terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Praemium

«É inútil tentar compreender o mundo», eis o que devia ser tatuado na testa de cada bebé, ainda antes de ser aplicada a terapêutica nalgada que, segundo alegam, se deve a efeitos de lubrificação cardio-pulmunar. Isto no sentido de evitar tragédias particulares que, à semelhança da minha, se desenrolam de acordo com o velho príncipio de unidade de tempo, de acção e de lugar. Por outras palavras, seja qual for o local para onde direccione o meu fulgurante espírito analítico começo logo a sofrer com problema epistemológicos, ou seja, sinto logo que me estão a foder os cornos com problemas morais de profundidade considerável devido, por exemplo, aos contínuos protestos que as pessoas «da cultura» sistematicamente emolduram em considerações de tipo, «somos uma nação de criadores maltratados pela vida, uma vez que o governo não nos unta o pirilau com um belo broche». Devo lembrar a todas as crianças que ainda não foram expostas a estas imagens chocantes que a marca da criação, e do génio, reside, precisamente, na mais violenta repugnância por todas as formas de paternalismo estético, sentimento que vem quase sempre oleado por uma implacável vontade de rebentar com todas as Sociedades de Autores de Todo o Mundo. Ontem, a titulo de exemplo, estive várias horas a tentar desfazer-me, durante a observação de uma imponente gala, patrocinada pela Sociedade Portuguesa de Autores, e transmitida em directo pela rádio televisão portuguesa, das dúvidas suscitadas pelo olhar amendoado de Emanuel rindo, discretamente, nas costas de uma figura agraciada com um prémio a propósito de uma gravação de Chopin. Este pianista erudito, que não achou repugnante apertar a mão a Emanuel, terá sido educado segundo os mais elevados padrões estéticos da interpretação pianística, e trazia uma camisola decotada negra, um casaco incrivelmente trabalhado por circunvoluções brilhantes, também de cor escura, e pendurado sobre o pescoço desnudo, um crucifixo baloiçante. Quem explicará um momento de televisão como este sem recorrer ao decepcionante conceito de acaso ou ao deprimente conceito de relativismo moral? Entretanto, o Alexandre Borges, avisa todo o auditório da blogosfera, constituido por barões assinalados que da ocidental praia lusitana, que ele, um dia, ganhará o nobel da literatura, entre perigos e guerras esforçados, mais do que permitia a força humana, isto enquanto viaja num espectacular cruzeiro pelo Pacífico e teme nada encontrar para fazer em Lisboa, depois da recepção de boas-vindas com o comandante do navio, um concerto pela orquestra do navio, o jantar e “Hairspray” presumo que algures no navio, e a observação do musical da broadway, no imenso Opal Theatre do navio. Note-se que uma pessoa de cultura como o Alexandre Borges tem ainda tempo para publicar vários livros de poesia, guiões, romances, variações históricas, crítica de cinema. Parafraseando Maradona, que já me têm acusado de imitar, não ando mesmo aqui a fazer nada. Bem pode dizer-se que, apesar de tudo, os antropólogos têm estudado a importância da substituição de preferências nos mecanismos de comunicação entre os humanos e por muito que as pessoas continuem a padecer de um desvio incorrígivel sobre o conceito de cultura, convém lembrar que não existe qualquer défice de investimento financeiro na indústria cultural. Continuo a ter que esclarecer que o dinheiro está muito bem distribuído em matéria de cultura: oxalá a distribuição fosse tão eficiente em matéria de alocação salarial na função pública, e a julgar pelo que vi ontem na gala da Sociedade Portuguesa de Malfeitores, cada cêntimo desviado para os bolsos desta pessoa, representada aqui em baixo, decorre de princípios culturais amplamente mais enraizados, praticados, difundidos - e eu acrescentaria, dotados de maior qualidade estética e ética - do que a dita realização autoral dos portugueses, na grande maioria dos casos, uma espécie de garatujo pré-escolar sem dignididade, beleza ou profundidade. Uma Sociedade que distingue o programa de televisão «O último a sair» como melhor programa de ficção (sim, é verdade) deve, com efeito, ser a primeira a desistir de nos catequizar os cornos e ir, rapidamente, e em força, para a puta que a pariu.


4 comentários:

Anónimo disse...

bom, o maradona agora já separa os parágrafos

AM disse...

(...) a marca da criação, e do génio, reside, precisamente, na mais violenta repugnância por todas as formas de paternalismo estético, sentimento que vem quase sempre oleado por uma implacável vontade de rebentar com todas as Sociedades de Autores de Todo o Mundo.

3 perguntas:
não lhe parece que o mito ("romântico") do "génio" (maldito), se é que alguma vez o foi, ja era?
o que entende "precisamente" por "paternalismo estético"?
como pensa o Museu de Guggenheim de Bilbao do arquitecto Frank Ghery?

AM disse...

Frank Gehry, claro

alma disse...

Estimado Alf,
Se não nos distrairmos a tentar compreender o mundo, o que é que nos resta ...?!