terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A diferença entre uma pessoa que canta como quem acabou de rematar à baliza e outra que foi desenterrar do folclore salazarista o "trajo de Domingo"



Uma pessoa introduzida num sistema de incentivos cuja finalidade é produzir conhecimento deve ser aquilo que mais se aproxima do fenómeno identificado por Ana Bacalhau e restante grupo folclórico como um mundo parvo onde para se ser escravo é preciso estudar. Musicalmente, o grupo de Ana Bacalhau destaca-se da média, e julgo que um factor não dispiciendo neste destaque é o facto dos músicos, não sendo parvos, terem efectivamente estudado. Já a programação de conteúdos tem uma distribuição de qualidade muito acidentada. Veja-se o assinalavelmente bem conseguido «Um contra o outro», o texto para canções que mais se aproxima da trilogia Godinho, Palma, Reininho, onde o esboço de crítica antropológica casa sem dor com a linguagem convencional dos autocarros da Carris, e isto, embora tentado à saciedade mas sem resultados satisfatórios, por tudo quanto é B Fachada, não é, nem por sombras, uma actividade sem riscos. Porém, era inevitável que um texto onde se procurassem juntar «mundo parvo», «escravo» e «é preciso estudar» só estaria ao alcance de um Shakespeare, ou, vá lá, de um Whitman. Ora, o grupo de Ana Bacalhau mergulhou assim na sopa mais requentada das últimas décadas, um banho preocupante que parece afligir cada vez mais uma geração cuja maior preocupação não deveria ser o estado de escravidão, para citar os brasileiros, muito versados nestas coisas (uma coisa má em si, mas não irreversível) mas sim o facto de estar completamente desorientada intelectualmente (um problema bem mais agudo). É necessário explicar várias funções do problema, regularidades com comportamento tendencialmente previsível, numa curva de consequências muito difícil de derivar:

0. O facto de «ser preciso estudar» revela que, na opinião do sujeito poético, estudar é uma coisa má, o que logo à partida funciona como uma antecâmara dos horrores sociais que estão prestes a desabar sobre nós pela boca de Ana Bacalhau. Se para ser Senhor fosse preciso estudar, estudar já seria uma coisa boa ou, por outro lado, se para ser escravo não fosse preciso estudar, estaria tudo bem, obrigado. Estudar, como fim em si, é coisa que nunca passa pela lista de felicidades domésticas dos portugueses.


1. O mundo não é parvo nem meio parvo, para citar o incontornável Tchékhov, as pessoas é que são parvas.

2. Para ser escravo neste mundo tornado parvo por pessoas parvas (isto é, cujo âmbito de conhecimentos é muito limitado ou - atente-se agora com muito empenho - muito especializado) contribui tanto a compra de um cd dos Deolinda como a frequência de qualquer curso superior (excluindo, como é evidente, a Gestão, uma especialização parva da qual é muito difícil recuperar).

3. Vou desculpar aquela alusão à mulher que, coitada, não pode ainda ter marido e filhos porque é escrava, seguro de que apenas o olímpico, recorrente e desculpável desconhecimento da história do mundo ocidental, e toda a sua interminável arquitectura de carestia, guerra e morte, justifica uma tal confusão, lembrando que a possibilidade de uma mulher não enveredar pela carreira reprodutiva permitiu pensar os problemas da população e a libertação educativa dos nascituros, como pessoas, e não como força de trabalho necessária à alimentação das ninhadas que sucessivamente iam abrindo a boca no contexto do lar. Não confundir problemas de liberdade individual (casar e ter filhos) com a escravatura sistémica dos contratos de trabalho, uma vez que a procura agregada que gera a oferta agregada e o primeiro factor de força das empresas de produção (ainda que a relação do investimento com o desemprego involuntário possa ser determinante no alargamento da procura de bens salariais) resulta de mulheres que querem ter filhos e marido, e maridos que querem ter filhos e mulher, pondo pessoas no mundo que querem ter coisas, uma circularidade que nos introduz no próximo ponto.

4. Num sistema em que os contratos monetários são a coluna da produção, a aquisição de bens líquidos (que transportam para o futuro a capacidade de fazer frente à necessidade de compromissos súbitos, compras necessárias) representa uma tendência dos agentes para poupar em armazenamento de bens não reproduzíveis, pois se fossem convertidos em investimento não serviriam de reserva de valor, o que como Keynes demonstrou (e agora não tenho tempo de explicar) é uma das maiores causas de desemprego involuntário. Neste sentido, torna-se imperioso entender que:

a) ou abdicamos do sistema em que vivemos, uma coisa que os Deolinda não parecem interessados em fazer, a julgar pela farta programação em Casas de espectáculo apoiadas por muitas e variadas instituições em que escravos com estudos e sem estudos circulam felizes e contentes na grande roda da criação de valor;

b) a única forma de furtar o indivíduo ao sofrimento da escravatura ( e atente-se que já um Bob Marley, na esteira de um Kant ou de um Jean-Jacques, tinha entendido nesse hino imortal, «Redenption Song», que a verdadeira escravatura é sempre mental) é estudar.

5. Bem vindos agora ao maior equívoco da pós-modernidade. É que para indivíduos desorientados (ou, na pior das hipóteses, partindo de um contexto familiar muito adverso, onde mais uma vez os estudos confirmam a variável escravatura como dependente da ignorância) a quem a ganância, a parvoíce, a perseguição dos instintos mais primários no homem (o conforto, a segurança, a reprodução) guiou a vida num sentido estéril (precipitando-os desde a adolescência ou na ignorância ou em cursos de especialização onde se confunde o estudo com a produção de artefactos) toda a busca de conhecimento é confundida com escravatura. O B Fachada recomenda que o Joãozinho não vá à escola para não o tramarem no sistema, até porque o mundo está cheio de países onde abunda a escravatura (Birmânia, Colômbia, Zimbábué) onde as criancinhas são todas doutoradas em Bioquímica e Astrofísica, como é do domínio público, dois dos mais brutais instrumentos de exploração


6. Uma pessoa não deve confundir a institucionalização das técnicas de reprodução de artefactos ou serviços que tendem à reprodução de artefactos, com o estudo em geral, sob pena de tal pessoa representar o prego no caixão da esperança (esse anjo da história). Os problemas que nos são colocados pela industrialização não decorrem apenas da ciência mas também dos desejos(onde todos os Deolinda deste mundo confundem o estudo com a escravatura, numa versão de crítica à tecnologia que já tem barbas mais longas que as do famoso adepto benfiquista) . Ora, o único instrumento para moderar os impactos negativos dos nossos desejos é a planificação das consequências de estarmos vivos, usando na não direita a razão crítica e na esquerda o estudo aprofundado de todas as consequências do uso da razão crítica.

7. O estudo permite estar frente a frente com o maior número possível de cérebros, e descobrir nessa diversidade todos os instrumentos úteis à resolução mais geral do maior número de problemas possíveis, de onde ficará, por certo, um sentimento de libertação (os gregos ainda não tinham separado acção e pensamento, mas tinham escravos que os libertavam para pensar quando era preciso agir, uma vez que alguém agia por eles, não há almoços grátis). Pedia encarecidamente a Ana Bacalhau que enquanto não encontrar solução para o problema da escravatura não vilipendiasse a única estrada para a libertação, o conhecimento. Se os Deolinda quiserem começar a discutir qual conhecimento, estarei completamente disponível para o efeito. Até lá, mais respeitinho pelo prato onde se come.

3 comentários:

binary solo disse...

apenas 2 comentários caro Alf:

1. concordo plenamente na questao da geração completamente desorientada. ao ponto de escolherem esta musica como hino de revolta. hino que eu saiba há so um e manda marchar contra os canhões. veja-se os egipcios.

2. nao creio que os Deolinda achem que o estudo seja uma coisa má. a música retrata a realidade de muitos em portugal, que até gostando de estudar vivem na precariedade e com poucas hipoteses.

3. afinal eram 3 comentários: absolutamente de acordo com Tchekov: as pessoas é que são parvas. ao ponto de escreverem em blogues.

Anónimo disse...

De acordo. Mas a precaridade e as hipóteses estão sempre dentro da cabeça. Até o Bob Marley sabia que o primeiro combate é pela emancipação mental. Mas esse combate não parece preocupar os Deolinda, talvez porque convidaria a ouvir qualquer coisinha com mais conteúdo, ou, na pior das hipóteses, as pessoas formariam os seus próprios Deolinda, e aí a concorrência e a roda da escravatura começaria novamente a andar. O mundo é complexo. Importa ter potência mental para não desistir perante essa complexidade. Essa é a única razão que me mantém na escrita parva de blogues. Isto é uma espécie de escadaria de Filadélfia para qualquer anónimo Rocky Balboa. E note-se que eu recoheço algum mérito, sobretudo musical, aos Deolinda. Mas repara que ao retratar a realidade, estaremos sempre a hierarquizar factores na realidade e aí os Deolinda mergulham na confusão e no ressentimento típico de uma geração incapaz de exercer a crítica, não por não ter vontade, mas por ser um produto do tal mundo parvo, não conseguindo mais contra o mundo parvo senão uma balada esconsa, interpretada por uma pessoa vestida de escravo. Ou os avózinhos retradados nos figurinos dos Deolinda, prontos a sachar a terra ou a carregar as sacas de carvão do porto de Lisboa, aparecem agora reificados exactamente para quê? É o regresso à casa portuguesa?
Intelectualmente, os Deolinda cheiram mal, e é preciso ter isso em conta.

F. disse...

Fazendo parte da geração desorientada e da pequeninissima minoria que dedicidiu estudar filosofia (licenciatura que normalmente dá aso para perguntas como: o que se vai fazer com isso?) devo dizer que concordo plenamente com este post e até, chego a coubiçar, um dia, escrever deste modo (tamanha ambição). Indo ao descontro dos Deolinda, penso que este problema se encontra, subretudo, por causa de uma geração anterior que não foi capaz e educar os seus fifis tendo como base a importância do conhecimento como meio de libertação dos "embaraços interiores". Daí que, não tendo havido pais a velar pelo conhecimento como se pode esperar que os filhos deste país tenham alguma coisa na cabeça? Já para não falar de um sistema de ensino com professores imbecis que em vez de puxar pela criatividade e flexibilidade mental descarregam frustrações mal resolvidas e falham miseravelmente em apresentar o conhecimento como uma ferramenta fundamental para o caminho pessoal de cada um. Agora para me armar em grande "chica-esperta"...acredito que se algum dia um professor de Língua Portugesa tivesse tido a elastecidade para explicar que a leitura é uma conversa interior que nos permite ver o reflexo de si mesmo, tenho a certeza que muito adolescênte, nos picos da sua crise de identidade, poderia ter olhado para o céu, com ar de Santas agradecidas, e pensar que talvez estivesse aí a sua resposta. Mas nãooooooooo...o que interessa são números (médias, notas, salários and so on). Para terminar, acho ainda mais curioso como o curso de gestão está tão em voga quando a maioria dos licenciados dificilmente sabe gerir a sua vida.

Peço desculpa pela dislexia, a escrita imatura e a necessidade de expressar um desabafo...mas era necessário.