quinta-feira, 8 de março de 2012

Nova teoria do suor de raça negra

É com um profundo sentimento de pesar e uma sincera tristeza a balançar no fundo da mente que vou proceder a um insulto de Miguel Real: foda-se, caralho, cona da tia. Então não é que um gajo licenciado em Filosofia e autor de mais de 3 milhões de títulos sobre cultura portuguesa, capaz de equilibrar na ponta do nariz cursos sobre o romance português no século XX (estará por aí o ilustre comentador AM?) e inúmeras recensões-lambidelas a livros tão ingurgitáveis (palavra que aprendi com Rubem Fonseca, essa merda de autor), dizia eu, capaz de lambidelas a livros tão ingurgitáveis como os de Patrícia Reis, não é que, dizia eu, Miguel Real resolveu publicar, resolveu mesmo publicar, uma nova teoria do mal? Ouviram bem: uma nova teoria do mal. Partindo do príncípio de que existia uma velha teoria do mal nas ideias assimiladas por Miguel Real, o que duvido, uma vez que o livro não tem sombra de cultura científica e nada se encontra por ali de significativo (e bastaria, a título de exemplo, ter lido a literatura de divulgação de Konrad Lorenz) o livro de Miguel Real não pode passar sem um tremendo «caralhos me fodam». A verdade é que, devo confessar, não passei da página 20 e passo a explicar porquê.


a) há alguns anos que estabeleci como aferidor da qualidade de qualquer trabalho filosófico a capacidade do seu autor ultrapassar as primeiras vinte páginas sem recorrer ao argumento relaxado de comparar os seus adversários a qualquer dos vários e numerosos oficiais nazis à disposição, pessoas que por acaso, por um simples acaso que não quero aqui analisar, nasceram na Alemanha, pátria contemporânea da filosofia; b) não suporto a hipocrisia de alusões ao suor de pessoas de raça negra que lavam retretes em centros comerciais, pela simples razão de que ou o autor dessas alusões nunca beneficiou dos serviços, mal pagos, oferecidos por indivíduos de raça negra, ou o autor trocou toda a sua fortuna para se dedicar a ensinar os homens a serem pescadores de homens e nesse sentido não restaria tempo ao autor para elaborar novas teorias do mal: ou seja, em qualquer dos casos, a alusão redunda numa ausência de verticalidade mais conhecida por canalhice intelectual. E passo a explicar a explicação.

Miguel Real não consegue ultrapassar a página 20 sem uma comparação completamente imbecil entre uma decisão de Paulo Macedo sobre a política cirúrgica dos hospitais públicos e a banalidade dos campos de concentração. Caro Miguel: do fundo do coração, um pouco mais de calma. Se é verdade que chamar filho da puta ao Manuel Forjaz pode ser considerado um destempero, o que dizer desta comparação entre Paulo Macedo e Adolf Eichmann?


Em segundo lugar, preocupa-me esta alusão a pessoas de raça negra que, alegadamente, partilham a linha suburbana de Sintra com o ilustre filósofo e cujo cheiro o ilustre filósofo diz ser objecto de contemplação estética, no mesmo momento em que se revela desgostoso por não poder replicar as camisas suadas nas páginas que deu a público, porque, nas próprias palavras do autor, se o tivesse conseguido fazer, essa duplicação do cheiro a suor, tornaria o livro inútil e a sua mediação desnecessária, pois o leitor teria directamente acesso às camisas encharcadas em catinga e já não precisaria de pensar sobre uma nova teoria do mal. Foda-se, caralhos me fodam, cona da tia. Caro Miguel: do fundo do coração, e aqui entre nós, um pouco mais de inteligência. Se Miguel Real se preocupasse minimamente com essas pessoas, não só não seria o Miguel Real, como em vez de redigir livros de merda, meteria conversa com essas mulheres suadas e trabalhadoras e aprenderia mais sobre a vida, o mundo, o afecto, o sacríficio, a ironia, e até a lavagem de retretes, tudo coisas bastante mais relevantes do que digitar mediocridades no seu portátil. Julgo que não será necessário elaborar muito mais sobre este ponto.


Por outro lado, devo dizer que é fácil replicar esse suor, basta Miguel Real dedicar-se a trabalhar, uma vez que o referido suor não será muito diferente do seu, apenas é muito mais mal pago. Ou Miguel real está convencido de que o que faz é muito melhor do que limpar retretes? Eu - e esse é o meu grandíssimo problema - não tenho tanta certeza sobre o facto da minha vida não ser uma grande retrete a precisar de limpeza. Com efeito, o facto de o suor referido resultar da lavagem das retretes por mulheres negras, constitui um problema político e económico que implica entrar num labirinto onde habita um touro (o discurso mistificado da economia neo-clássica) cujos cornos assustam de tal forma Miguel Real que este (totalmente ignorante da matemática e da lógica) se vê obrigado a ir esconder-se, bem quentinho, por trás das rudes tábuas da camaradagem étnica e da teoria avulsamente pós-moderna.


Deixo-vos com um excerto da recensão de S. José Almeida sobre esta Nova Teoria do Mal, onde se pode constatar de forma hilariante a indignação moral contra «os políticos que governam Portugal há trinta anos» - eleitos por marcianos guiados por Adolf Eichmann - uma crítica almejada em papel reciclado e publicado pela «D. Quixote/Leya» uma instituição eleita democraticamente e sem qualquer responsabilidade no governo Portugal, deus seja louvado, hossana, aleluia, aleluia. Imprimam em papel mole e leiam, porque se o papel for duro - e para citar um médico anónimo - nem para limpar o cu serve.

A Nova Teoria do Mal, editado pela D. Quixote/Leya (eh, eh, eh, eh), é também surpreendentemente um livro de paradoxos. Por um lado, prospectiva o futuro e analisa e sistematiza o passado da Europa de um ponto de vista filosófico, histórico, científico, racional, estudado (prolongado riso de Alf), reflectido, amadurecido, feito como uma renda de bilros ou como um mecanismo de um relógio (como?). Por outro lado, é um grito de desespero, uma rejeição visceral do statu quo (eh, eh, eh, eh), um vómito de recusa de uma forma de gerir a sociedade, uma opção angustiada de corte com o mundo (ui, ui), de recusa de país, de redução assumida a cidadão de Sintra.
(...) E acusa: “Não são políticos os nossos governantes de hoje, mas economistas (os falsos profetas do século XXI)
(falsos profetas? eh, eh, eh, eh, uh, uh, ah, ah,ah) técnicos, robots substituíveis uns pelos outros (e os robots? Não são cultura?), possuindo o mesmo vocabulário, aplicando invariavelmente o argumento da eficiência de custos e proveitos, totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade.” (p. 18/19)

(eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, risos, risos, risos, risos)


Uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade? Foda-se, caralhos me fodam, cona da tia.

1 comentário:

AM disse...

estou
deliciado
gabo-lhe a paciência