Para além do enorme desprezo pela actualidade - não faço a mínima ideia de quem seja Witney Houston (isto escreve-se assim?) - todos conhecem a minha enorme estima por Manuel Cajuda, um extraordinário e vigoroso vulto da cultura portuguesa a quem seria pedida a organização de qualquer exposição sobre Fernando Pessoa de bem, se Portugal fosse um país onde se reconhece o brilhantismo de frases como «perdemos, mas amanhã há missa na mesma», e não vivessemos numa agremiação de pedintes em fuga sedentos de dignificar as suas origens intelectuamente abaixo de plebeias. Ainda ontem um brasileiro qualquer deambulava sobre a mesa de Paula Abades de Cristelos Moura Pinheiro, manuseando livros sobre Fernando António, e referindo-se a esse famigerado viciado em ginja, e apenas por acaso, autor de versos, como o mais brasileiro das Pessoas inúteis, isto é, poetas. Daria agora muito trabalho - e estou a meio de uma obra-prima - explicar porque razão Pessoa nada tem de Brasileiro e que aquilo que um americano zarolho, como Richard Zenith, e um brasileiro manhoso, como aquele tipo de ontem, identificam como o elemento brasílico em Pessoa de bem, é apenas a dimensão superiormente artística de um homem que, acima de tudo, quis que o deixassem em paz. Naturalmente, não conseguiu, e a dança de facas - expressão de que muito gosto, é a minha costela cigana - que se apressam a efectuar sobre o seu cadáver já enregelado, é não só muito deprimente como profundamente criminosa. Um contrabandista da Albânia rapidamente acharia Fernando António o mais albanês dos poetas e um argelino certamente destacaria a evidente presença da Argélia em versos como «Eu sou dos que verdadeiramente têm levado porrada». Posso demonstrar a tese subliminar a este importante post com o seguinte exercício: experimentem pedir a um dos vencedores da Taça das Confederações Africanas, que por merco acaso, e desde ontem, é natural da Zâmbia, para traduzir o Soneto 129 de Shakespeare, aquele em que se explica como a luxúria é um espécie de céu que nos empurra para o Inferno. Rapidamente, o atleta em causa, com mais ou menos esforço, acabaria por dizer, após considerar a estrutura significativa do soneto, que estamos incontestavelmente na presença do poeta mais literariamente comprometido com a Zâmbia e isso nada diria sobre nada. Eu realmente, não deixo de ser uma pessoa que acredita que as pessoas quando falam querem realmente dizer alguma coisa. Nem todos, nem todos. Apenas alguns, apenas alguns. E depois, passados muitos anos de vil desprezo e ignóbil porrada, organizam-se exposições sobre esses indivíduos esquisitos, os que quiseram dizer alguma coisa. Realidade filha da puta: deus me proteja das tuas perversas garras, de americanos zarolhos e brasileiros manhosos.
2 comentários:
5 estrelas.
Quais americanos ou brasileiros ...
Está tramado! é a dura realidade.
Não fazia ideia que a paula fosse de tão nobre linhagem :)
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