Em justa e sentida homenagem aos meus leitores anónimos, de hoje em diante, irei empreender denodados esforços para seccionar em elegantes parágrafos todas as minhas ideias, sendo que, em passagem, tentarei seccionar, de igual modo, frases que me parecem estúpidas, e começo, desde já, por esta
Os queridos comentadores que resistem com heroicidade a toda a concorrência desleal feita pelo Mário Crespo, pelo Mário Monti ou outro qualquer actor premiado pela academia, deixaram sentidas perguntas e frases de conforto e estímulo nas nossas alvíssimas caixas de comentário que, como terríveis baleias brancas, estão aqui apenas com o propósito de serem arpoadas. Sobre a obra de Frank Gehry: devo dizer que não espero muito de uma pessoa especializada em problemas estéticos mas que se revela incapaz de compreender, por uma rápida e simples mirada do cabelo oleante de Santana Lopes, estar na presença de um vigarista desiquilibrado. Sobre a sua obra teria que empreender vastas leituras e estou empenhado em inscrever o meu nome no muro imortal da literatura.
Já o problema do romantismo toca num orgão sensível da minha poderosa orquestra. Entendamo-nos: aquilo que seguramente «já era» é o sentido do progresso em que umas coisas se sucedem às outras numa marcha triunfal a caminho da parusia - um conceito que me ficou das inacreditáveis leituras das obras completas de D. José Policarpo. Já era para quem? Para o olhar silencioso de deus que, como «o juiz na meta da corrida», torce os dedos angustiado por saber se seremos ou não capazes de chegar ao fim? Para os meios de comunicação demencial? Para o covil de sacerdotes que responde pelo nome de Universidade? Para o (risos) mercado? As coisas não estão legitimadas pelo tempo e uma consciência crítica deve estar preparada para se medir com Aristóteles e não apenas para decepar a frágil cabeça de Deleuze ou Fukuyama, o que seria demasiado fácil. Génio maldito é, na verdade, um belo pleonasmo, pois o conceito que melhor caracteriza o génio é, por antonomásia, maldito.
A minha seriedade obriga a repetidas lambidelas de cu ao Maradona, sobretudo porque isso significa um manifesto contínuo de que o génio se revela na indiferença perante o público, e se o faço, daqui relevam duas coisas: 1) o meu total desinteresse material e afectivo em todas as expressões da minha consciência doente e maldita; 2) a afirmação de um problema - o anonimato de um génio - que é ao mesmo tempo a afirmação estética de um programa de vida - a beleza e a profundidade intelectual está onde menos a procuramos. Não será necessário citar Blake para que todos nos convençamos de que a sabedoria se troca num mercado pouco frequentado. A razão pela qual este princípio não sofre grandes mudanças, explica-se pela própria constituição da grandeza, que sempre necessitou da vertigem do falhanço, inerente a toda a realização que confronta os limites do conhecido, como das planícies solitárias do desejo, que só a dificuldade e o insulto permitem frequentar. Quando Shakespeare arrumava os cavalos dos espectadores londrinos, à porta de um teatro, acumulava quantidades suficientes de ressentimento e fúriapara que mais tarde, com os instintos já domados pela inteligência, produzisse as toneladas de setas de fogo que haviam de dobrar a rainha de Inglaterra aos seus pés.
Não fez mamadas ao governo mas obrigou o governo a repetidas e prolongadas mamadas: eis um epitáfio que estão autorizados a gravar na placa xistosa do meu túmulo.
Os queridos comentadores que resistem com heroicidade a toda a concorrência desleal feita pelo Mário Crespo, pelo Mário Monti ou outro qualquer actor premiado pela academia, deixaram sentidas perguntas e frases de conforto e estímulo nas nossas alvíssimas caixas de comentário que, como terríveis baleias brancas, estão aqui apenas com o propósito de serem arpoadas. Sobre a obra de Frank Gehry: devo dizer que não espero muito de uma pessoa especializada em problemas estéticos mas que se revela incapaz de compreender, por uma rápida e simples mirada do cabelo oleante de Santana Lopes, estar na presença de um vigarista desiquilibrado. Sobre a sua obra teria que empreender vastas leituras e estou empenhado em inscrever o meu nome no muro imortal da literatura.
Já o problema do romantismo toca num orgão sensível da minha poderosa orquestra. Entendamo-nos: aquilo que seguramente «já era» é o sentido do progresso em que umas coisas se sucedem às outras numa marcha triunfal a caminho da parusia - um conceito que me ficou das inacreditáveis leituras das obras completas de D. José Policarpo. Já era para quem? Para o olhar silencioso de deus que, como «o juiz na meta da corrida», torce os dedos angustiado por saber se seremos ou não capazes de chegar ao fim? Para os meios de comunicação demencial? Para o covil de sacerdotes que responde pelo nome de Universidade? Para o (risos) mercado? As coisas não estão legitimadas pelo tempo e uma consciência crítica deve estar preparada para se medir com Aristóteles e não apenas para decepar a frágil cabeça de Deleuze ou Fukuyama, o que seria demasiado fácil. Génio maldito é, na verdade, um belo pleonasmo, pois o conceito que melhor caracteriza o génio é, por antonomásia, maldito.
A minha seriedade obriga a repetidas lambidelas de cu ao Maradona, sobretudo porque isso significa um manifesto contínuo de que o génio se revela na indiferença perante o público, e se o faço, daqui relevam duas coisas: 1) o meu total desinteresse material e afectivo em todas as expressões da minha consciência doente e maldita; 2) a afirmação de um problema - o anonimato de um génio - que é ao mesmo tempo a afirmação estética de um programa de vida - a beleza e a profundidade intelectual está onde menos a procuramos. Não será necessário citar Blake para que todos nos convençamos de que a sabedoria se troca num mercado pouco frequentado. A razão pela qual este princípio não sofre grandes mudanças, explica-se pela própria constituição da grandeza, que sempre necessitou da vertigem do falhanço, inerente a toda a realização que confronta os limites do conhecido, como das planícies solitárias do desejo, que só a dificuldade e o insulto permitem frequentar. Quando Shakespeare arrumava os cavalos dos espectadores londrinos, à porta de um teatro, acumulava quantidades suficientes de ressentimento e fúriapara que mais tarde, com os instintos já domados pela inteligência, produzisse as toneladas de setas de fogo que haviam de dobrar a rainha de Inglaterra aos seus pés.
Não fez mamadas ao governo mas obrigou o governo a repetidas e prolongadas mamadas: eis um epitáfio que estão autorizados a gravar na placa xistosa do meu túmulo.
5 comentários:
exmo. sr. alf
permita-me voltar ao tema
ambicionar um blogue de categoria, e que categoria, sobre "cultura" fazendo salto à vara (sem cair no colchão) sobre o Gug. de Bilbau do Gehry é um pouco (confesso que não pensei o suficiente para escrever o que vou escrever) é um pouco, dizia, como procurar especialização no romance português do séx. XX sem nunca ter lido o mau tempo sobre o canal ou o sinais de fumo
acredite que o Gehry já lidou com oleados bem mais escorregadios que as longas melenas do próprio flop como eu acredito que não lhe terão ficado a dever (olha quem) nem meio tostão furado
quando fui a-buscar o Gehry procurava sentido para a sua crítica a qualquer noção de "compromisso" nisso da sempre comprometida coisa da arquitectura
são desgraças de um ofício que alguns, por estas e por outras, não toleram sequer entre as nobres artes
mas, mais importante (pois parece ser esse o pus), a questão do génio redundantemente maldito
por cada génio maldito, por cada digamos Caravaggio não s'encontra (pacato chefe de família e tudo...) um J. S. Bach?
eis uma (pequena) borbulha que lego ao superior espremedor do seu entendimento
mau tempo no canal (mau tempo sobre o canal!!!??? - dah...)
Estimado Alf,
Para piropos vá até ao ODP :)
Bem haja !
A comparação relativa entre Caravaggio e Bach é legítima e pertinente, mas creio que rapidamente se ultrapassam divergências quando se afinam conceitos: maldito não pressupõe sexualmente desviante. Apenas quer dizer uma claríssima independência relativamente aos mecanismos de produção da fama (mal-dito). Como sublinhei, Shakespeare também frequentou os salões, mas porque os salões não aguentaram não ser frequantados por ele, e não o contrário. O mesmo pode ser dito a propósito de Bach. Qualquer inteligência crítica sabe reconhecer esta diferença: mas existem algumas honrosas excepções, concedo, embora o racio não deva ser certamente 1:1. Em todo o caso, o estudo do génio facilmente nos conduziria à conclusão bastante favorável de que se Bach não tivesse encontrado uma mama, certamente teria sofrido uma metamorfose capaz de convertê-lo num Mozart, com uma antecedência de cerca de 40 anos, o que teria permitido à humanidade atingir plataformas de excelência musical que talvez nos tivessem poupado esta inflexão deprimente da música contemporânea.
"maldito não pressupõe sexualmente desviante"
nunca foi minha intenção relacionar o assunto do génio "maldito" com a questão da orientação sexual
existem homossexuais geniais e homossexuais burros que nem uma porta (nunca percebi esta das portas serem burras, mas ok, adiante)
o que me leva a insistir no comentário (quando estiver farto é só mandar-me para uma daquelas freguesias a extinguir), é a (sua) perturbadora hipótese de "antecipar" um determinado "génio", uma determinada manifestação artística…
Bach em Mozart antes do tempo seria como esperar de Cezanne o salto para o Cubismo ou da ética socialista da Red House (Phillip Webb) o salto para o monumento a Rosa Luxemburgo do Mies
Em resumo, um absurdo condensador espacio-temporal digno de um filme de Hollywood dos anos 80
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