quarta-feira, 16 de março de 2011

A luta é alegria

Sou obrigado a vir a terreiro fazer um ponto da situação: a manifestação foi uma manifestação, conceito da teoria política que pessoas especializadas em electrónica transparente e mercados financeiros, primários, secundários e terciários, têm certa dificuldade em manejar. Sobre o número, penso que já falei o suficiente, mas a recorrente alusão aos exercícios quantitativos da Priscila Rêgo induzem-me a clarificar, para efeitos de tranqualização geral, que o facto do desemprego ser menor entre os licenciados - uma conclusão mais famosa que a Venús de Milo - em nada retira qualquer legitimidade aos protestos transversais que animaram as pessoas de vária índole e qualificação académica que encheram a Avenida da Liberdade no Sábado passado. De resto, esse tem sido pau para todo o rabinho ressabiado que procura desenvolver pirotecnia sobre a pretensa desorientação da manifestação. Pereira Coutinho (o mais novo, e mais rabeta) falou na existência de camadas muito mais fragilizadas. Isto quer dizer que se o irmão do meio estiver a levar bolachada no recreio e o irmão mais novo for fazer queixa à Professora, o protesto torna-se improcedente, a não ser que o próprio preencha requerimento em papel de vinte e cinco linhas. Já Avillez de Figueiredo (o mais louro e panasca) referiu uma maioria silenciosa do interior que, não sendo jovem nem urbana, sofre misérias incontáveis para sobreviver a um orçamento de 758 euros, que não deve ser esquecida perante as manifestãções dos jovens (e nós sabemos como antes destes movimentos a agenda do debate político se preocupava imenso com estas problemáticas), sendo absolutamente claro que a origem desse orçamento restrito terá estado na manifestação do Sábado passado. Esse é, aliás, o argumento mais recente de Priscila Rêgo, uma vez que as propostas dos jovens contribuiriam, segundo a já famosa autora, para aumentar o desemprego, em mais um exercício de previsão daqueles que fizeram curso nestes últimos vinte anos e que têm garantido paz, prosperidade e trabalho cada vez mais bem remunerado. Como não faço previsões e não arrisco causalidades inspiradas nos comentários de Luís de Freitas Lobo, continuo a achar que as manifestações são um dos mais sofisticados instrumentos de desenvolvimento. E agora? Agora, é preciso que a luta continue.