sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Bourgeois dignity com Isabel Figueira

É com grande alegria que comunico a toda a Via Láctea e galáxias mais longínquas a vitória do Elogio da Derrota sobre A causa foi modificada, numa das mais insignes tarefas intelectuais de que há memória nos anais da blogosfera. Porém, adiante. Uma das coisas que mais me carateriza é o meu desinteresse absoluto pela segunda guerra mundial. Já o confronto naval setecentista anglo-holandês, produtor da mais espectacular pintura do mundo, faz todo o pleno das minhas mais obscuras delícias - em que navios com a elegância de uma Heidi Klum ou de uma Juliane Moore se destruíam mutuamente, entre nevoeiros glaucos, bandeiras esfarrapadas na ventania marítima, balas de canhão imobilizadas no seu destino de morte e um mar que nem Melville poderia descrever de tão odiosamente violento na sua baba azul celeste e fúria esbranquiçada. E isto era de tal ordem, meus amigos, que na sala de espera do dentista, onde incompreensivelmente era levado pela mão da progenitora que devia zelar pelo meu bem estar, entre os terrores futuros da broca mecânica, apenas as reproduções destes temas navais eram capazes de produzir calma no meu sistema nervoso central, introduzindo nas minhas narinas o cheiro da pólvora levemente oleado pela gordura marítima das ondas. Já se vê do que aqui venho falar: do novo livro de Deirdre MaCcloskey, que o leitor poderá comtemplar incrédulo na minha própria mão, a partir desde preciso e irrecuperável momento:

Livros em Cacilhas

Enganem-se os ignorantes como Helena Matos: este livro não é mais uma daquelas lamentações vertidas por um deputado do PCP nascido em Évora e sócio do sporting que pastoralmente nos recomenda, além do «nosso ponto de vista», menos economia no discurso político e mais humanidade nas decisões do governo. Este livro parte do princípio mundialmente consagrado pela espúria realidade (um abraço ao Bruno Peixe, que não sei quem seja) de que a ciência económica, sendo uma merda, é a mais eloquente das merdas que o cérebro humano produziu no capítulo das ciências sociais nos últimos trezentos anos (note-se, altura em que essas mesmas ciências sociais, agora adolescentemente muito independentes, eram conduzidas pela mão de pessoas como Rosseau, Smith, Mathus, Ricardo, Mill). Posto isto, de que fala o livro?

Livros em Cacilhas


Naturalmente, José Pacheco Pereira, fala de desejos. Esta mania de entender a realidade como um consenso que nos oprime é um argumento típico de um adepto do tunning que maldiz os limites de velocidade. McCloskey começa por nos deixar estupefactos, afirmando que para salvar o capitalismo - uma merda que, lembraria a todo o auditório, nos tem possibilitado muita brincadeira - é preciso salvar a economia dos economistas, pessoas que, à semelhança de um Nogueira Leite ou de um João Duque, têm mantido a ciência económica, nas palavras da autora, numa espécie de pathos «sleepwalking». O caminho entre nós e os nossos desejos tem sido feito de muitas e sinuosas maneiras. O que a trans-sexual (um abraço ao Senhor Presidente da República) professora na Universidade de Illinois nos conta é que a dignificação da inovação comercial, ou do ethos do trabalho baseado em padrões de compra e venda, teve um caminho de valorização muito Mel Gibsoniano, onde verteram sangue e intestinos, entre gritos e imprecações contra padres e sacerdotes. Mesmo quando esta valorização começou a mexer as suas patinhas abjectas, ao jeito de Gregor Samsa, as perspectivas de mercado livre e votação livres de Espinosa, Mandeville, Rosseau, Paine, chocaram com um iluminismo mais conservador de Locke, Newton, Smith ou John Adams. Aqui, já Miguel Morgado coçou as borbulhas e invectiva: mas isso é o que eu digo! Não, não é, direi eu. Não obstante o coro operático que, desde o monhé José Manel Fernandes, até ao transmontano estrunfe Marque Mendes, tem defendido que a operação do Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva é absolutamente impoluta numa economia de mercado (comprar baixo para vender alto), o que não deixa de ser verdade, o problema vaginal não está na ética comercial insipidamente desenvolvida entre os portugueses. Está antes naquilo que Marx chamaria a reprodução das relações de produção. Tal como afirma MacCloskey, a melhor definição de capitalismo baseia-se na descrição de um sistema económico de propriedade privada em que as inovações são introduzidas por meio de dinheiro emprestado, o que presupõe um sistema bancário de risco fraccionado e fácil oportunidade de negócio para o filho do carteiro, uma coisa que nem Belmiro de Azevedo propugna, como é bom de ver, ou não estivesse o estúpido do seu filho, tal como numa monarquia Suméria, à frente do império. Mas os fundamentalistas zarolhos como Cadilhe e Braga de Macedo, acreditam no espírito do crescimento feito pela acumulação da poupança - seja pela via da casinha portugusa, pão e vinho sobre a mesa, seja pela via da balança comercial, uma coisa que cheira a pó talco de cabeleira setecentista - , aumento de capital e investimento, uma trilogia tão vazia como a cabeça de José Luís Peixoto. Qualquer crescimento, para cima, para baixo ou para os lados, pressupõe um padrão de medidas, um escala, valores fixados por um acordo. Ora, o que está errado, meus amigos, é o nosso acordo. Se olharmos para a estrutura genealógica dos interesses económicos podemos contar as famílias pelos dedos da mão, e em muitas grandes empresas, a administração não sobe pelos mesmos elevadores das empregadas de limpeza. Muito do revelado no livro que agora se introduz em Portugal, quer pela mão do Maradona, quer pelos meus sagrados dedos, foi já repetido por Hirschman ou Mokyr (vão ver ao Google, que estou atrasado para o comboio) e incide sobre a importância da dignificação do trabalho das classes pobres (uma coisa em que o PCP trabalha, mas de forma tão canhestra que obtém quase sempre o efeito contrário, tal como a criança que brinca com gasolina e fogo em ordem a produzir um efeito lúdico), permitindo que o sistema de liberdade natural dignifique as soluções mais inteligentes na competição pela criação de coisas e comércios. A dignidade dos inventores é, por exemplo, algo que está a anos luz do nosso Portugal, ninguém na rua na noite escura. Se eu mencionar aqui a estrutura da investigação nas Universidades - e não estou a falar de orientar estruturas curriculares para produzir empresas - todos correrão imediatamente para sacar da pistola.

Livros em Cacilhas

Finalizando: Miral Amaral, enquanto se baba pelos cantos da boca, produziu qualquer coisa sobre inovação, sendo que o problema também não está numa política de pedestal para a criação de coisas mas na relação entre o conjunto dos agentes e o padrão de incentivos, valorativos ou materiais, que os articula na sua vida de trabalho. Que o Barcelona é uma grande merda, ninguém duvida. Que o Maradona continua a produzir a mais interessante prosa nacional, também não (ver o artigo absolutamente pífio, sobre Agustina Bessa Luís, de Gonçalo M. Tavares, recentemente laureado em França - uma nação de analfabetos maricas que produziu uma única estrela pornográfica). Que eu acabei de perder o comboio, o que singifica que estou fodido com um relatório que já devia ter entregue, também não.

Livros em Cacilhas

ps: Direitos de propriedade - O título e as fotografias são autoria de Binary Solo

1 comentário:

Anónimo disse...

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