quinta-feira, 29 de março de 2012

A escola é quem mais ordena


Nada me repugna mais do que a velha e batida técnica de vendas, muito utilizada por Charles Dickens, que consiste, precisamente, em enredar uma dada informação na promessa de que a próxima informação, essa sim, será digna da atenção do leitor e revelará, final e consistentemente, ao que vem o autor de uma referida técnica de vendas. Este recurso desaba preocupantemente para a tautologia, e transforma-se, em 99% dos casos, numa recurva vigarice. Acontece que sou forçadoa fazê-lo, tendo em conta as incontroláveis forças da actualidade. Na verdade, toda a minha iminente obra tem como objectivo, e corolário, não uma entrada para os programas currículares do ensino da língua portuguesa, questão que parece ser o ponto de honra das várias agremiações universitárias e associações portuguesas de autores de expressão escrita, mas sim uma demolição total e consistente de todas as instituições convencionais de embrutecimento, mais conhecidas por escolas.
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Como está careca de saber qualquer pessoa que ultrapassou a fase incial de utilização programática e cibernética do seu sistema nervoso central, a escola é uma merda, e a esmagadora maioria dos professores, apesar da sua nobre e vertical função no sistema constitucional democrático, não passa de um conjunto de pessoas engolida pela sua própria confusão intelectual, totalmente incapaz de domar o problema do conhecimento, que se vê, à semelhança dos sacerdotes, de quem derivam, forçados a um calvário torturante da sua própria existência, que depois resulta em todas aquelas conhecidas jeremiadas sobre a sua importância como educadores e cimento das sociedades do conhecimento. É aliás curioso que não se perceba - e este é o meu comentário à greve geral - que a polícia, quando comparada com a violência institucional de um professor numa sala de aula, é apenas uma pequena e ridícula amostra dos verdadeiros mecanismos que sustentam a suposta violência do capitalismo e da sociedade burguesa.
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Daí que seja curioso verificar (e nisto estou tão distante deste post como de todos os escolásticos) que os críticos do recém e ridiculamente aprovado exame da 4ª classe não tenham suficiente coragem intelectual para levar o exercício de raciocínio até às suas consequências lógicas, concluindo que se os exames e a percentagem de chumbos dos jovens até aos 15 anos é um autêntico genocídio de potência intelectual, o desempenho dos professores no interior dessa mega casa de correçcão e suprema fraude intelectual chamada escola, é uma das mais repugnantes aplicações de energia humana de toda a história da humanidade. A única coisa que não se faz na escola é aprender e a única actividade que é violentamente censurada é a aquisição de conhecimento crítico. De outro modo, como seria possível manter hierarquizada a relação professor-aluno ou como seria possível sustentar uma rede indeferenciada de pensamento que agremia pessoas do ponto de vista das disciplinas do saber? Disciplinas? Avaliação? Professor? Professor de quê ou de quem? É precisamente porque o conhecimento se generalizou e democratizou que a escola se vê obrigada a utilizar todos os meios terroristas de que dispõe para continuar a fingir que responde à necessidade de conhecimento. Apenas as diferentes velocidades de hominização e as regressões primatológicas explicam que haja pessoas, tais como o Nuno Crato, convencidas de que a televisão e as «tecnologias da informação» são compatíveis com a escola e seus métodos medievais de certificação da ignorância generalizada.

2 comentários:

alma disse...

Sim, acho muito irritante esse seu costume roubado ao Dickens de nos deixar pendurados até ao próximo post.

como não tenho a menor pretensão de ser culta mas sim adquirir a sabedoria para levar a vida com alegria :)
o sentido critico não é intuitivo ...???
não concordo consigo há bons e maus professores, e a escola é importante por várias razões hoje,tenho pena de não ter tido a coragem de abandonar a anarquia e ter ido para prof.

alma disse...

errata*:
Não ter tido a coragem de abandonar a anarquia da vida liberal e não ter ido para prof. de Liceu ou algo assim ...

*estas erratas animam qualquer caixa de comentários