Quem conseguiu terminar a escola antes dos trinta anos sabe, de ciência certa, que a principal condição para obter uma obra digna de admiração secular é, precisamente, não ter terminado a escola satisfatoriamente antes dos trinta anos, ou, pelo menos, nutrir pela escola um profundo desprezo, não obstante um certo reconhecimento pelo contacto com os livros e os olhos das raparigas. Vem isto a propósito do mais recente projecto de cultura, artes, ideias, enfim, numa palavra, lixo, mas embelezado pelo sempre pronto a prostituir-se design de comunicação. A SALAZAR e os respeitáveis Colaboradores não deixam margem para dúvidas: estão mesmo apostados em fazer miséria, arriscando, no ProjectoSALAZAR, um projecto cultural que contempla uma publicação digital, uma revista bimensal, workshops literários e artísticos, uma produtora de eventos culturais e uma editora de ficção. Ficamos desde logo avisados que é melhor começar a mijar fininho, pois a cada dois meses, toma, levas com uma publicação digital ou um workshop literário e artístico pelos cornos abaixo, e ainda corres o risco de te enfiarem um evento cultural pelo cu acima. Mas não se julgue que isto é uma obra de parasitas, manuseando estreitos contactos na imprensa portuguesa, filhos de famílias da classe alta que, parasitando a ignorância, aproveitam as suas incapacidades gritantes para fingir que têm ideias, ou produzem cultura, ou desempenham actividades artísticas. Sendo assim, nada de julgamentos precipitados, pois como afirmam os autores, a Salazar é uma ideia de pessoas jovens, qualificadas e com interesse fundamentado pelas artes e pelo país. Não pretende revolucionar ou provocar mas assume um carácter irónico e subversivo de análise e reflexão. Folheando a publicação, rapidamente percebemos que o carácter subversivo do projecto é constituído por variações cómico-insultuosas em torno da poderosa Àgata e do seu letrista, piadinhas sobre António Oliveira e o seu bigode, as costumeiras lambidelas de Pedro Mexia a actrizes, modelos, mulheres, consideradas, e bem, inatingíveis devido ao aspecto repugante e pouco higiénico do autor, assim como um merchandising que inclui venda de t-shirts e outros produtos essenciais. Isto é tão, mas tão subversivo, que já sinto comixão nos tomates. Claro que a Salazar tem duas ou três coisas de interesse, mas labora no mesmo decadentismo irónico que contamina a geração nascida antes de 1974: ameaçam tudo e todos com o seu penetrante (ai) humor, tratam Àgata, Geoge Steiner e António Oliveira com a mesma despreocupada intenção de provocar o riso no leitor, e mostrar qualidades intelectuais, mas é com grande tristeza que devo anunciar que não se vislumbra nas entrelinhas daquela publicação nada do que, por exemplo, neste blogue é perfeitamente claro, a saber: (1) a subversão apenas pode ser atingida pelo combate cerrado contra pessoas que se consideram qualificadas e têm interesse fundamentado - e eu acrescentaria, aclamado - pelo país e pela cultura; (2) a inteligência não é o valor determinante da nossa luta, mas a força, porque sendo a sabedoria uma mulher, ela ama um guerreiro, para não fugir ao velho louco de Turim. Um exemplo: em face de uma situação trágica, do estilo Efigénia na Táuride, se necessário fosse decidir entre matar os gregos e ficar com a irmã de Orestes, ou deixá-la partir e arriscar a solidão ou vergonha, de que lado estariamos nós? Nenhum dos meus leitores tem dúvidas sobre o o lado em que me encontro, pois não? Espero que os qualificados promotores da Salazar possam dizer o mesmo da vasta legião de fãs que, muito em breve, se acumulará às portas dos quiosques para demonstração cabal da sua inteligência por interposta pessoa.
2 comentários:
Bravo !!
Admirável!!
os meus melhores cumprimentos
de uma
alma (que ainda não está morta*)
Gostei muito do livro:)
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