Um dia ainda hei-de explicar porque razão é perfeitamente natural e correcto que a literatura se tenha metamorfoseado em merdas como esta. Como qualquer mecanismo selectivo, a comunicação escrita tem vindo a perder parte do seu impacto distintivo com o facto da maioria dos animais em competição ter aprendido a tornar-se «escritor». Imediatamente, a institucionalização do disposivitivo autor começou a perder a sua funcionalidade, e depois de um período de ouro, entre finais do século XVIII e meados do século XX, digamos, entre Swift e Virginia Woolf, em que o autor se confundiu com a distinção, neste momento, parece estar a processar-se, com a redução do custo de produção dos meios de comunicação, um fenómeno de aceleração da banalização da autoria, e já não faltará muito para que apareçam anúncios no jornal a pedir candidatos desesperados para desempenharem o papel de autores em literatura.
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Claro que a relação entre a qualidade da maioria dos jogadores e os jogadores de top é muito complexa, e tal como a idolatria de Cristiano Ronaldo é directamente proporcional aos milhões de crianças que jogam futebol em todo o mundo, também na escrita foi precisamente a massificação do autor que começou a tornar o escritor numa vedeta. Porém, tal como na maravilhosa vida orgânica, em qualquer nascimento, estão já presentes as sementes da destruição, razão porque Horácio dizia, com propriedade, que há lágrimas na Natureza e uma profunda tristeza no âmago das coisas. Como a função autoral nasceu como experiência particular e exercício de autoridade, ou de técnica específica no domínio do expressão escrita, não vejo como se integrará um desejo de individualização («a voz própria» de que mistico-gasosamente falam os autores que nada têm para dizer e por isso precisam de voz própria) com o movmento centrífugo da indústria de massas.
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Todas as fracturas, em torno da oralidade na escrita e da cristalização de modos abjectos, ordinários e democráticos de discurso, que aqui temos abordado, não é mais do que a confusão entre autores que querem ser eles próprios mas que não deixam de querer chegar ao maior número possível, à puta universal a que se chama de forma elegante, um clássico. Porém, o que este autores de merda desconhecem é que o clássico, é precisamente o que contraria o universal do seu tempo (penso que era isto que queria dizer quando me referia ao génio maldito) e por isso se torna referência crítica para o futuro. A sisudez com que qualquer autor auto-consciente enfrenta o processo de «publicação» da sua obra é a mais clara manifestação deste problema, de Melville a Pessoa, passando por Joyce e Proust ou se quiserem Calvino e apostaria o olho restante de Camões em como qualquer escritor fértil e inteligente a quem fosse dada a possibilidade de subsistir, sem se preocupar com bens de primeira necessidade, fornecendo-lhe uma renda digna, não publicaria uma palavra mas deixaria, arrumadinhos e atados com um cordel, em cima de uma magnífica mesa de trabalho, todos os seus manuscritos, prontos para enfrentarem o único e verdadeiro tribunal dos discursos humanos, aquele que é constituído pelas diferentes gerações de escritores brilhantes, ao longo dos séculos.
7 comentários:
Não chamo de literatura tudo o que é publicado em livro :)
por mais metamorfoses que haja...
:)Pensar ou preocupar-se na sagacidade de quem escolhe o que deve ser publicado até dá vontade de rir, até os sabidos como Gide, cometeram erros...
Quem escreve só quer ser reconhecido pelos seus iguais :) Balelas :)))
Continue a enrolar os seus escritos :)))
que, um dia vou aí e roubo-os :)))
eh eh eh !!
Errata:
disléxica mental tem destas coisas :)
em vez de: "enrolar" queria dizer "arrumar"
"o clássico, é precisamente o que contraria o universal do seu tempo"
o clássico é, contrariamente, o que precisa, do seu tempo, o universal
Até ontem pensava que os escritores o que queriam era ter leitores :))) pensei um pouco e sim é verdade,a opinião de os seus pares é o único "público" que conta*!!!
* como nos arquitectos, nos artistas, i.e.
eh eh eh,
alma
conta tudo :)
conta a opinião dos pares :)
conta a opinião dos impares :)
AM,
Não conta nada :)
quando falei de pares não são todos só "alguns" entre os pares dos pares, com bem sabe em cada classe à divisões como no futebol :)
e o público normalmente só atinge os da 2ª ou 3 ª divisão, vivemos entre o cónico e o trágico :)
errata :
"há" divisões como no futebol
entre o "cómico" e o trágico :)
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