quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Veneno italiano

Ontem coloquei um singelo comentário no blogue do João Gonçalves, com alusões a Tucídides, revoluções burguesas e execuções sumárias de parlamentares holandeses do século XVII, comentário esse que, naturalmente, não foi publicado pelo moderador alter-ego do referido blogue que, segundo apontam todas as fontes, deve ser o João Gonçalves mas em paneleiro de esquerda, e não sei se isto é uma retroprojecção psicanalítica do João Gonçalves ou se me faltou a mama (pergutem ao José Gil porque ele leu todo o Ferenczi). Em todo o caso, o ponto reside no elemento de violência que há em toda a cultura de elite, ao contrário do que pensa Vasco Graça Moura (que, juntamente com o João Gonçalves, julga ter sido a única pessoa a ler Dante em Portugal) para quem a ditadura internacional das agências de rating colide com a dignidade humana e as razões de vida atreladas à «cultura». Não só as agências de rating derivam mais directamente de Dante do que o raciocínio de Graça Moura, como a diginidade humana é um pano tão encharcado, para citar um filósofo desconhecido, que o cheiro produzido afasta qualquer nariz dotado da mínima sensibilidade estética. Eu explico a Graça Moura o que é a cultura: é a monstruosa ópera a que assisti no S. Carlos, encomendada pelo comité central do Partido Nacional da Cultura Cassique ao referido poeta e tradutor, e intitulada Banksters, uma lamentável dança de facas sobre o cadáver desse paneleiro de província, sem o mínimo de génio e com o máximo de bolor, José Régio, onde apenas se salvava a encenação de João Botelho que, manifestamente influenciado pelas esplendorosas tardes no estádio da luz (o local mais solitário do mundo, segundo Ruy Belo), procurou dar dignidade a uma ditadura de lugares comuns, banalidades sobre a atração feminina e a perversidade moral do dinheiro. Ora, o que falta, tanto a Gonçalves como a Graça Moura é uma boa enrabadela da vida, elemento essencial para toda a grande obra, ou peça crítica. Quando Horácio conforta Fortimbras após o enevenamento do Príncipe Hamlet, o desgosto entra-lhes pelo cu a dentro e sai magnífico e solene pela boca, e a raiva, ou ressentimento, é o pó de ouro que faz sobressair a tinta negra da sua fúria, ao reconhecerem, ambos, que têm direitos, não reconhecidos, a reclamar sobre o reino, e de passagem reconhecem também que é preciso dar largas à revolta que há no coração do homem, para que não sucedam mais desgraças. É o velho príncipio da revolução que Graça Moura ou Gonçalves não entendem, enquanto acusam a escola de não promover contactos, e o caralho, com os clássicos. Classicamente, os clássicos são para os que podem com eles, em linha recta e sem intermediários de luxo, que antes chouriço de Mirandela, que Dante mascarado de menino do coro.

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