segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

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Na sequência de coisas de que agora não quero recordar-me - e fazendo eco dos votos de besugo, isto é, «parabéns à prima» -, venho por este meio declarar a esta ditosa pátria minha amada que não voltarei a levantar um cabelo em prol da ilustração colectiva de uma população que, genericamente considerada, merece cada um dos micro-segundos de que é feita a sua ignorância cronologicamente considerada, vai para dez séculos, como uma das mais lendárias terras onde brotam o saloio, o beirão, o transmontano e o algarvio, espécies sempre adaptadas a novas realidades, sempre prontas a colocar a sua semente de sabujice e província na mais frágil tentativa de fraccionar a estrutura oligárquica do território ou iniciar um período de Luzes, ainda que ténues. Qualquer sociologia eleitoral - eu já empreendi várias, entre imperiais, chamuças e vários volumes de exegese aos românticos ingleses -, confirmam a alavanca que faz do senhor Presidente da República um ponta de lança do eleitorado mais idoso, mais analfabeto e mais interior, representando uma espécie de válvula de segurança perante aumentos de velocidade da transformação que possam lezar o velhinho, o governo paroquial, ou a horta junto do ribeiro. Faziam o favor de me descontar os elogios à ruralidade: sem industrialização e sem literacia, pessoas que compram e lêm livros, não há democracia e o Professor Doutor Aníbal António é uma negação da escolarização em movimento, um manifesto a favor da indiferença perante o raciocínio, um insulto perpétuo ao valor da imaginação e da eloquência metal, um sacerdote do pobre quotidiano português, o tempo detergente, o génio da banalidade. Dizem, contudo, que isto somos nós, coitadinhos, condenados à marquise, à inovação, à criação de valor, às mais novas gerações - caracterizadas por, louvado seja o senhor, desconhecerem em absoluto a história de Portugal, o que só as poupa à infâmia e à vergonha -, às obras completas do cardeal patriarca, ou, na melhor da hipóteses, aos ensaios sardentos e febris de João Lobo Antunes, uma pessoa que gostava de ser uma pessoa. Portanto, parabéns a todos os que consideram irrelevante a realidade colectiva da mente (Espinosa) e fazem de cada dia a maravilhosa descoberta do conforto que é pertencer a um sistema político, que digo eu, uma roda dentada mais repetitiva que um alarme de automóvel e mais estéril do que a mulher de Abraão. Eu, desde este preciso momento, encerro para obras internas e vou maravilhar-me com a solidão do meu próprio espírito, uma substância onde, como tenho aqui repetidas vezes proclamado, ainda não chegam os sórdidos ventos da confiança e da estabilidade.

1 comentário:

silvia disse...

Entre imperiais e chamuças essa clarividência consola-me :-)

Admirável!