um ser menor, cambaleantes perante a máquina de fazer adoradores: a indústria do livro. Mas cada insulto vosso é um poderoso tronco de carvalho atirado para a fornalha do meu ânimo, e urro de alegria por ver que ainda vos resta energia para reagir, para forjar com a matéria prima da literatura - a violência do sentido crítico, o protesto, o sentido de justiça - um caminho mais verdadeiro do que essas alegorias baratas, sentimentais, humanas, que semeiam jagunços e protectores encartados, em vez de forjar novos autores. A ver se assim, a curva da oferta literária finalmente sobe, e se pode finalmente ouvir de alguém a voz humana, capaz de contar, generosa e dócil, a nossa mais secreta natureza, a da infâmia.
4. É provável que eu seja apenas um universitário anónimo e ressabiado, baloiçando num transporte público da periferia, rangendo os dentes diante de um sucesso que nunca virá, descendo uma alameda de um parque urbano, que às vezes repara nos dedos finos mas esfolados da rapariga das farturas, e olha, esmagado pelo dia, o vertiginoso correr das nuvens, entediado entre os livros, se por acaso se comete o erro de encerrar a tarde numa feira de editores, perplexo diante da incapacidade que todos temos em aceitar as infâmias uns dos outros, por não sabermos reparar que se não compreendermos, nada poderemos pedoar.
3 comentários:
de literatura não percebo nada :) mas farturas é bom :)
com açúcar e canela :)
e café das velhas :)
eh eh eh eh !!!
troco livros com muita gente e uma das minhas preferidas é a minha esteticista e nunca lhe vi um livro do peixoto ou de outro do mesmo calibre :)))
Esta senhora que só tem o ciclo é uma mulher admirável :)
quanto ao retrato que faço de si :)imagino um adónis intelectual num corpo magriço e com vivacidade no olhar :))
nem preciso explicar que de literatura não percebo nada:)
sem modéstia afirmo que sou uma leitora ideal:)quando agarro um livro transfiguro-me numa pitt bull :)))
Enviar um comentário