quinta-feira, 15 de março de 2012

Dei-te o melhor de mim, mas tu fodeste-me na mesma

Porque razão inquirirem-se sobre a minha origem? Como a das folhas, assim são as humanas gerações. Para o chão as lança o vento, mas a fecunda floresta a outras dará nascença, e a primaveril estação logo regressa; assim também a raça dos humanos nasce e vai passando Ilíada

Ontem, hipnotizado pelo padrão especialmente rebuscado de uma toalha branca de linho, e envolvido na melancólica estupefacção que nos atinge durante um almoço de fim de Inverno, sobretudo se, para nos furtarmos à sorte de Guy Debord, vamos evitando as doenças que o vinho sempre traz, fui despertado, subito - como dizem os italianos, isto é, rapidamente - por uma pessoa licenciada em filosofia que, a dado momento, me colocou a seguinte e pertinente questão: o que é um livro de sucesso? Naturalmente, tendo eu lido todo o Guy Debord antes dos 14 anos, devorado o impressionismo mediático de Lipovetsky, antes dos 16, e estando já pelos 19 num tal estado de náusea psicológica que não suportava Deleuze ou Walter Benjamim - juntamente com Agamben duas das maiores fraudes de todos os tempos - senti uma certa tendência, até pelo facto do Benfica ter reentrado na luta pelo título, para me refugiar numa decomposição das várias camadas arqueológicas implícitas no conceito de «sucesso». Mas não fui por aí, pois, apesar de muitos erros, má fortuna, amor ardente, assimilei Aristóteles e matemática suficiente para não me perder com mariquices. Não fui por ali, nem por qualquer outro lado, e fiquei antes a pensar naquilo, que é a melhor coisa que podemos fazer quando nos colocam uma pergunta para a qual não temos uma resposta satisfatória.

A julgar pelo top de vendas da Bertrand, tudo vai bem em Portugal. Contudo, não vou mergulhar no costume marreta de pintar com tintas escuras as forças de mercado, mesmo que ninguém possa dizer o que isso seja. Nem sequer Christopher Pissarides, pelo facto de ter decomposto os fundamentos micro-económicos da dinâmica de curto-prazo Keyneseana e Neo-clássica, conseguiu esclarecer totalmente como o nosso conhecmento imperfeito, dos salários e do preço do trabalho, concorre para manter em desiquilibrio, um sistema que permite demasiado desemprego involuntário, e digo isto só para verem que não ando aqui a brincar. Na verdade, a lista que se segue, longe de implicar qualquer decadência das humanidades, das hierarquias sociais ou da qualidade do intelecto dos pretugueses, revela apenas que a dita cultura padece dos mesmos problemas do mercado dos combustíveis - conhecimento imperfeito, ou na forma mais Manuel Luís Goucheana de dizer o real: a cultura padece de burrice.

1- Ágape", Padre Marcelo Rossi
2- "O Espião Improvável", Daniel Silva
3 - "Últimas Notícias do Sul", Luis Sepúlveda
4 -"O Cavaleiro de Olivença", João Paulo de Oliveira e Costa (eh, eh, eh, eh, uh, uh, uh)
5- "O Céu Existe Mesmo", Todd Burpo
6 -"Uma Fazenda em África", João Pedro Marques
7 -"A DívidaDura", Franscisco Louçã (ah, ah, ah, ah, ah, ah)
8-"O Último Segredo", José Rodrigues dos Santos
9-"Dei-te o Melhor de Mim", Nicholas Sparks (ui)
10- "Ainda Sonho Contigo", Fannie Flagg (uiiiiiiiii)

Qual será a misteriosa penetração do espírito divino, entrando com suavidade na lama bruta da nossa condição, capaz de explicar porque razão as santas pessoas que compram o livro do Padre Marcelo Rossi compram, na verdade, o livro do Padre Marcelo Rossi? Poderíamos tentar responder que: tendo as pessoas um conhecimento limitado das suas preferências, e informação ainda mais limitada, sobre a forma como as suas preferências se relacionam com os benefícios de um produto que não conhecem, e para agravar tudo isto, sendo as pessoas totalmente ignorantes do valor relativo destes produtos, por uma olímpica ignorância do que o mercado tem para oferecer a mais baixo custo (Moby Dick ou O Barão Trepador custam menos do que quase todos estes títulos) as pessoas convencem-se de que estão extactamente a comprar aquilo que a sua soberana capacidade de julgar a realidade lhes diz que é o melhor para elas, naquele ponto específico e irrepetível da sua existência num altamente complexo conjunto de cruzamentos e bifurcações, padrão de possibilidades que constitui o ilusório e sempre animado mundo dos desejos e das suas satisfações. Todavia, não vamos responder desta forma. Vamos responder de uma outra maneira, totalmente diversa.

As pessoas compram o livro do padre Marcelo Rossi porque a informação altamente eficiente contida na capa do livro revela que as pessoas tendem a comprar (e compram) repetidamente o livro do Padre Marcelo Rossi. E se as pessoas compram esse livro é porque deve ser bom, de outro modo, as pessoas não o comprariam, tautologia que não deixa de relevar uma parte importante da verdade. Mas o livro do Padre Marcelo Rossi é bom exactamente em quê? Aqui é que a porca torce o rabo, como bem sabem todas as pessoas que já tentaram apertar móveis do Ikea sem ferramentas apropriadas.

O livro do Padre Marcelo Rossi cumpre um desejo e uma carência de um significativo conjunto de seres humanos - desejos e carências que não vou tentar descodificar, da mesma maneira que não costumo procurar sentidos ocultos nos desejos das pessoas que em vez de comprarem Ferraris, compram Fiates Punto. Logicamente, a literatura cómico-sociológica fala aqui de distinção ou na forma mais hilariantemente obscura - símbolo. Mas quem lê Joyce, que outra coisa pretende senão um símbolo bem dourado e legível na lapela do seu casaco? O que é curioso é dar conta da dificuldade que existe, numa grande parte dos sistemas nervosos, em percepcionar que o livro de Rossi, ou o maravilhoso «Dei-te o melhor de mim», de Sparks, são percepcionados como Ferraris e não como triciclos sem rodas, e aqui reside o ponto que gostaria de sublinhar neste dia em que o céu celebra a minha vinda ao mundo com uma magnífica trovoada.

Com efeito, a culpa de as pessoas burras percepcionarem um livro intitulado «Dei-te o melhor de mim» como um Ferrari e, por sua vez, olharem para «Moby-Dick» como um skate de plástico, deve-se a toda uma mitologia de relativismo democrático, que Walter Benjamim, e outros, pensaram dever-se à industrialização e massificação da arte, cometendo o habitual erro marxista - que eu tantas vezes gosto de cometer - confundido a causa com o efeito. Ninguém viu isto tão bem como Nietzsche, um filósofo que por conhecer os gregos tão bem como a amplitude do seu bigode, estava paneleiro de saber que a democracia industrial, no seu esforço para dotar a vida das classes baixas de conforto, traz no plano da cultura - e aqui não há distinção entre arte ou parafusos - uma fatura pesada, que consiste na dificuldade que os melhores e mais geniais sofrem para não se afogar num mar de pessoas como o walter hugo mãe. Toda a gente já experimentou este problema quando se tratava de escolher uma equipa de futebol competitiva e o professor obrigava a incluir as raparigas. Na verdade, o desejo de igualdade e libertação redundou na mediania constituída pelo desejo da maioria - e a indústria é consequência e não causa, caralhos me fodam -, bem como na desorientação sobre a objectividade dos mecanismos retóricos - que podem ser tão rigorosamente analisados na sua potência como um motor - para não falar da metafísica da complicação que escritores ridículos como Faulkner ou Virgínia Woolf vieram introduzir na estrutura mental dos produtores de ideias. Assim, na maravilhosa tendência democrática do mercado do livro, foram as elites a enterrar a espada no seu próprio coração, ao destruírem uma hierarquização da cultura baseada nos mecanismos clássicos, numa tentativa desesperada para combater o sucesso de livros bons, mas portadores de ideais democráticos, como Moby Dick, ou mesmo Ulisses, livros que, curiosamente, venderam sempre muito pouco.

Um livro de sucesso é um livro que leva menos tempo a morrer, um livro que sobrevive tanto aos Walteres Benjamim como aos walteres hugos mãe, e eu apostaria dois dedos da minha mão esquerda, ou um dos testículos (mas só o entrego depois dos 90 anos) em como desta lista aqui em cima, nenhum livro sobreviverá ao ano 2014. Um livro de sucesso é um livro como a Ilíada, uma cuspidela de raiva, de refulgente claridade, coberto de sal e duro como pedra, limpo de fulgurante beleza, um livro que sobreviveu ao rolo manuscrito, ao pergaminho, ao incunábulo, ao impresso, ao computador e vai sobreviver espectacularmente tanto ao Ferrari como à tabulete, coisas que, como toda a gente com cabeça sabe, mais parecem concebidas por um macaco do que por uma inteligência humana, mesmo que esta, a inteligência humana, não seja muito mais do que uma espécie de macaco, mas em Ferrari.
Um livro de sucesso é um livro que diz a verdade e não tem medo de ninguém, nem do seu próprio fracasso.

5 comentários:

AM disse...

fo** a)

a) foge

alma disse...

Obrigada :)
Pelas - palavras apetrechadas de asas* :)

*para um ser de mil ardis
com uma mente sagaz
onde piratei tão célebre frase...:)))

Bem haja

AM disse...

nonsense
os livros maus, os fáceis, sempre venderam mais
um livro de sucesso é um livro que diz a verdade?
e o que é a verdade?
um livro de sucesso é uma livro que perdura, à falta de melhor, na memória colectiva (ou numa prateleira de onde um dia será resgatado para a memória "presente"...)
os top's, que não os d'alças, não têm importância nenhuma (smile)

F. disse...

Absolutamente genial! De tal modo, que na minha enorme ignorância de uma estudande de filosofia wanna be (mais focado no be do que no resto) apenas posso dizer que o grave problema encontra-se na vaidade com a qual as pessoas compram livros. Não tanto pelos livros em si mesmos mas pelo parecer do saber. O pior erro que a humanidade alguma vez cometeu foi negar a verdadeira cultura às massas. Digo isto não no sentido de Joana Vasconcelos ou Virginia Woolf - que pela sua alma de pseudo intelectuatl - achava que os autodidatas não tinham qualquer valor no campo do conhecimento. Penso que a beleza dos livros que subrevivem ao tempo encontra-se na verdadeira partilha de perspectivas do mundo tal como num emprestar de sabedoria acumulada numa vida que não foi a nossa.

Acrescento ainda que um dia, gostaria de escrever assim, mais que não fosse pela goze que deve dar em se ser brilhante! Este post fez o meu dia.

F. disse...

o entusiasmo deu-me para a dislexia *gozo