Numa daquelas coincidências borgianas, eis senão quando, após ter aqui aludido ao problema da oralidade na literatura, e recém-chegado a casa após um competitivo jogo de futebol num pavilhão periférico, onde se realizam campeonatos de lançamentos de setas, com pessoas vestidas de gravata, munidas de computador portátil ao redor de uma mesa quadrangular, dou de caras com essa mega-instituição fílmica da actualidade, intitulada Sangue do meu Sangue. Sentei-me, senti uma dor aguda emergir na região densamente musculada dos gémeos, isto na perna esquerda, abri o sexto, definitivo, e genial volume de Proust, A Fugitiva, de modo a poder refugiar-me em caso de inapelável insulto estético à minha sensibilidade, depositei o comando ao alcance da mão, e esperei.
******
Naturalmente, o filme é uma merda, o que não surpreende, uma vez que a indústria cinematográfica portuguesa é o que temos de mais semelhante a uma Igreja protestante neste nosso país de hegemonia católica. Tinha lido com atenção um entrevista de João Canijo, na altura do lançamento, e quase cai da cadeira de um autocarro da carris, quando o realizador, elaborando sobre a procura do real implícita no projecto, referiu o importante papel da filha da sua empregada, ao abrir as portas de um bairro manhoso qualquer. Note-se que o estúpido do Canijo, enquanto dissertava sobre a neo-realidade de pessoas que ai, e de pessoas que ui, não se dignou sequer a referir o nome da empregada que, no entanto, se revelou de extrema importância no processo criativo. Ora ali estava, logo o notei, um daqueles flagrantes exemplos de lamentável confusão entre a realidade e o cérebro de pessoas que, no momento em que acham que podem reproduzir a realidade, com uma ridícula convivência familiar dos actores numa casa, tentativa de imitar o calão, e outras actividades circenses, se afastam total e irremediavelmente da realidade, afundadas na sua desorientação artística, que é um nome elegante para a total ausência de experiência individual, única e perene fonte da arte, como bem viu Nietzsche, quando afirmou que os poetas são impúdicos para com as suas vivências, uma vez que as exploram. Como Canijo não sabe explorar as suas vivências - talvez porque a vida tenha sido fácil demais - decidiu explorar as vivências da sua empregada. Resultado? Uma trágica e estereótipada fotografia da realidade que João Canijo pensa ser a realidade, com todo o habitual cortejo de lugares comuns sobre o bairro social, figurão que veio substituir o bairro operário dos neo-realistas italianos. Quem já esteve num bairro social, sem ser para filmar a realidade, sabe que, em muitos e dramáticos casos, o respeito pela gramática é assinalável. Porquê ofender a arte quando se quer ofender o Estado? Se o objectivo é ofender a língua - o que é sempre uma legítima forma de mandar o Estado para o caralho - então ofenda-se directamente, e não por meio de um artíficio tosco, à semelhança do discurso jornalístico.
******
Num dos momentos mais hilariantes do filme, Canijo procura esmagar o espectador com uma sardinhada em casa da família sofredora e como eles dizem muitas asneiras, e gritam uns com os outros, Canijo acha que isso é suficiente para subir a temperatura dramática da cena. Mas as frases desconexas que são produzidas reproduzem ideias sobre as batatinhas, o azeitinho, e o tomatinho, e as qualidades de assador de carapaus da figura masculina partenal, que, alegadamente, não é pai do delinquente protagonista, caralho, e chega mesmo a decorrer uma troca de gritos por causa das dúvidas de identidade de um suposto indivíduo que terá mexido no telemóvel da filha da mãe sofredora, onde se invoca a figura de Maria Santíssima, pela enésima vez. Rita Blanco, Maria Santíssima, entre «estou fodida» e outras caralhadas, produz a dado momento a expressão «por maioria de razão», revelando o pântano onde se afunda todo aquele que resolve utilizar a linguagem, não para expressar uma ideia de autor, através de uma figura dramática (aprendam alguma coisa com Fernando Pessoa, caralho) mas para caracterizar um dado ponto na escala social.
******
Outro dos momentos hilariantes é quando, numa cena de amor, os amantes, professor e aluna, trocam versos tão canhestros, supostamente gritos surdos e reais, nascidos nas entranhas da sua real existência social, que parecem decalcados das obras completas de António Ramos Rosa, de tão maus e obscuros e mal ditos, numa confrangedora ausência de talento na sua profissão específica, que é dar forma real a um texto e não fazer de conta que estão mesmo a foder um com o outro, porque isto já temos abundantemente na internet, e de forma gratuita. Esmagado, desliguei a televisão, e fui deitar-me. Mas tive dificuldade em adormecer, pois a puta da realidade costuma aparecer-me em sonhos, envergando um manto cinzento e de olhos flamejantes, chorando lágrimas de fogo. Cada um escolhe as coisas que quer trazer na cabeça. Se o João Canijo acha que vale a pena partilhar com o seu público uma viagem ao seu jardim zoológico imaginário, e apresentá-lo a partir de uma estratificação social, desenhando os contornos da família sofredora, pejada de mediocriades, elaborações sobre a falta de higiene, implantes mamários, batatinhas e azeitinho, frases de vão de escada, delinquentes a fumar brocas e coisas do género, quem sou eu para o criticar? Não me venha é falar de realidade, Maria Santíssima, não me venha é falar de realidade.

2 comentários:
Realidade, é o que cada um quiser :)
Hoje, expliquei à minha sobrinha que os sapatos que eu calçava eram
pretos (mas não são objectivamente, pois uma amiga a quem pedi que me comprasse uns sapatos pretos resolveu enviar-me uns de pele de leopardo)não sendo óbvio para os outros para mim, estes são os meus sapatos pretos,como cada um vê o que quer:)
Não tenho visto cinema português para lá dos anúncios que passam no cinema, e na verdade como não sou masoquista fico logo sem vontade nenhuma de os ver, e só de ler o seu texto é como se tivesse visto o filme ...
“Fiction's about what it is to be a human being.”.”-DFW
Proust : Vol. 1º; 3º;7º os meus preferidos.
caro alf
dediquei-lhe, a si e mais alguns amigos aqui da blogo, uma posta
http://odesproposito.blogspot.pt/2012/03/fc.html
desculpe a minha ousadia
antónio
Enviar um comentário