É sintomático que cultivadores da gargalhada perante o cientismo marxista, e seus supostos erros, revelem tamanho entusiasmo perante as denúncias das ilusões dos intelectuais, até porque, neste sentido, Fraçois Furet talvez se não distinga, com tanta propriedade assim, de um Francisco Louça, ou José Pacheco Pereira de uma Abelha Maia, pessoas sempre iludidas por um mundo eternamente comprometido na produção de mel. Já o facto de Miguel Morgado repescar textos de 2007 no baú do seu sotão me parece um traço típico de desorientação, algo que não criticarei por me encontrar neste momento completamente indeciso entre a dispensa de Kardec ou a retorno de Nélson Oliveira, um jogador desperdiçado pelo Benfica na Capital do móvel. Assim, neste quadro geral de crise de valores, aguardamos que Miguel Morgado faça uma pirueta encarpada e nos explique em que é que «a história da ilusão dos intelectuais», crentes em Lenine ou no Tio Patinhas, se distingue da história da ilusão dos intelectuais crentes em Tocqueville, em Hayerk, ou na democracia liberal, restando pouco mais ao patinado artístico de Morgado do que uma confirmação do que já Foucault (outro pobre iludido) demonstrara na mesma época em que Furet suava em desintoxicações da propaganda estalinista que comera durante vários anos, a saber: o liberalismo é a arte da demonstração de que o real é possível, sempre comprometido em justificar a história até ao momento em que a história deixar de ser favorável e os Morgados deste mundo começarem a protestar com as arbitragens. Com efeito, «os vários determinismos, historicismos e estruturalismos, em que o final do século XIX e o século XX foram tão pródigos» são exactamente os mesmos que alimentaram o Furet de antes e depois da grande ilusão, o senhor seja louvado, ter abandonado o seu espírito de caçador de burgueses, ou ignora Morgado que Furet faz parte daquela turma de caloiros que, arrependidos da noite passada, se põem a insultar os vendedores de cerveja.
Se Rousseau e Marx tiveram aqui óbvias responsabilidades, não é menos certo que coube a Hitler e a Lenine (e a Mussolini) declarar o burguês como o culpado impenitente por todos os males da condição humana, e alicerçar o Estado nesse veredicto.
Meu Deus, coitado do pobre Rosseau; como diria uma peixeira da Lota de Matosinhos, «o que lhe têm feito». Contudo, nem mais, Miguel Morgado, pois é exactamente neste passo que se localizam as fontes de onde brota o ódio de Furet ao intelectuais iludidos; nasce em grande parte no mesmo local onde sempre nascem todas as ilusões: uma vontade filha da puta de nos pormos a milhas das coisas que nos perturbam, pois o que são os intelectuais em geral, nestes últimos cem anos, e em particular os dos determinismos e dos historicismos (os intelectuais, pessoas que vivem do intelecto) se não vítimas de um mesmo ódio contra os burgueses, estejam eles comprometidos com a União Soviética, com Cambridge (caso de Blunt e dois panascas estalinistas), com as leituras de Montesquieu (fundamental para Althusser) ou Hobbes (fundamental para Horkheimer)? Ora, isto apenas indica que o saber de Furet, invocado por Miguel Morgado, é a velha e muito antiga produção de raiva entre pessoas que concorrem pela hegemonia do discurso, e este fascínio de Morgado pelos desfazedores de sonhos lembra, e de que maneira, a crítica da ideologia produzida pelas séries fabricadas em paletes na linha de produção dos partidos comunistas. Não vou perder tempo a identificar todos os momentos em que Morgado salta por cima da complexidade da vida encaixotando, na mesma frase, Rosseau, Mussolini e Marx, por exemplo, três pessoas que nunca frequentariam a mesma mercearia ou sequer partilhariam valores na apreciação morfológica de uma criada de hotel. Morgado: fica para o teu trabalho de casa de Natal, sublinhares neste texto todas as vezes em que tentaste enganar o leitor sobre coisas de que não fazes a mais pequena ideia da razão porque sucederam ou como sucederam, senão estarias rico, e eu morto. Em todo o caso, não seria hora de pensar um bocadinho, deixar de bater em velhinhos, e tentar entender o que há de perturbador neste sonho anti-sonhos (será a suprema vitória de Marx?) que não só procura desfazer todos os sonhos como se auto-congratula, a cada momento, como a única interpretação legítima das aspirações humanas, auto-promovendo versões faça-você-mesmo do único método capaz de nos conduzir ao conhecimento do que foi a história e o calvário de todas as nossas tristes ilusões? Não será este fascínio pelos desmanteladores da ilusão uma característica que une Furet, Morgado, Medina Carreira e Lenine, tão típica dos que, desconfiados da sua própria razão, se consomem em apontar os erros dos pobres loucos como forma de tranquilizante perante o seu próprio desnorte? Não estará a marca da clarividência assente sobre uma razão que caminha contra si própria e não contra as ilusões alheias, à semelhaça do que sempre procuraram fazer, por exemplo, Newton ou Adam Smith, com os belos resultados que, julgo eu, nem um analfabeto científico como Miguel Morgado poderá hoje ignorar?
Se Rousseau e Marx tiveram aqui óbvias responsabilidades, não é menos certo que coube a Hitler e a Lenine (e a Mussolini) declarar o burguês como o culpado impenitente por todos os males da condição humana, e alicerçar o Estado nesse veredicto.
Meu Deus, coitado do pobre Rosseau; como diria uma peixeira da Lota de Matosinhos, «o que lhe têm feito». Contudo, nem mais, Miguel Morgado, pois é exactamente neste passo que se localizam as fontes de onde brota o ódio de Furet ao intelectuais iludidos; nasce em grande parte no mesmo local onde sempre nascem todas as ilusões: uma vontade filha da puta de nos pormos a milhas das coisas que nos perturbam, pois o que são os intelectuais em geral, nestes últimos cem anos, e em particular os dos determinismos e dos historicismos (os intelectuais, pessoas que vivem do intelecto) se não vítimas de um mesmo ódio contra os burgueses, estejam eles comprometidos com a União Soviética, com Cambridge (caso de Blunt e dois panascas estalinistas), com as leituras de Montesquieu (fundamental para Althusser) ou Hobbes (fundamental para Horkheimer)? Ora, isto apenas indica que o saber de Furet, invocado por Miguel Morgado, é a velha e muito antiga produção de raiva entre pessoas que concorrem pela hegemonia do discurso, e este fascínio de Morgado pelos desfazedores de sonhos lembra, e de que maneira, a crítica da ideologia produzida pelas séries fabricadas em paletes na linha de produção dos partidos comunistas. Não vou perder tempo a identificar todos os momentos em que Morgado salta por cima da complexidade da vida encaixotando, na mesma frase, Rosseau, Mussolini e Marx, por exemplo, três pessoas que nunca frequentariam a mesma mercearia ou sequer partilhariam valores na apreciação morfológica de uma criada de hotel. Morgado: fica para o teu trabalho de casa de Natal, sublinhares neste texto todas as vezes em que tentaste enganar o leitor sobre coisas de que não fazes a mais pequena ideia da razão porque sucederam ou como sucederam, senão estarias rico, e eu morto. Em todo o caso, não seria hora de pensar um bocadinho, deixar de bater em velhinhos, e tentar entender o que há de perturbador neste sonho anti-sonhos (será a suprema vitória de Marx?) que não só procura desfazer todos os sonhos como se auto-congratula, a cada momento, como a única interpretação legítima das aspirações humanas, auto-promovendo versões faça-você-mesmo do único método capaz de nos conduzir ao conhecimento do que foi a história e o calvário de todas as nossas tristes ilusões? Não será este fascínio pelos desmanteladores da ilusão uma característica que une Furet, Morgado, Medina Carreira e Lenine, tão típica dos que, desconfiados da sua própria razão, se consomem em apontar os erros dos pobres loucos como forma de tranquilizante perante o seu próprio desnorte? Não estará a marca da clarividência assente sobre uma razão que caminha contra si própria e não contra as ilusões alheias, à semelhaça do que sempre procuraram fazer, por exemplo, Newton ou Adam Smith, com os belos resultados que, julgo eu, nem um analfabeto científico como Miguel Morgado poderá hoje ignorar?
2 comentários:
A análise à crise que vos deixa envergonhados da vossa superficialidade está aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=MxjBof_WfpM&eurl=http://www.rtp.pt/wportal/sites/tv/sempreempe/sempre_08012008.php
Tudo bem com todos? Vou ver isso e logo conto.
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