Tenho assistido, com particular satisfação, ao derramamento de lágrimas argumentativas por todos aqueles que sempre fundaram no sucesso todo o mecanismo de aferição da verdade, lágrimas banhadas na saudade dos tempos em que a inteligência era o esteio do debate político e a nobreza de valores animava todos os interesses em confronto. Nada que se compare a estes tenebrosos tempos, em que se anunciam protestos forjados na desorientação, na irresponsabilidade, e jovens destrambelhados ganham concursos televisivos por televoto. Com efeito, a vitória dos Homens da Luta como representantes na Eurovisão (um belo conceito a recuperar, uma euro-visão), e uma anunciada manifestação para dia 12, são factos aleatórios que estão a deixar os teóricos da realidade à beira de um ataque de contradições insolúveis, daquelas que costumam motivar camionistas, talhantes e vendedores de fruta a abandonar as fileiras da civilização e a enveredar, ainda que precária e provisoriamente, pelos caminhos apontandos por intelectuais parasitas e jovens universitários decadentes; veredas atribuladas que normalmente costumam conduzir à decapitação de uma qualquer Maria Antonieta que se preste ao virar da história. Com todo o respeito que me merecem os críticos da gritaria, isto é mesmo assim, e é, como diria Fernando Nogueira Pessoa, muito belo que assim seja. Como devem calcular, eu sou daqueles que se identifica, antes de mais, com as personagens decadentes da literatura russa. Um Laevsky nas mãos de um Tchekhov, um Rudin nas mãos de um Turgueniev, ou qualquer alcoólico crónico que odeie irresponsável e parasitamente a organização e os sentimentos nobres que nos fundamentam, que é como quem diz que me estou positivamente lixando para os efeitos do colapso aparente das instituições, mesmo que depois me arrependa e venha aqui chorar copiosamente a perda dos incomparáveis privilégios que me foram concedidos pela revolução democrática de 1974, mesmo que entretanto um qualquer Oliveira Salazar, desta vez, recrutado na actualizada Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e não na bolorenta Coimbra, tome as rédeas da República e guie Portugal com a mesma insensatez com que, a fazer fé no que nos conta Ovídeo, Faetonte conduziu o carro do sol, e seus corcéis de fogo, até à tragédia final. Ou só agora é que acordaram para as consequências trágicas do pornográfico comportamento da curva de distribuição salarial desta nossa República? É que já Aristóteles falava nesta merda. Isto porque me parece que estaremos a falhar um ponto, nós, os eruditos, mas também todos os apreciadores de empadão de codornizes (penso aqui no varão de nobre carácter e incomparável argúcia, Miguel Sousa Tavares, mas também no anónimo Maradona, do qual discordo totalmente nesta matéria) a verdade é que tudo sempre está bem com a realidade até a realidade se transformar em Carlos Xistra e sacar dos seus cartões vermelhos. Ou seja, descobrimos agora, via Maradona, que as críticas condensadas de forma canhestra, é certo, mas condensadas, ainda assim, pela geração desorientada, não passam de interesses particulares que gritam mais alto, como se gritar mais alto não fosse o combustível de todas as instituições.
Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais.
Isto é tão comovente que chego a pensar em desistir de todos os meus ódios particulares para aderir a uma corrente budista, qualquer uma, desde que encabeçada pela Laurinda Alves. Mas desconhecerá esta pessoa que qualquer direcção social, ou gestão de empresa, se pauta não pelo maior número mas pelo que grita mais alto? Não votamos nós em representantes caracterizados precisamente por serem aqueles que gritam mais alto entre o maior número? Talvez fosse bom explicar que as instituições, desde a regulação oferta/procura dos mercados financeiros, passando pelos sistemas de preços, indo à representação parlamentar e passando pelas academias científicas, são sistemas de gritaria codificados. Mesmo quando funcionando no ponto de eficiência máxima, nunca se trata da decisão do maior número mas dos que gritam mais alto. Até a eleição de sua excelência o Presidente da República não foi produzida pelo maior número mas pelos que gritaram mais alto nas urnas (o maior número não vota). Por outro lado, acresce à confusão geral que na falta de um contrato social intra-uterino, todos fomos postos num sistema sem que nos fosse pedida a nossa concordância, pelo que todos os cidadãos da república podem passar a defender uma revisão das instituições, até à ditadura, se for preciso, e que, por isso, convém acordar para o problema da distribuição um pouco antes da confusão estar instalada. Mas não. Sempre que, durante estes últimos dez anos, se referiam assimetrias gritantes relacionadas não apenas com dependências do ponto de partida, mas com erros no funcionamento do sistema institucional, os defensores da realiade, incluindo o Maradona, acenavam com a polícia. Ora, quando a polícia cair na rua, talvez Maradona seja dos primeiros a reivindicar uma ditadura, pelo que ditadura por ditadura, vamos antes à marretada para a rua (não vou sequer argumentar perante tentativas de esvaziamento da realidade, como as que identificam a manifestação da tarde como aquecimento para a "noite" numa coisa chamada Clube Ferroviário, porque, uma vez mais, não será preciso responder a Maradona que a realidade é una, tanto para os benefícios indirectos da divisão do trabalho em Adam Smith, como para a dupla e complexa frequência de actividades tão distantes como a pedrada na cabeça da polícia - à tarde - seguida de bebedeira até ao coma - lá pela noitinha. Com efeito, quando existem bloqueios nos sistemas de gritaria, e se produzem periferias qualificadas com poder de gritaria, não há outra coisa a fazer; os espaços institucionalizados da gritaria começam a sofrer a concorrência de outras formas de gritaria, até que se produza novo equilíbrio geral, e mesmo esse novo equilíbrio traz já dentro das suas ínfimas e múltiplas conexões novas sementes de desiquilíbrio, o que é o mesmo que dizer que vivemos em gritaria constante, numa dependência frágial, mas que nem sempre aqueles que gritam mais alto possuem os altifalantes do sistema. O momento em que os que gritam mais alto estão fora do enquadramento institucional tem sido denominado revolução (mas também pode ser golpe de estado, revolta, ataque terrorista, etc) e a sua aceitação como realidade depende de múltiplos e complexos factores em que o número (ao contrário do que pensam os Pachecos Pereiras desta vida) é apenas uma das variáveis. Simplificando: para todos aqueles que sempre confiaram no número como fundamento da autoridade, avizinham-se tempos de grande angústia, pois a gritaria poderá vir a tomar conta disto, em mais um belo momento de metamorfose do diálogo (como se o diálogo não fosse sempre uma forma dissimulada de gritaria) com espaço para a criação e a originaliade. Resta dizer que toda a minha obra aponta para a importância de dignificar, se for preciso pelo medo e pela pedrada, a multidão, criando nos futuros decisores uma proibição moral em torno de possíveis agressões a essa entidade abstracta «bem comum». Tenho ouvido repetir que nada se resolve na rua. Lamentavelmente, tenho o dever de informar que tudo se tem resolvido na rua. Desde 1645 até 1776. Talvez não seja por acaso que os países africanos não têm manifestações massivas e que a Europa dos séculos XVII e XVIII, onde se forjaram todas as ideias que nos assistem até hoje, tinha como passatempo decapitar reis. Veremos se a ocasião será ou não aproveitada. Em todo o caso, meus caros amigos, é pegar no megafone, cerrar os dentes, e sentir o prazer de estar vivo, porque, para o mal e para o bem, nada dura para sempre.
Mas os desempregados com licenciatura têm mais poder reivindicativo e mais a ganhar: estágios profissionais para licenciados, bolsas de investigação para trabalhar numa universidade, um posto na Adminstração Pública. Não estão em maior número - só gritam mais.
Isto é tão comovente que chego a pensar em desistir de todos os meus ódios particulares para aderir a uma corrente budista, qualquer uma, desde que encabeçada pela Laurinda Alves. Mas desconhecerá esta pessoa que qualquer direcção social, ou gestão de empresa, se pauta não pelo maior número mas pelo que grita mais alto? Não votamos nós em representantes caracterizados precisamente por serem aqueles que gritam mais alto entre o maior número? Talvez fosse bom explicar que as instituições, desde a regulação oferta/procura dos mercados financeiros, passando pelos sistemas de preços, indo à representação parlamentar e passando pelas academias científicas, são sistemas de gritaria codificados. Mesmo quando funcionando no ponto de eficiência máxima, nunca se trata da decisão do maior número mas dos que gritam mais alto. Até a eleição de sua excelência o Presidente da República não foi produzida pelo maior número mas pelos que gritaram mais alto nas urnas (o maior número não vota). Por outro lado, acresce à confusão geral que na falta de um contrato social intra-uterino, todos fomos postos num sistema sem que nos fosse pedida a nossa concordância, pelo que todos os cidadãos da república podem passar a defender uma revisão das instituições, até à ditadura, se for preciso, e que, por isso, convém acordar para o problema da distribuição um pouco antes da confusão estar instalada. Mas não. Sempre que, durante estes últimos dez anos, se referiam assimetrias gritantes relacionadas não apenas com dependências do ponto de partida, mas com erros no funcionamento do sistema institucional, os defensores da realiade, incluindo o Maradona, acenavam com a polícia. Ora, quando a polícia cair na rua, talvez Maradona seja dos primeiros a reivindicar uma ditadura, pelo que ditadura por ditadura, vamos antes à marretada para a rua (não vou sequer argumentar perante tentativas de esvaziamento da realidade, como as que identificam a manifestação da tarde como aquecimento para a "noite" numa coisa chamada Clube Ferroviário, porque, uma vez mais, não será preciso responder a Maradona que a realidade é una, tanto para os benefícios indirectos da divisão do trabalho em Adam Smith, como para a dupla e complexa frequência de actividades tão distantes como a pedrada na cabeça da polícia - à tarde - seguida de bebedeira até ao coma - lá pela noitinha. Com efeito, quando existem bloqueios nos sistemas de gritaria, e se produzem periferias qualificadas com poder de gritaria, não há outra coisa a fazer; os espaços institucionalizados da gritaria começam a sofrer a concorrência de outras formas de gritaria, até que se produza novo equilíbrio geral, e mesmo esse novo equilíbrio traz já dentro das suas ínfimas e múltiplas conexões novas sementes de desiquilíbrio, o que é o mesmo que dizer que vivemos em gritaria constante, numa dependência frágial, mas que nem sempre aqueles que gritam mais alto possuem os altifalantes do sistema. O momento em que os que gritam mais alto estão fora do enquadramento institucional tem sido denominado revolução (mas também pode ser golpe de estado, revolta, ataque terrorista, etc) e a sua aceitação como realidade depende de múltiplos e complexos factores em que o número (ao contrário do que pensam os Pachecos Pereiras desta vida) é apenas uma das variáveis. Simplificando: para todos aqueles que sempre confiaram no número como fundamento da autoridade, avizinham-se tempos de grande angústia, pois a gritaria poderá vir a tomar conta disto, em mais um belo momento de metamorfose do diálogo (como se o diálogo não fosse sempre uma forma dissimulada de gritaria) com espaço para a criação e a originaliade. Resta dizer que toda a minha obra aponta para a importância de dignificar, se for preciso pelo medo e pela pedrada, a multidão, criando nos futuros decisores uma proibição moral em torno de possíveis agressões a essa entidade abstracta «bem comum». Tenho ouvido repetir que nada se resolve na rua. Lamentavelmente, tenho o dever de informar que tudo se tem resolvido na rua. Desde 1645 até 1776. Talvez não seja por acaso que os países africanos não têm manifestações massivas e que a Europa dos séculos XVII e XVIII, onde se forjaram todas as ideias que nos assistem até hoje, tinha como passatempo decapitar reis. Veremos se a ocasião será ou não aproveitada. Em todo o caso, meus caros amigos, é pegar no megafone, cerrar os dentes, e sentir o prazer de estar vivo, porque, para o mal e para o bem, nada dura para sempre.
2 comentários:
Maravilhoso texto.
Cabe-me uma correcção:
O Maradona jogou futebol, diz que bem. Este, de cá, o do blog, a quem responde, é o "maradona", mas também já foi o "maradona (com minúscula)". Respeito aos homens!
http://www.youtube.com/watch?v=QJhVM930YXY
Tânia Vânia
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