segunda-feira, 19 de março de 2012

Os filhos da puta não têm pátria, nem língua: são filhos da puta.

Quando as Províncias Unidas, ao subir do pano do século XVII, por razões que terão que pesquisar na wikipédia porque eu não posso fazer tudo, começou a aumentar a capacidade para obter canhões de guerra, feitos em ferro - os de bronze eram mais leves mas menos eficazes - e nos fodeu literalmente as nalgas nas chamadas East Indies, apareceu um senhor chamado Hugo Grotius com uma capacidade notável para convencer, por meio de repetidas petições, os indivíduos que constituíam os Estados Gerais (responsáveis pelas decisões conjuntas das diferentes comunidades políticas a que hoje chamamos Holanda) a dotar a Companhia das Índias Orientais com navios de guerra suficientes para continuar o seu trabalho criminoso. Mas Grotus, que era casado com uma mulher horrível, Maria van Riegersberch, como não me deixa mentir o retrato gravado em 1640*, filha de um burgo-mestre do porto de Veer (uma merda de profissão que não faço a mínima ideia do que seja), foi capaz de redigir diversos tratados montado numa merda chamada direito natural asseverando que os contratos eram para cumprir, fazendo questão de demonstrar, através das mais espectaculares cambalhotas jurídicas, que o mar era livre e que quem cortasse primeiro a cabeça ao adversário é que tinha razão. Mas, em todo o caso, as Provincías Unidas eram habitadas por pessoas que não só sabiam ler como tinham bom gosto, compravam livros e levavam as merdas a sério e não só esfolaram (literalmente) vivos vários líderes políticos ao longo do século XVII como chegaram mesmo a prender Grotius, que iniciou o seu mais famoso livro De Juri Bellis ac Pacis, na prisão de um castelo.

Esta erudita introdução, que ilucida o leitor sobre o quilate intelectual da mente com quem, inacreditavelmente e de forma totalmente gratuita, dialoga neste momento, apenas está aqui para demonstrar cabalmente como aquilo que as pessoas dizem não tem valor absolutamente nenhum, a menos que essas pessoas sejam qualquer um dos indivíduos que agrupo no anexo 1, colocado no final deste post, para uso pessoal dos respeitáveis leitores deste blogue.

Por outras palavras, as pessoas falam em primeiro lugar para não se afundarem no gigantesco abismo da sua irrelevância e, em segundo lugar, para obterem um determinado efeito compensatório, que é a versão elegante da procura desesperada que todos, uns mais do que outros, empreendemos, diariamente, pelo nosso almoço. Claro que nem sempre o cálculo feito pelas pessoas tem os efeitos desejados, e, por isso, o mundo está como sempre esteve, uma tremenda confusão, mas não deviam já restar dúvidas, pelo menos nas mentes alfabetizadas, sobre o facto de não obtermos nenhuma impressão absoluta ou universal da realidade, por meio do retrato efectuado pelos nossos queridos semelhantes. No entanto, pasme-se, o Henrique Raposo acha que a Cristina Casalinho explica o que está a acontecer a Portugal, sendo que os dois acreditam que está tudo muito bem, da mesma forma que achavam que antes estava tudo muito mal. Pois eu digo aos dois que está tudo uma tremenda foda, e desde há muitos séculos, mas não pelas razões que eles pensam.

Claro que o raciocínio implícito neste versão laica e moderna da Salvé Rainha, preconizada por pessoas que pensam que sabem alguma coisa, é que uma economista chefe do BPI, como a burra da Cristina Casalinho, totalmente envolvida na perseguição dos seus interesses particulares, está particularmente habilitada para salvar Portugal, pois a defesa do seu interesse, na medida em que depende da saúde dos interesses de todos nós, espelha, de forma transparente, não só a verdade dos factos (risos) como um desejo de salvação colectiva (aplausos). Enlevado nesta bonita prece, o palhaço do Henrique Raposo esquece que as pessoas perseguem os seus interesses e nessa perseguição, olá, metem por caminhos errados, pisam poças de lama, esfarrapam o casaco novo num galho recurvo, são atingidas por relâmpagos, confundem o pio da coruja com o silvo do comboio sulcando a noite, assustam-se com espectros ululantes quando é apenas o casaco de um velho pastor insuflado de ilusória vida pelo vento indomável.


Nem mesmo a matéria técnica vale um minuto da vida do caro leitor. Casalinho acha que estamos prestes a entrar, «espera-se», diz ela, «num novo período da economia nacional» (risos, risos, risos), «no qual o motor de crescimento se reorienta de procura interna para externa e de
produção de bens não-transaccionáveis, como restaurantes e cabeleireiros, para bens transacionáveis, como sapatos e transístores». Foda-se, caralho, cona da tia. Se isto fosse assim tão elementar, até o Professor António Borges seria capaz de resolver o problema dda economia nacional (risos, risos, risos). Questões como o tamanho das organizações, como os incentivos não monétários, como o efeito das oscilações comportamentais nos padrões de consumo, são variáveis que a burra da Cristina Casalinho congela, sem, contudo, utilizar as palavras mágicas (mantendo todas as outras variáveis iguais ou the rest equal, como diria Lauro António.

Eu não gosto particularmente da poesia da Sophia de Mello Breyner, por razões que explicarei noutra ocasião, mas fica sempre bem lembrar aqui, a titulo de exemplo, o que a Meditação do Duque de Gandia na morte de Isabel de Portugal recomenda aos seus leitores: que nunca mais deveriamos servir a quem pudesse morrer, o que é uma forma sucinta de dizer que a termos que ouvir alguém, convém que sejam pessoas que ou estejam vivas para sempre ou não morram com facildiade, e a mim parece-me que Raposo e Casalinho, embora mais velhos do que eu, nem sequer chegaram a nascer.


Anexo 1
Grupo das pessoas a quem podemos dar ouvidos
Homero
Eurípedes
Sófocles
Dante
Shakespeare
Camões
Melville
Gogol
Tchekov
Pessoa
Joyce
Proust
Kafka
Calvino

* Martine Julia Van ITTERSUM, Profit and Principle: Hugo Grotius, Natural Rights Theories and the Rise of Dutch Power in the East Indies, 1595-1615 (Brill's Studies in Intellectual History) (Brill's Studies in Itellectual History), 2006, p. xxi

1 comentário:

alma disse...

Olá alf,
não li o texto mas vi a lista que agradeço :)
Não lhe perdoo a omissão do Eça ...
Se me disser que o Tchekov o representa está bem ...
Curioso não entrar o Tolstoi :)

Logo á noite leio o texto com muita atenção.