quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Nós, os que não gostamos dos políticos que temos, somos desconhecidos políticos de uma infinita clarividência

Como é do conhecimento público, eu gasto cerca de 98,34% do meu tempo a ler livros escritos por pessoas incapazes de dizer mal de uma campanha eleitoral, isto é, pessoas que se dobram perante a possibilidade de escolhermos pessoas muito abaixo das nossas possibilidades de fazer, como seguramente o João Lopes faria, brilhantes campanhas eleitorais em que as múltiplas e obscenas exuberâncias nunca tomariam o nosso espaço público - uma coisa em nada comparável com a obscena exuberância dos dez filmes a preto e branco que o João Lopes julga serem detentores de um pensamento político capaz de elevar o nosso espaço público às alturas estratosféricas do seu conceito ideal. Eu gosto muito do João Lopes mas nada mais insuportavelmente vazio do que a erupção da banalidade num juiz-avaliador do pensamento político como é João Lopes, a saber, a conclusão de que o pensamento que passou a dominar a nossa vida política foi, algures num tempo em que o João Lopes era pequenino, muito melhor do que aquele que agora, com obscena exuberância, é ostentado pelos candidatos presidenciais. Vamos entender-nos de uma vez por todas: os portugueses são politicamente estúpidos até ao âmago dos seus ossos, não por culpa própria, não por serem congenitamente piores do que os ingleses, os etíopes ou os chilenos, (não há hierarquia humana nas águas da placenta, ou talvez haja, não sei) mas porque a evolução de uma infinidade de complexidades e variáveis os precipitou no abismo da ignorância organizativa quando os outros povos seguiam o curso inverso. No entando, esta estupidez política conjuntural é muito mais vincada em qualquer um dos milhares de anónimos que zurzem nos candidatos presidenciais que nas entranhas neurológicas de mesmo um vincado troglodita político como é Aníbal Cavaco Silva, como se torna evidente pelo simples facto do Professor de Finanças ter decidido ir a jogo, introduzindo na sua vida a máxima elevação do espaço público, confundindo a sua vida com o destino colectivo, como aí estão as dramáticas reviravoltas da vivenda algarvia para testemunhar o sangue com que normalmente são selados, para o mal e para o bem, os pactos da participação na obscena realidade. Quer isto dizer que a patine estética que garante ao João Lopes a dignidade de não intervir politicamente num partido à sua escolha - guardando a virgindade perante a obscena realidade da pobreza política que é a nossa - constitui o maior sintoma de que espera, por certo, um amanhã que filma, e, assim, confrontado com a exuberante obscenidade do real, deixa cair lamentações sobre o lugar onde temos que construir as nossas vidas, umas melhores, outras piores, mas todas distintas no julgamente do que é a pobreza do espaço público. Pena é que a sabedoria política se faça a partir desta constatação e a elevação do pensamento político apenas se erga, como a coruja de minerva, quando esse observador, ao anoitecer do átrio da sua porta, mantém a serenidade e suspende o julgamento, não se apressando a medir o mundo pelo tamanho da sua cabeça, a partir de um prisma arrogante e ingénuamente esclarecido, e faz apenas o que tem a fazer: ouvir, mais do que falar, agir e esperar que um qualquer espectador tome o lugar do João Lopes e atire a primeira pedra.

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