quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

No século XXI, a felicidade chega pelo correio, algures durante a próxima semana





Comecei a perceber que era doente mental quando aí pelos 24 anos descobri que me interessava mais pelos aspectos absolutamente irrelevantes da vida de John Keats do que pelo processo de aprovação de um projecto de vida minimamente consistente com as coisas que as instituições democráticas, já naquela altura, faziam passar pelo ralador da realização pessoal humana e coisas assim. Como tinha observado demoradamente a metodologia utilizada pelas velhas beirãs quando manejavam aquelas máquinas metalizadas de fazer puré, das quais se libertava a massa da batata e fagulhas de zinco (era o tempo em que as nórdicas ainda não se tinham entregue a exercícios burocráticos de proibição das várias maneiras de morrer cultivadas pelos meridionais e se entretinham a procurar experiências variadas nas praias algarvias). Eu ficara maravilhado com todos os aspectos meticulosos inerentes a uma fuga gloriosa de todas as obrigações (reparem que eu não sou o Gonçalo M. Tavares), e convencido pela forma como as mesmas velhas cegavam a couve amortecida no seu colo negro, percebi que não tinha vocação de couve, embora, desde logo, adivinhasse as conspirações diabólicas que a comunidade urdiria só para me desviar do meu objectivo, isto é, perseguir John Keats até ao último nível dos portões do Inferno. Olhem que mesmo estando quase a cometer o suicídio, após televisionar a forma como Fátima Campos Ferreira exibiu manifestas dificuldades em entender o conceito de rendimento marginal decrescente, confundindo-o com crise, poupança, vingança, um secador do cabelo e um chouriço de sangue mal cozido, para grande desespero do Professor João Ferreira do Amaral - a única pessoa capaz de pensar em simultâneo com um debate no prós e contras sem ajeitar o cabelo ou sem se deixar arrastar pelas indicações selvagens da moderadora - não posso deixar de enfrentar os próximos dias com a mesma esperança que me assistia aos 24 anos. Passando por cima da grande mágoa que me foi causada pelo toxicodependente Miguel Morgado, quando este procurou exibir com entusiasmo o féretro da demografia ignorando que ninguém já acredita nas ciências sociais, uma conclusão que o setubalense demorou quase uma hora e trinta e três minutos a alcançar, comunico ao auditório que a minha vida foi salva mais uma vez pela doce e branda Inglaterra, um país que merece todos os serviços da dívida, possíveis e imaginariamente aumentados, até ao derradeiro milímetro do último cêntimo que me restar adormecido nos bolsos.

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