quarta-feira, 21 de março de 2012

Se por um lado, a vida está mais complexa, por outro, Jorge Jesus está a falar muito melhor.

Tive um cão que tinha medo de ciganos, por exemplo.
Tolan, escrito na terça feira, 20 de Março de 2012,
véspera do Benfica (3) - Unidos da Areosa + Hulk (2)
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Para que ninguém pense que estou esquecido das minhas origens, venho por este sórdido meio comentar as justas palavras de Tolan no post oração. Como walter hugo mãe, José Luís Perdigoto e João «Fernando» Tordo não suscitam qualquer discussão sobre o problema da indústria do livro impresso, temos que ser nós, anónimos ressabiados da blogosfera, a colocar as questões essenciais para o sucesso do povo português e a destacar a importância das formas de tratamento na definição da competitividade e inovação das micro, pequenas e médias empresas (e não estou a brincar). Tolan, a dado momento, refere, no seu meta-discurso directo, a sua dificuldade afectiva com frases escritas que não tenham sido produzidas pela rolante, recurva e húmida língua, enquanto organismo vivo responsável pela parte sonora do nosso pobre mundo de significados. Aqui, permito-me a mim próprio discordar de mim próprio, pois uma parte significativa do meu corpo concorda totalmente com esta rejeição da artificialidade da gramática escrita (logo eu, que das várias professoras de português que tive, nem uma era digna de registo sexual, o que me privou de todo um imaginário pornográfico que funde a protuberância mamária com a arqueologia do discurso). No entanto, a parte mais elevada do meu ser diz-me que este é talvez o efeito mais deprimente e nefasto da pseudo-literatura contemporânea, pois, levada na enxurrada do neo-neo-neo-realismo, carregada nos braços da verosimilhança que vê em cada empregada doméstica uma fonte fecunda de sofrimento psicológico, e forçada pela democratização do consumo de livros (que já aqui abordei) caiu num tremendo engano: o de que as pessoas falam de uma determinada maneira. Ora, eu já ouvi conversas entre estudantes universitários de Santa Iria da Azóia com mais erudição que alguns dos tristes episódios do Câmara Clara, da mesma maneira que já escutei mais palavrões e indignidades a engenheiros-fiscais da classe média, na descontração de um cerveja em mesa de fórmica (cumprimentos ao leitor AM) do que em muitas conversas entre guineenses forçados a trabalhar ao sol possante do meio-dia.
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Isto leva-nos a uma das mais fascinantes questões técnicas da literatura, se os caros leitores tiverem paciência para largar um bocadinho a porcaria da actualidade que tanto nos suja os dedos e de forma tão injusta. Proust percebeu que as personagens ganhavam vida se as modulasse através de um visão dinâmica, não só relacionada com um novo protagonismo do tempo psicológico no interior da narrativa, mas também ligada à multiplicidade de olhos que podem caracterizar essas personagens, também elas múltiplas, dos dois lados do espelho, isto é, tanto do «lado de fora», nas imagens mentais que os outros delas vão cristalizando ao longo da vida, como do «lado de dentro», na sua variável constituição psicológica que é, em parte, uma resposta às referidas cristalizações que outros vão fazendo. Isto é maravilhosamente expresso na linguagem comum, quando acusamos o nosso parceiro de posições sexuais de nos estar a rotular ou quando choramos lágrimas amargas porque ele ou ela (ou eles, não sejamos preconceituosos) nos não permitem abandonar uma impressão demos, e que por isso ficou dada num dado tempo, de uma vez para sempre.
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Acontece que quando escrevemos, estamos vivos, e o que importa, como Shakespeare bem sabia, quando se referia jocosamente ao assassinato de Marlowe numa taberna, é o que o autor tem para dizer sobre a realidade. O erro mais comum é cometido por todos aqueles que, diante deste dilema, choramingam a pobreza da vida e da realidade perante o sonho e a riqueza luxuriante da ficção (uma das coisas que me provoca mais vómitos, logo a seguir às entrevistas enjoativamente vaidosas, charlatonas e pseudo-intelectuais de Gonçalo M. Tavares) pois esquecem-se de que tanto o escritor como o seu indomável poder significativo, bem como a sua fulgurante fúria linguística, também fazem parte da realidade, pois nada mais existe senão a realidade, não havendo nenhuma separação entre realidade e ficção, mas apenas escritores que escrevem livros, sendo uns melhores, mais belos, inventivos, fecundos, e duradoiros, que outros, sendo este aspecto da função da língua no interior do discurso um daqueles maravilhosos alçapões, que permitem às pessoas verdadeiramente geniais distinguirem-se das que se pensam que são ou são julgadas como geniais.
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Eu diria que precisamos de uma outra ruptura: não só as personagens são plásticas nos seus sentimentos ou resultados afectivos como o seu discurso depende das situações onde se encontram e das pessoas que se apresentam, oscilando a língua húmida de cada um, num dado campo de visão, e de acordo com situações dramáticas também elas diferentes. Os grande ecritores sabem que as línguas - da empregada de mesa até ao médico premiado - só servem para uma única coisa: expressar aquilo que o autor quer expressar e da forma mais rigorosa e concreta que o seu engenho, cultura, sensibilidade e inteligência, permitam. As vicissitudes do movimento específico de cada língua socialmente codificada, fazem a originalidade de cada escritor e bastaria analisar a impetuosa poesia de Flastaff, um taberneiro e sargento, beliscador relapso do rechochudo rabo de velhas prostitutas, mas cuja voz - e para citar um filósofo anómimo - coloca no bolsinho pequeno das calças, quer em erudição, quer em eloquência, grande parte dos tratados literários dos séculos XIX e XX, para verificar como os livros que demoram mais tempo a morrer são apenas aqueles onde só os autores falam, e não a personagem A ou B. Por isso, e terminando triunfalmente este momento de generosidade sem limites, é bastante simples concluir que ao contrário do que pensam os maus literatos - que a ficção é mais rica do que a realidade e de que a diferença entre a ficção e a realidade é que a ficção tem de ser credível, e essas merdolas - o problema da oralidade na escrita, revela apenas uma percepção desconexa e confusa do grande princípio: só existe a realidade, e dentro dela, os escritores que sobrevivem são os que não se deixam levar pelas ficções pífias que os espíritos mais pobres produzem sobre a realidade, afirmando quea sua caracterização tem de ser feita desta ou daquela maneira.
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Não é preciso ser um Marcelo Rebelo de Sousa para notar que nem mesmo a escolaridade garante em absoluto uma estratificação da competência linguística, fenómeno que, não obstante os valorosos esforços do esquerdalho Chomsky, continua a encerrar um grande dose de mistério - a poesia de Frederico Lourenço, Nuno Júdice ou Teresa Rita Lopes, é, a título de exemplo, uma grandessíssima merda. A minha tia, que gardou cabras metade da vida, e foi criada de servir no outro terço, se excluirmos a infância, é muito mais rápida e eloquente (a caracterizar uma dada personalidade ou a pintar com cores fortes uma dada situação dramática) do que Vitór Gaspar ou o reverendíssimo Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva. Quem não tentou já impressionar uma italiana com citações de Dante, se por acaso está interessado em medir-lhe as ancas, mesmo tendo em fundo um toldo sujo da Sumol? E quem não modela o seu vocabulário se por acaso é levado a produzir as suas impressões sobre a salvação de Portugal no primeiro jantar em casa do provável-sogro, que por acaso é professor catedrático? E quem não mandaria para o caralho um escritor português muito vendido, se a peixeira do bairro, que por acaso é uma pessoa inteligente, sugerisse que o referido escritor é um vaidoso e um inútil?

9 comentários:

alma disse...

Alf,
Gosto de ler as suas crónicas mesmo que não me envie cumprimentos :)))
Segundo Proust para lá das inúmeras vantagens de ler uma é que ao fecharmos o livro o escritor nunca iria pensar mal de nós :)

Faça como os outros e publique...
Logo veremos se é um vaidoso,
um ressabiado ou um inútil !!

alma disse...

e ainda:
Deixe de ser piegas pois está em vantagem em relação à literatura impressa :)
Tem o nosso feedback quase em tempo real,e pode se roer de fúria por não ter os leitores com o nível que merece :)
eh, eh, eh, eh.

AM disse...

"Eu diria que precisamos de uma outra ruptura" é digno da FER :)))
embora não perceba o sentido da fusão (a frio) da dita (ou de qualquer outra) protuberância (ia-me enganando a escrever esta) com a arquelogia do discurso gostei do link para o zappa :)
acho que vou dedicar (pelo menos) parte do dia de greve de amanhã a "trabalhar" para decifrar a cifra :)

alma, não fique com ciúmes :))) sabe bem com é instável e provisória a vida de um comentador da blogo :)))

AM disse...

com o Henry James, não vai à bola?

alma disse...

AM,

eh eh eh ! estar aqui a comentar consigo até tem mais graça :)


Henry James é a Jane Austen no masculino são os dois BCBG:)

Preferia que tivesse perguntado pelo ressabiado do Mário Carvalho :))

AM disse...

não seja má :)))
cada escritor no seu galho da grande árvore da vaidade :)))
ir buscar o MdC para falar do HJ é como ir a-buscar o Siza para falar do Loos... :)))
(temos que continuar com o nosso jogo entre escritores e os outros :))) noutras latitudes...) :)))
não levo a mal o seu machismo mas o HJ é ainda melhor que a querida Jane :)))
somos uns okupa caixas :)))
são destinos :)))

Tolan disse...

excelente texto!

eu por "tenho os meus preconceitos contra escrita que tem frases que as pessoas não dizem assim no dia a dia" não queria reduzir a escrita a uma coisa simples ou coloquial e também digo que passei a falar mais como escrevia (em vez do contrário). Acho que sim, tens razão, há formas de falar muito elaboradas e complexas mas quando falamos, de forma espontânea, queremos comunicar e essa necessidade sobrepõe-se à forma ou a malabarismos. Ou melhor, a forma é genuína, é a nossa voz. Por vezes, na escrita o escritor ignora deliberadamente o leitor, como se ele estar ali ou não estar fosse indiferente e as frases perdem um esqueleto de inteligência e comunicação e isso é sempre mau. Nada me irrita mais do que a procura de metáforas forçadas e aparentemente aleatórias, apenas porque são novas e estranhas.

Um camponês pode dizer-te "a vida é um sonho" e aquilo tem significado, um poeta pode escrever "a vida é um diapasão de cristal vibrando no leite do âmago de sangue da mulher" ou uma merda assim qualquer e tens de ler 3 ou 4 vezes para extrair algum significado daquilo.

Um aspecto muito interessante: eu acredito que muitas vezes o potencial de escrita de uma pessoa se mede pelos e-mails (cartas) que escreve, sem consciência de estar a escrever. Conheço várias pessoas que me juram a pés juntos que são incapazes de escrever (até num blogue) mas depois escrevem-me e-mails muito bons, a falar de poker, da vida, do amor, de economia etc. É muito curioso.

AM disse...

disseram-me, um dia, que gostavam mais de ler os meus comentários que as minhas "postas"
o imediato destas coisas tem o seu encanto mas o que gosto mais de ler, seja em livros, cartas, mails, é sempre (no matter where) o rigor da forma

Anónimo disse...

Em primeiro lugar, cumprimentos merecidos à Alma.

Em segundo lugar, dizer ao Tolan que essa cena dos mails é bem vista e que a culpa (é sempre bom apontar culpados)é evidentemente dos maus escritores, sobretudo provenientes dos dois polos de poder(o meio académico e o mercado de massas), que institucionalizaram de tal modo a literatura que a literatura acabou por desaparecer no meio dos livros e tem que sobreviver em blogues, mails e msns. E não estou com isto a dizer que literatura actualizada e qualificada implica menor rigor formal na linguagem, antes pelo contrário, Significa escrever com mais clareza e inteligência e por isso é tão difícil. Significa que qualquer literatura em qualquer tempo, precisa de verdade, engenho, dificuldade e independencia e nada disto se encontra na indústria do livro, salvaguardando algumas poucas excepções.

Em terceiro lugar, confesso que ainda não li suficiente Henry James para poder colocá-lo na galeria dos (até ver) imortais.

«Precisamos de uma ruptura» era uma homenagem encriptada a Arménio Carlos, uma pessoa certamente espectacular injustamente escondida dentro de um armadura tosca.