segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Personagens que são como pessoas

A caracterização das pessoas: um problema e tanto. Ainda ontem Bernardo Sassetti passou uma hora a contorcer-se na cadeira, fingindo que não fingia, num cenário de chavascal barroco, com tromp d'oeil, cravos trabalhados em madeiras preciosas e grandes espelhos enquadrados por talha dourada, cenário onde o músico tentou furtar-se ao inevitável engate de Manuel Luís Goucha (uma pessoa que, não sendo comunista, não deixa de ser nojenta), apenas conseguindo produzir inteligência nos derradeiros trinta e dois segundos, quando já a música do genérico o afogava inapelavelmente (alguém consegue explicar porquê?), citando a mulher, dez mil e duzentas vezes mais artista e mais inteligente, a propósito do tão característico traço nacional: a maledicência. Um dia explicarei porque razão o uso do vernáculo tem produzido a melhor prosa vingativa de que há memória nos anais da crítica portuguesa. Alegadamente, explicava Beatriz Batarda que «as pessoas quando dizem mal dos outros estão quase sempre a querer dizer mal de si próprias», mas num registo codificado, acrescentaria eu, é preciso é ter ouvidos para ouvir. O Truman Capote é má pessoa: isto já era evidente, pelo menos desde a sua confissão de preferências à Paris Review: conversar, ler, viajar, e, só depois, escrever. Eu gosto mesmo muito de dizer mal, e viajar, sobretudo para Cacilhas, um sítio onde as descrições das personagens me saem sempre bem.

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