quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

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"O título do livro é o que melhor define esta história e histórias que tinha para contar, pois é bastante ambíguo, porque, de facto, são jogos, jogos de 20 anos de política africana em que estive presente", sublinhou Nogueira Pinto na apresentação de um Livro, Jogos Africanos , lançado um destes dias, um livro que nunca me apeteceu folhear por muitas e variadas razões. Até que a semana passada fiz desfilar, diante de uns atónitos olhos, os meus, as fotografias do protagonista brindando com copos de cristal, sulcando de lancha as ondas do Atlântico, à varanda de casas coloniais sobre o Índico, com a Zezinha e os americanos, com a Zezinha e os africanos, com a Zezinha e os diplomatas portugueses e uma outra vez rolou o vento doce e perturbante da história, os jogos, a terra, a vida olhada pela perspectiva do dinheiro e do privilégio, apenas jogos, intrigas, pequenas paixões, o mal de África, manhã de África, quando, por vezes, também vai o filho fotógrafo, as viagens por África, os insólitos pretinhos que, dizem, estão sempre muito contentes com a nossa visita. E os soldados de Napoleão apodrecendo nas planícies nevadas da Rússia? Olhava para as fotografias enquanto, sem que nada fizesse para tal, desfilavam as árvores decrépitas das savanas, a oscilação do capim como a pele afagada de um leão, o relâmpago das rajadas, o cheiro esfomeado da ração escassa, os miúdos mascote abrindo o leque resplandecente do seu sorriso, a nota lona de violencelo chorando em vez das mulheres, um vento esquisito soprando do lado da morte, as palhotas, e à porta, a cara da morte, espreitando, um túnel pintado muitos anos depois numa casa da montanha, a vida que não se recupera, os americanos, eu e Zezinha, Chiçano, eu e a Zezinha, os copos de cristal, a mesa do restaurante, as varandas sobre o mar, eu e a Zezinha. Quantos rapazes nunca tiveram a sua Zezinha para que estas fotografias chegassem a ver a luz do dia? Conheci pelo menos uma pessoa que rebentou o coração, o fígado e a vida na lama das picadas, cujos olhos eram duas pequenas nascentes envergonhadas de existir quando por acaso a televisão bruxuleava com a luz inesquecível do poente do Zambeze, ou um leão rugia sobre as encostas de África. Mas não jogou, não conhecia as regras, perdia-se em detalhes insignificantes, pintava quadros, meus deus, o ridículo de pintar quadros que ninguém viu, árvores africanas, queimadas pelos fogos naturais das tempestades, sub-sarianas, hoje abandonados numa casa fechada nas montanhas a tantos quilómetros de distância. Pintar quadros, um homem capaz de ganhar uma medalha de mérito por roubar armamento a grupos terroristas, onde talvez existisse menos terror do que nestas fotografias, nestas varandas de negócios, entregar-se a uma mariquice destas, desfazer-se em alcóol, verter a vida para dentro de uma garrafa, quadros de savanas queimadas pelo fogo, quadros que ninguém viu e ainda dormem na escuridão de uma casa fechada, talvez lá estejam agoram sileciosos, não-existentes por não terem olhos humanos que lhes dêm vida, árvores retorcidas, negras, um terror de silêncio e cinzas cuja percepção sempre foi para mim um enigma, até que esta semana, abri um livro sinistro repleto de fotografias de morte.

1 comentário:

silvia, a curiosa disse...

gostava de ver um desses quadros :)