sexta-feira, 16 de março de 2012

Se não têm o que fazer, leiam Rosseau, caralho.

Uma das mais importantes decisões de política cultural do meu governo de sonho seria obrigar cada pessoa que pronunciasse, com objectivos jocosos, a expressão «o bom selvagem» a enfiar uma banana no cu* e estou a lembrar-me, a título de exemplo, de Nuno Crato, que escreveu um livro absurdo denegrindo a memória de um dos mais ilustres botânicos do século XVIII apenas com o intuito de dizer que a escola portuguesa é uma merda e que os professores encaram cada aluno como «um bom selvagem»: cá está, era banana certinha. Claro que os custos de aplicar esta política seriam altíssimos porque não só seria obrigatório policiar o cumprimento da pena - que seria repetidas vezes aplicada, não tenho a mais pequena dúvida - como a curva de procura de bananas sofreria uma deslocação tão veloz e significativa que não seria de estranhar ver, na televisão, o panaleiro do arquitecto Ribeiro Telles com diversos planos para o cultivo de bananeiras nos jardins Gulbenkian.
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Vem isto a propósito de um ensaio do Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba que hoje, no Público, ensaia uma tentativa de nos explicar não se percebe exactamente o quê, uma vez que à boa maneira dos franceses - que Lomba não aprecia - e ao contrário dos ingleses - por quem Lomba se baba - o autor não introduz o leitor no que vai fazer, não relaciona o assunto com qualquer tradição ou debate intelectual e nem uma pobrezita conclusão nos ilucida sobre a razão de preencher duas folhas de um jornal de referência com uma cagadela de referência sobre os mecanismos constitucionais do semi-presidencialismo. Ora, apesar de Lomba não o referir explicitamente, a perversidade do seu raciocínio é clara: as pessoas querem é malandragem porque como Rosseau perversamente viu e recomendou, somos todos muitos bonzinhos e o camandro - cá está, era bananinha sem espinhas - e por isso, esta merda do semipresidencialismo funciona mal já que em vez de termos governo com chicote na mão, anda tudo a governar para a popularidade, isto é, as sondagens.
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Enfim, não vou perder tempo com as complexas relações entre populismo, popularidade e governo do povo, porque sabemos que Lomba está completamente perdido quando se refere ao problema com as seguintes palavras: «Com 35 de anos de prática já vai sendo tempo de avaliarmos como é que a coisa tem funcionado». Isto é, a necessidade de análise decorre do tempo, o que é um argumento de caserna ou de sacristia: como chegou o tempo, toca a marchar ou a ajoelhar. E o que resolve fazer o intelectual Lomba para enfrentar este desafio titânico? Afirma que para entender a «geometria instável» da falácia representativa «temos de recuar às origens». Motivos de força maior impedem a escalpelização que o Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba mereceriam, pelo que, num esforço económico de grande alcance, fico apenas por uma simples identificação dos erros mais grosseiros.Lomba aventura-se num exercício historico-político na boa tradição mais que bolorenta do pensamento jurídico, confundido legitimidade com antiguidade e eficácia com tradição. Mas isto não seria grave se não existisse aqui um problema mais profundo e de consequência mais nocivas. É que Lomba supreende-se, depois de duas páginas de revisitação a figuras tão monstruosas como Sá Carneiro, Ramalho Eanes ou Aníbal Cavaco Silva - foda-se - com o facto do semipresidencialismo ser para nós o regime das sondagens. Extraordinário!
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Um professor doutor e o caralho, que consagra toda a sua vida ao Direito Constitucional, consegue elaborar sobre a arquitectura institucional do sistema político supreendendo-se com o facto de uma democracia utilizar mecanismos de sondagem de opinião para avaliar o que pensam as pessoas sobre quem as govenra, e consegue não mencionar uma única vez um problema que Rosseau já tinha visto, enquanto fazia filhos, entrava para a história da literatura, copiava partituras musicais, partia os dentes a fugir de uma carroça, estreava óperas na Corte francesa, e coçava os tomates na estrada de Vincennes; a saber, que a representação constitucional é uma anedota tão fulgurantemente mal contada que só quem está a dormir é que não entende que a democracia não pode funcionar sem «cenas de choque», «deslealdade» ou «manobras para prejudicar o outro» isto para utilizar terminologia cara ao Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba. Mas se quisermos ser mais rigorosos diremos que Rosseau já tinha entendido - e publicado de forma explícita - que a democracia é uma tentativa absurda e canhestra de mecanizar as complexas relações de conflito entre indivíduo e sociedade através do brinquedo estragado da ligação entre representante e os representados. E mais: mesmo dando de barato que Lomba é ignorante - o que não constitui uma originalidade - tinha pelo menos obrigação de saber que em qualquer sociedade que hoje coabite com sistemas de comunicação modernos, mesmo em algumas ditaduras, aí reinará, imperetrivelmente, um «império das sondagens».
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Em suma, o que continua a ser lamentável neste nosso mundo - e eu não me canso de o repetir -, é que a especialização científica - que nos saberes ditos naturais tem a abençoada presença da física e da matemática - se reveste nas humanidades da mais violenta boçalidade, pois não há o mínimo esforço para compreender um problema segundo a sua estrutura funcional e não de acordo com o que o dito problema revela perante o nosso senso comum, e isto porque as humanidades estão convencidas de que tratam matéria mais humana do que a Física ou a Matemática, disciplinas que há muito aceitaram a positiva derrota da limitação de todo o conhecimento. Se o Professor Doutor e o caralho Pedro Lomba fosse menos ambicioso, e em vez de tentar avaliar o funcionamento da coisa, recuasse até à utilidade da coisa, se, no fundo, fosse menos cientista e mais jurista, teria provavelmente mais probabilidade de, sendo um bom jurista, se aproximar da ciência que é a sua, em vez de fazer de conta que fala de geometria, e depois bolsar conceitos deduzidos da mais mal cheirosa retórica jurídico-política, chegando mesmo a chamar Jorge Sampaio intelectual, o que penso ser uma tentativa de insulto, e diz bem do tipo de argumentação política que os pseudo-hobesianos tiram do bolso a cada tentativa de raciocionar.
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Jean-Jacques Rosseau, meu cabrão, que falta nos fazes.

* Quero agradecer esta recomendação a Maradona que a tinha sugerido como pena específica ao josé Manuel Fernandes, mas que utilizo aqui com intuitos mais generosos e abrangentes.

4 comentários:

alma disse...

Ainda estou a reler o Ruskin e já me atira para os braços de o Rousseau :)
Já roçei o Rousseau, li as suas confissões e fiquei com uma enorme vontade de partir a pé,a única hesitação é para e por onde ...

AM disse...

tem quatro opções :)
partir para o sul - provavelmente a minha favorita (mas demasiado miguel sousa tavares)
partir para o norte - com ou sem bússula
partir para este - a mistica
partir para oeste - a mais... pet shop boys :)
tudo o que seja fora dos 4 pontos cardeais é indigno de si :)))

alma disse...

Caro AM
Obrigada pela colaboração :)irei até ao nordeste, subirei o rio Douro e depois chegarei a Bragança :)))
Está decidido.

Não se assutem pois não publicarei nenhum livro :)

AM disse...

NbyNW só de comboio :)
quando passar pela barragem do souto tire (me) uma foto
pode ser com o telelé :)