quinta-feira, 19 de abril de 2012

As pessoas, as pessoas, as pessoas.

De vez em quando, as pessoas que estudam a revolução democrática em Portugal resolvem mostrar a sua erudição em matéria científica e arriscam soluções tão generosas como insuperavelmente bizarras para que todos vivamos um pouco melhor. Contudo, julgo que se impõe uma pergunta: uma vida melhor como? Por exemplo, a Raquel Varela concluiu que houve um tempo em que éramos macacos e resolvíamos tudo à porrada, grunhindo. Ao contrário do que sucede neste momento, em que parecem estar reunidas as condições para produzir cursos universitários bons, longos e gratuitos; funcionários em quantidade decente e bem pagos, horários mais reduzidos para os professores, direitos laborais, salários decentes; turmas pequenas. Gosto particularmente do momento em que a Raquel Varela aplica uma poderosa e insinuante mamada ao Professor Doutor Fernando Rosas e companheiros, sugerindo para os torturados Professores Universitários um horário ainda mais pequeno do que o dos metalúrgicos. Na verdade, temos que fazer um gigante investimento em pessoas! Mas também é preciso uma nova moral, que se imponha entre o salazarismo bolorento e a brutalidade, entre o totalitarismo e o individualismo.
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Foda-se, caralho, cona da tia. Uma nova moral? Quando, pelas barbas de Zeus, deixaremos de parir tentativas de redesenhar a moral colectiva a partir dos nossos desejos mais perversos? É preciso ter tido uma vida sem qualquer atrito socio-profissional para se produzir tanta tolice por parágrafo. É triste que seja precisamente nos países que mais necessitariam de inteligências especialmente bem preparadas (para proteger o esmagamento de todos os marginalizados por sistemas políticos arcaicos) que proliferam inteligências particularmente mal preparadas e estúpidas. Como é possível uma pessoa concluir estudos superiores, e até singrar numa carreira académica com publicações, meu deus, quem sabe dar aulas, sem ter compreendido que o investimento nas pessoas é uma função da qualidade e quantidade das pessoas que concorrem para a elaboração do sistema político que produz o investimento, e que se bastasse derramar meios de pagamento sobre a cabeça das crianças, Angola já seria neste momento uma espécie de Filândia? Eis o momento em que a Raquel Varela pergunta, irritada, enquanto eu penteio o meu cabelo onde despontam as primeiras nuances brancas, como pedaços de neve na penugem negra do corvo: e porque não derramamos nós milhões de Kuanzas sobre as pessoas? Precisamente porque a moeda é, talvez desde o século XVI, um símbolo que transporta (informação, valor e poder de compra) que apenas adquire funcionalidade numa rede de coerções e incentivos, desenhada pela comunidade, daí o facto das pessoas terem muita dificuldade em lidar com problemas económicos.
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Caralhos me fodam, quando será que perceberemos que a economia é uma tentativa de quantificar, através de um sistema de informação onde os preços são a unidade de medida, as preferências dos indivíduos, e que desenhar a distribuição parcial dos efeitos dessas preferências não significa melhorar ou pilotar o que quer que seja? E se queremos resolver o problema moral, porque caralho vem a Raquel Varela com o investimento nas pessoas? Investimento em quê? Atenção, horas livres, salário, favores sexuais, mamadas? Como a virtude não se ensina, a Raquel Varela e todos os tolos em geral, deviam fazer silêncio e ler um bom livro e um dia mais tarde (lembro que a esperança média de vida aumentou) desenhar uma solução, mas agora com inteligência e a totalidade do cérebro em funcionamento.
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Reparem que existem locais onde de forma totalmente graciosa se pode aprender a não cometer estas asneiras: aqui.
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É incrível como o comunista, incansavelmente, consome todo o seu tempo, para se convencer a si próprio de que existe uma via média entre a organização totalitária e a individualista, e teima em não integrar no seu pouco sofisticado sistema de raciocínio (eu ia a dizer que não inclui entre os seus grunhidos) o facto de o sentido da realidade ser uma posição parcial num sistema de relações que nos ultrapassa violentamente, e que toda a tentativa de coordenação que não integre a margem de erro inerente a todas as hierarquizações espacialmente parciais (a começar pela que é introduzida pelos membros do PCP) redunda num desperdício de forças. É por isso que pessoas limitadas como Vítor Gaspar ou a sua ultrapassada e primitiva versão, Aníbakl Cavaco Silva, continuarão a ter sucesso neste mundo.

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