quarta-feira, 1 de outubro de 2008

«O dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem» já dizia o velho Vinicius

Entre as várias descrições analíticas, dos últimos acontecimentos nos mercados financeiros, o prémio vai inteirinho para os têm vislumbrado uma estreita relação entre as turbulências financeiras e todos «aqueles que vivem acima das suas possibilidades». Vários têm sido os observadores a optar por esta leitura que pode ser resumida como uma disbunda da canalha e do pé-rapado à solta no Continente e nos stands de automóveis (logicamente, como mandam as regras do equilíbrio racionalista do homo economicus). Considere o caro leitor o post de Miguel Botelho Moniz no Insurgente (como estes nomes curiosos corroboram a grande flexibilidade da riqueza introduzida pelo mercado no tecido social português e a consquente liberdade de pensamento):

«“Fim do mundo da prosperidade” - O que acontece quando a realidade cai em cima de pessoas habituadas a dinheiro fácil criado pela expansão de crédito e que, por isso, vivem acima das suas capacidades». (O Insurgente, 1 de Outubro de 2008)


Finalmente uma síntese do problema. Lúcida, rigorosa, justiceira e clean. Na verdade, a conjunção entre as palavras «dinheiro» e «fácil» remete para uma densa cadeia (desculpem a alusão), não de capitalistas, uma vez que os não há nas cadeias portuguesas, mas de factores. O mercado é, com efeito, um sucedâneo do Deus de Israel. Quando os cidadãos prevaricam (agarrando-se a dinheiro fácil) a realidade cai-lhes em cima. É uma possibilidade para quem passa a viver acima das possibilidades. O dinheiro só deve ser fácil para quem já o tem e, portanto, dele não precisa. Para quem o não tem, nunca é demais lembrar que todos temos a ganhar em mantê-lo como sempre foi: difícil. É bonito, é justo, é eficaz. Note-se que segundo os varões do binómio mercado/liberdade existe uma estreita ligação entre a liberdade económica e a liberdade política. Logo, expansão do crédito, liberdade política para todos. Perdão, enganei-me no raciocínio. Expansão do crédito, liberdade política para o banqueiro que, por sua vez, empresta o dinheiro que lhe foi emprestado por outro banqueiro ainda mais libertado, sendo que a liberdade política se encontra neste momento em progressão aritmética mas já um pouco confusa quanto à natureza do último indivíduo, o tal gajo que vive acima das possiblidades, a quem vai estender a cama. A liberdade é, com efeito, fácil para quem tem dinheiro e difícil para quem precisa do crédito. Já não falo das Possibilidades porque devem ser umas tias provincianas que só cumprimentam os senhores da aldeia.
Clarificando. Sabemos que há dinheiro de dois tipos: há o fácil e o difícil. Só não estou a conseguir relacionar estas variáveis com a conjugação da palavra liberdade. Peço ao caro leitor que retome comigo o problema.

A questão do dinheiro fácil é que nem todos devemos ter dinheiro fácil. Se eu tiver dinheiro fácil o capitalismo é a libertação do indivíduo e a realização do seu ser moral, verbos que só um engenheiro como Botelho Moniz sabe conjugar na plenitude das sua possibilidades. Se houver uma generalização do dinheiro fácil, torna-se tudo mais difícil e a realidade cai-nos em cima ou, pelo menos, sobre aqueles que vivem acima das possibilidades. O que é justo e corrige assimetrias. Crédito fácil, vida difícil. Crédito difícil, vida ainda mais difícil. Perdão, desconcentrei-me outra vez. Talvez seja melhor concluir dizendo que Botelho Moniz acertou de facto no coração do problema.
Nisto, o meu gato salta para a secretáia e arremete: mas ó Moniz, o crédito não é uma coisa em que a gente paga cem vezes mais o que nos é emprestado? Não, respondo com paciência e bonomia, o crédito é uma instituição credível, regulada pelo mercado, que deve estar sujeita às leis da realidade: quem tem paga (ou o crédito ou o produto) quem não tem, não tem possibilidades de ter, nem de vir a ter, nem de vir a ter possibilidades de ter. Mas Alf - replica o meu gato - isso não colocaria em causa os fundamentos do capitalismo transformando-o num socialismo planificado e mascarado, conforme já escrevia o Galbraith nos anos sessenta? Este meu gato, que nem sequer tem rendimentos, agora deu nisto. Imprimi o post do Botelho Moniz e mandei-o ir estudar o caso.

Adiante. Viver acima das possibilidades decorre de um desacerto orçamental. Por exemplo: eu ganho uns milhares de euros para dirigir o departamento de uma empresa que desenvolve soluções integradas para criar, gerir e automatizar o acesso a informação crítica em todo o tipo de eventos. Tu ganhas 500 euros para limpar tabuleiros no centro comercial. Eu sou um indíviduo livre. Tu és um gajo que vive acima das possibilidades. Mas esta ralé de 1000 euros pra baixo queria televisões, casa própria e dvd. Olha, olha. Certinho e direitinho de casa pró trabalho e do trabalho pra casa ( e em transportes públicos a apertar a sardinha) que a produção de bens é só para quem tem possibilidades. Malandros.

P.S. Devo dizer que há outra pequena lei do funcionamento económico, mas um pouco mais desagradável, associdada ao fim do mundo da prosperidade, não ensinada em MBAs e cursos de gestão: é que, normalmente, quando a realidade cai em cima de pessoas habituadas a dinheiro fácil pela expansão do crédito e que, por isso, vivem acima das possibilidades, segue-se que umas quantas mocas saiem da dispensa e caiem na cabeça de alguém na mesma proporção de destruição conforme o número daqueles a quem a realidade caiu sobre a sua cabeça, mesmo que vivendo acima das possibilidades, pelo que, sem possibilidades ou com possibilidades, a realidade passa ser um pouco mais pesada e a liberdade política um pouco mais difícil.

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