terça-feira, 27 de março de 2012

Cada jornalista vergastado representa um bem inestimável.


Sou mais uma vez forçado, contra minha vontade, a derramar uma explicação cabal da estupidez que graça no país. Mas antes de mais, atiremos pela janela o argumento antero-queirosiano, isto é, deitemos fora o argumento da decadência geográfico-social. Já ninguém suporta o parasita do Eça de Queiroz (de luneta e cabelo oleoso a mendigar secretarias para, numa invejável posição a que quase mais ninguém em Portugal depois dele teve acesso, numa tão grande proporção de talento e tempo, desperdiçar essa oportunidade com uma produção gigantesca onde apenas se salva um obra prima «A Ilustre Casa de Ramires», uma obra assim-assim «Os Maias», um grande livro «A Relíquia», e o principal monumento em prosa portuguesa «os textos jornalísticos», a que estupidamente chamaram Cartas de Londres e de Paris, para os esvaziarem da sua dimensão política), sim, repito, já ninguém suporta Eça de Queiroz, uma espécie de antepassado da parva da Maria Filomena Mónica, apenas dela divergindo no talento, porque a reprodução das relações com os livros estava naquela época muito mais liberta da influência da reprodução das relações com a distinção social, sendo, desse modo, largamente possível que uma pessoa genial tivesse acesso aos meios de comunicação, pois os labregos, os inúteis e abjectos, filhos da classe alta, e da classe média alta, estavam todos entretidos com tarefas ainda consideradas nobres, tais como a política, o exército e a agricultura. Na verdade, não existe entre nós nenhum processo de decadência: existe apenas a tranquila e gloriosa continuação secular de um território político-jurídico formado com o patrocínio moral da Igreja Romana (só podia dar merda) encaixado numa faixa atlântica que pratica uma economia de subsistência pouco especializada, com condições climáticas favoráveis, e poucos e maus meios de comunicação (uma tragédia a que somos alheios - dada a nossa pouca responsabilidade no alinhamento das cordilheiras, rede hidrográfica e depressões - e que veio a desembocar nas tão famosas auto-estradas).
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Portugal é uma formulação histórica que corresponde a movimentos tão complexos que dificilmente conseguimos saber do que falamos quando falamos de Portugal, à semelhança de qualquer comunidade nacional, e daí parte da crise de coordenação entre a produção de instrumentos técnicos, de proveniência muito variada), e os sistemas de negociação de direitos de propriedade (definidos pelas antigas fronteiras políticas, constituições, rede de tribunais, escolas). A confiança que depositamos na nossa capacidade de afectar a escolha colectiva, quando essa escolha há muito depende de forças que ainda não compreendemos bem, é da mesma natureza da criança que acha que por efectuar uma determinada acção vai obter, em qualquer caso, o objecto do seu desejo, sem se preocupar com eventuais problemas de causalidade. Eu, que detesto particularmente toda a obra de Wittgenstein, lembro que o austríaco demonstrou logico-formalmente que a causalidade é uma superstição, e que não existe nenhuma necessidade demonstrável na sucessão de acontecimentos. Ora, isto devia ser suficiente para calar de uma vez por todas, pessoas que estando lunaticamente convencidas de que são o Alexandre Herculano, como o Miguel Real, se referem à fortíssima classe média no tempo dos decobrimentos (foda-se, caralho, cona da tia) ou do ímpeto vital no tempo do ouro de D. João V (foda-se, foda-se, fodaaaaaaaa-se). Não existe sequer a mais pequena ideia de como se estrutura a monetarização de um espaço político, muito menos das consequências do alargamento da utilização da moeda nas relações de troca, ou das consequências de alterações da política monetária da Coroa, por exemplo, nos planos de divisibilidade e quantidade da moeda em circulação, que o ouro do Brasil introduziu, quanto mais qualquer tipo de percepção das relações entre os efeitos de um metal precioso e a estratificação social. Claro que estas pessoas não têm um mínimo de vergonha nas hediondas faces, e à semelhança dos sacerdotes, fazem do sermão a sua actividade especializada, baseando-se numa olímpica ignorância da realidade e num desconhecimento ciclópico da produção escrita sobre os assuntos que, sem qualquer sombra de dignidade ou respeito por quem lê, comentam despudoradamente.
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Ontem, tive o azar de, na esperança de ver novamente a repetição do fabuloso golo de David Simão, marcado em Braga ao serviço da Associação Académica de Coimbra, me deparar com Miguel Real, Nilton, Herman José, uma freira, e um analfabeto a que chamavam professor, afanosamente envolvidos na tentativa de identificar os problemas culturais do país. Parece que padecemos de uma crise de valores e Miguel Real chega mesmo a apontar a descristianização da Europa como uma das causas da actual «crise de valores», foda-se, caralho, cona da tia. Se bem me lembro, um valor é uma substância simbólica que estrutura uma rede de comportamentos e por isso, se todos somos consumidores de pornografia - e como tem subido de qualidade esta bela indústria que todos devemos agradecer de joelhos e lágrimas nos olhos a Rosseau e Jesus Cristo, os seus dois criadores simbólicos - daí não advém nenhuma crise de valores mas uma metamorfose dos valores, quando muito. Se uma crise apenas difere de uma metaforse devido à nossa percepção mais evoluída da genealogia das categorias de bem e de mal, constitui um problema a que nos deviamos entregar antes de utilizar o conceito de crise. Claro que discutir problemas dinâmicos é coisa que tanto Miguel Real como as freiras têm dificuldade em fazer. Já Herman José continua a demonstrar porque é que atingiu níveis de sucesso pirinaicos sem com isso perder o auto-domínio, e conseguindo, de forma notável, com a pouca leitura que tem, furtar-se quase sempre a frases imbecis, mostrando-se rápido e observador, com um sentido crítico capaz de espremer qualquer personalidade que se apresente diante de si, com uma eficiência de fazer inveja a qualquer máquina de sumo.
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Na mais recente adaptação cinematográfica de Shakespeare, Ralph Fiennes assina uma interessante actualização de Coriolano. O crítico de cinema Jorge Mourinha, que aplaudiu de pé «Sangue do meu Sangue», produziu uma crítica no Público em que, não dizendo mal do filme (era o que faltava) o considera mediano, referindo a dado momento, sem que se perceba o que quis insinuar, os «floreados da linguagem de Shakespeare», uma expressão vil e torpe em que, perante olhos esclarecidos, Mourinha expõe eloquentemente porque razão não faz a mínima ideia do que está a fazer. Pronto. É isto. Quem quiser saber o que se passa com Portugal, basta abrir os olhos. As evidências estão por todo o lado e julgo que ficou claramente demonstrado porque razão a estupidez se multiplica: multiplica-se porque a maioria de nós continua a fazer opções estúpidas. Agora não me peçam é que estabeleça relações causais entre os colhões de D. Afonso Henriques e a pilinha do Tony Carreira.

2 comentários:

alma disse...

Estimado alf,
Agradeço-lhe o seu parecer técnico*
pessoal e intransmissível sobre o Eça :) deixou de fora "A Cidade e as Serras" só para espevitar a minha metamorfose de valores (aposto):)Tenho pena de não poder perguntar ao Eça sobre o alf(imagino que seria generoso).
Quanto ao coroliano hei-de ir ver (nunca li essa peça)terei de a ler 1º, ainda não cheguei ao Shake como devia (nem sei se alguma vez chegarei... ).
Quanto aos criticos de cinema portugueses estamos falados.
Muito obrigada pelo seu olhar acutilante por vezes muito elegante sobre a realidade :)


Relaxe :) hoje não lhe pedirei nada :)
os melhores cumprimentos
:)))

* gostei da presença (velada) do Antero :)

binary solo disse...

toma la o golo: http://www.youtube.com/watch?v=VGz3EjTgAkI

ganda golo do puto